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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Há um Deus vulnerável na manjedoura?


Há um Deus vulnerável na manjedoura?
Existem três comemorações que os cristãos de diferentes denominações costumam celebrar: o nascimento de Jesus, a sexta-feira da paixão e a páscoa (a ressurreição). Nessas duas primeiras festividades há uma comoção geral entre as pessoas. Quem nunca ouviu falar do espírito do Natal? Nesses três momentos, tem-se o interesse de assimilar a vida e a história de Jesus do seu nascimento até a sua ressurreição na vida litúrgica da igreja. Quando essas celebrações são feitas de acordo com a Palavra e não pelas invenções humanas ou sugestões de satanás, edificam aqueles de delas usufruem.
O natal e a sexta-feira da paixão podem produzir um sentimentalismo vão que ora usurpa de Jesus o seu verdadeiro lugar (lega seu devido espaço ao Papai Noel ou a um Cristo eternamente crucificado), ora subtrai-lhe a importância. Muitos sentem um prazer mórbido e pecaminoso ao verem o menino Jesus da manjedoura ou o chagado homem de dores, porque acreditam que como menino ou agonizante torna-se um Deus frágil, que não exige mudança, tampouco tem poder para julgar.
Essa é a visão de Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa) quando, no poema O Guardador de Rebanhos, afirma: “Vi Jesus Cristo descer à terra./ Veio pela encosta de um monte/ Tornado outra vez menino,/ A correr e a rolar-se pela erva/ E a arrancar flores para as deitar fora/ E a rir de modo a ouvir-se de longe”[1]. Pessoa, por meio de Caeiro, retrata um Jesus que foge da mentira do céu, onde interpretava um papel divino e no qual lhe foi negado ter um pai e uma mãe.
Tal como os Fariseus de outrora que buscavam enquadrar Jesus em um currículo de Messias que era incompatível ao indouto filho do carpinteiro (Mt 13.53-58; Lc 4.16-30; Jo 6.42). Segundo João, os judeus nutriam alguns preconceitos extrabíblicos que utilizavam como critérios para aguardar a vinda do Messias: ele não teria sua procedência conhecida (Jo 7.27); seria um operador de grandes sinais (Jo 7.31) e que não viria da Galileia (Jo 7.42). Carson[2], comentando João 1.46, afirma que o fato de Jesus ter sido criado em Nazaré (Mt 2.23) obscurecia seu nascimento em Belém e, assim, sua descendência do rei Davi.
A ânsia de ver Jesus como uma simples personagem histórica é latente, nos dias dos fariseus apóstatas ou em nossos dias em que Bultmann, teólogo alemão que nutria o desejo impossível (pela falta de fontes) de encontrar na bíblia uma imagem de Jesus sem sinais miraculosos (que via como mitos), mas pautado pelos fatos, assim como o escritor português José Saramago, na obra O Evangelho Segundo Jesus Cristo, na qual defende que Jesus é fruto da relação sexual de José e Maria[3].
Contudo, quando Mateus descreve a genealogia de Jesus, com o intuito de mostrar que ele de fato era da descendência de Davi, mostra de Mateus 1.1-16a a ênfase de homens gerando filhos, todavia, em Mateus 1.16b, a ênfase está em Maria: José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama o Cristo” (Mateus 1.16b). Segundo Hendriksen[4], Jesus não é fruto da relação íntima de um casal, pois não a conheceu, enquanto[5] ela não deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Jesus” (Mateus 1.25). Dessa maneira, José é pai legal de Jesus o que lhe dá direito ao trono de Davi e cumpre a profecia de que um descendente de Davi sempre ocuparia o trono (2Samuel 7.12,13), por isso, o anjo apresenta Jesus a Maria: Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim” (Lc 1.32,33).
Berkhof[6] defende que “se Jesus fosse gerado por um homem, seria uma pessoa humana, incluída na aliança das obras, e, como tal, partilharia da culpa comum da humanidade. Dessa maneira, temos certeza que Jesus não tem contaminação alguma pelo pecado.
Segundo Costa[7], era necessário que o Redentor tivesse duas naturezas: humana e divina, porque aquela lhe dá a capacidade de dar perfeito exemplo a seus discípulos; cumpre o propósito de dominar a criação; representar seu povo como novo Adão; cumprir a lei; para que pudesse sentir os efeitos do pecado (sem se contaminar com ele); ser tentado e oferecer o devido padrão. A natureza divina permitiu a Jesus cumprir perfeitamente a lei; fosse capaz de salvar; derrotar definitivamente a satanás; suportasse a culpa de seu povo e a ira de Deus; oferecer mediação ao seu povo e apresentar-se como sacrifício perfeito.
O verdadeiro foco para contemplarmos o Senhor está em reconhecermos que ele foi semelhante a nós em todas as coisas, exceto no pecado (Hb 4.15). Jesus amou o Jovem rico (Mc 10.21), chorou no tumulo de Lázaro (Jo 11.35), compadeceu-se da viúva de Naim (Lc 7.11), agiu com firmeza contra os vendedores do templo (Jo 2.15), angústia e tristeza no Getsêmani (Mt 26.37), todavia, como afirma Calvino, “em Cristo, em quem habitou a plenitude da justiça e absoluta pureza, essas emoções estavam isentas de todo pecado”[8]. Enquanto nossas emoções atingem níveis incontroláveis capazes de controlar nossa razão e determinar ou modificar nossos princípios, as de Jesus “sempre foram reguladas por um estrito princípio de justiça”.
Fernando Pessoa exclama diante do seu Jesus fictício: “e a criança tão humana que é divina”[9], porém não existem duas formas de Jesus (homem e Deus), mas “as duas naturezas, inteiras, perfeitas e distintas – a divindade e a humanidade – foram inseparavelmente unidas em uma só pessoa, sem conversão, composição ou confusão; essa pessoa é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, porém, um só Cristo, o único Mediador entre Deus e o homem” (CFW VIII, 2).
Portanto, da manjedora a ressurreição Jesus é o mesmo homem e Deus e o único que pode nos dar uma vida plena e que caminha para a eternidade. Tanto o Jesus adorado pelas mais diferentes classes sociais (pastores e magos), aquele que é pregado do madeiro e aquele que ressuscitou afirma que, para segui-lo, é necessário negar a si mesmo e tomar a sua cruz (Mc 8.34). Não há vulnerabilidade na manjedoura, mas aquele que nos ensinou a mais intensa humildade.





[1] PESSOA, Fernando. Poemas Completos de Alberto Caeiro. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 43.
[2] CARSON, D.A. Comentário de João. São Paulo: Shedd, 2007, p.160.
[3] SARAMAGO, José. O Evangelho Segundo Jesus Cristo. São Paulo, Companhia das Letras: 2005, p.19.
[4] HENDRIKSEN, Willian, Comentário do Novo Testamento: Mateus. Vol 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.
[5] Apesar de Mateus 1.25 não estar nos melhores manuscritos, consideramos que a conjunção ἕως é pertinente e mostra que após o período de gestação do Messias José e Maria tiveram relação sexual.
[6] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo, Cultura Cristã: 2001, p.308,309
[7] COSTA, Hermisten Maia Pereira. Eu creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo. São Paulo, Parakletos: 2002, p.223-225.
[8] CALVINO, João. Hebreus. São José dos Campos-SP: Fiel, 2012, p.115.
[9] PESSOA, Fernando. Poemas Completos de Alberto Caeiro. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 45.

O Crente e o Natal


O crente e o natal
Quem não se assustaria ao ver alguém vestindo um grosso agasalho de lã nos dias de mais denso calor? Contudo todos convivem e respeitam o Papai Noel que, como a advento do ar condicionado, tem dias mais agradáveis em centros comerciais. Quantos já viram um pinheiro coberto de neve? Tirando aqueles que puderam viajar para o exterior ou em filmes e cartões postais isso é algo inimaginável em nosso clima tropical. Com certeza, natal é um fenômeno que merecia um estudo mais aprofundado.
Sem dúvida o natal é uma festa singular, pois apesar de parecer avesso a nossa cultura clima irradia ternos sentimentos nas pessoas e permite um aquecimento ímpar de nossa economia. O missionário presbiteriano Rev. Ashebel Green Simonton registra em seu diário que não teria natal no ano de sua chegada, pois não concebia essa festa em pleno verão.
Tirando as datas cívicas, todas as nossas festividades são de influência europeia e foram transmitidas pelos nossos colonizadores ou pelos diversos imigrantes que encontraram em nosso solo oportunidade de vida. As misturas culturais de nosso pais (do europeu, do índio e do africano) permitiram que muitas festas ganhassem em nosso país um rosto único.
O Natal, por causa do catolicismo popular, se integrou em nossa cultura em sem perder os símbolos europeus. Tem forte apelo às pessoas o fato de ver uma criança entregue a futura morte em flagelo inominável. Todavia essa festa tem encontrado alguns problemas: o fato de sua influência pagã e o consumismo latente.
A influência da teologia neopuritana tem feito muitas igrejas a deixar de comemorar essa data. Puritano, segundo o Rev. Augustus Nicodemus Lopes, no texto “Sobre puritanos, puritânicos e neopuritanos”, foi um termo dado a ministros e pastores ingleses entre o séc. XVI e XVIII presbiterianos, batistas e congregacionais que defendiam um alto grau de pureza. Segundo Manoel Canuto, no texto “Em que os alcunhados Neopuritanos são semelhantes aos Puritanos, hoje no Brasil”, os puritanos eram conhecidos como teólogos da santidade e foram exemplos de piedade e ortodoxia.
Os puritanos tiveram um papel muito importante na história da igreja e assim como a Reforma Protestante nos deixaram um grande legado em obras teológicas de referência, mas suas ideias devem ser interpretadas à luz das Escrituras para não nos destruamos sendo demasiadamente justos (Ec 7.16)
De fato, o Natal não era uma data religiosa contemplada pelos puritanos e chegaram a proibi-lo na Inglaterra e Estados Unidos nos séculos XVI e XVII. Na Inglaterra, esta festa foi proibida em 1644 pelo parlamento puritano e só voltou a ser comemorado em 1660 com a ascensão de Carlos II e voltou a ser feriado apenas em 1856. As razões para isso são as seguintes:
·         O dia 25 de dezembro não é o dia do nascimento do Senhor Jesus. Partindo do pressuposto de que Zacarias servia no turno de Abias (Lc 1.5. Os levitas se dividiam em 24 turnos que ministravam durante 15 dias duas vezes ao ano no templo [Veja 1Cr 24.1-19] e o turno de Abias era o oitavo turno [1Cr 24.10]) que caia no mês de Tamuz (junho e julho, quarto mês judaico [Veja Jr 39.2 e Zc 8.19]) e quando terminou seu serviço sua esposa concebeu João Batista (Lc 1.23,24). Sabendo que Jesus tem seis meses de diferença de João (Lc 1.26) o Senhor teria sido concebido no fianl de Tebede (dezembro e janeiro) e início de sebate (janeiro e fevereiro), nascendo no mês de etenim (setembro e outubro) quando os judeus comemoravam a festa dos tabernáculos;
·         No dia 25 de dezembro, os romanos comemoravam a festa do Deus Sol conhecida como solis invictus (sol invicto) a mando do Imperador Aureliano. Nessa data acontece no hemisfério norte o solstício de inverno (a noite mais longa do ano) e na mentalidade pagã era o próprio nascimento do sol chamada de Brumália e era realizada logo após a Saturnália (festa e honra ao deus saturno) que acontecia do dia 17 a 24 de dezembro. Essas eram festa populares entre os pagãos e tem origem desde de o Egito, onde o sol tamém era visto como uma divindade (deus Rá ou Ré);
·         Não há nenhuma orientação bíblica para que essa data seja comemorada (por isso os puritanos também não comemoravam a Páscoa e o Pentecostes);
·         Passa a ser comemorado pela igreja a partir do século IV quando a Igreja começa a se desviar se transformado no que chamamos de Igreja Romana.
Os símbolos de natal eram igualmente repudiados, pois eram provenientes da cultura pagã:
·         A árvore de natal: os pagãos tinham o costume de enfeitas as árvores no inverno para que os espírito delas retornasse depois do inverno;
·         A guirlanda: era o ornamento próprio dos lugares de culto pagão.
Não vemos como um problema a comemoração do Natal pelos seguintes motivos:
1.)    O que a data significou no passado não é importante, mas que ele significa hoje: os pagãos só poderiam interpretar de maneira precária o solstício de inverno, pois, carentes da iluminação do Espírito, “mudaram a glória do Deus incorruptível em imagem de homem corruptível” (Rm 1.23). Contudo, nós que conhecemos a Palavra não podemos ver a revelação geral do Senhor de outra maneira a não ser contemplando seus atributos invisíveis, tal como seu eterno poder. Não estamos dizendo
Sobre essa tendência neopuritana concordamos quando o Rev. Augustus Nicodemus Lopes afirma que o transplante do puritanismo que floresceu na Inglaterra e na Escócia entre os séculos XVI e XVIII necessitam de traços históricos que não existem hoje, porém podemos com sucesso utilizar sua teologia e imitar sua piedade.

Rev. Diego José Gonçalves Dias

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Tatuagem, o transbordamento idólatra do velho homem


Tatuagem, o transbordamento idólatra do velho homem
O costume de tatuar-se não é novo. Segundo García[1], o registro mais antigo é de 5.300 anos em um corpo encontrado nos Alpes Italianos e múmias de 4.000 anos, no Egito, também apresentavam desenhos nos corpos. A palavra tatuagem vem de tatau, uma onomatopéia (figura de linguagem de reproduz os sons) polinésia que reproduzia os sons dos instrumentos usados para perfurar a pele e desenhar. O explorador, navegador e cartógrafo da Marinha Real Britânica, James Cook (1728-1779) foi um dos primeiros ocidentais a se submeter a tatuagem para entrar em contato com os povos nativos do Taiti[2].
No passado, desenhos nos corpos devam forças espirituais aos guerreiros ou marcavam ritos no antigo Egito (as sacerdotisas de Hathor de 2.000 apresentavam desenhos na pele[3]). Segundo Oliveira et al, as tatuagens existiram para: a.) identificar membros de um grupo; b.) situar o indivíduo em uma organização social ou em uma categoria de gênero; c.) promover identificação de papéis sexuais; d.) indicar conduta social desejada; e.) indicar status ou classe superior e e.)dar sensação de segurança[4]. García afirma que a persistência do uso da tatuagem evidencia a necessidade do homem se autorrepresentar. O corpo humano, desde tempos idos, sempre representou uma vitrina aberta para o homem transbordar sua identidade, a “realidade individual de eu diante de outros ‘eus’”[5].
Friedrich Nietzsche (1844-1900) cunhou na filosofia a expressão alemã übermensch que foi traduzida por super homem, todavia esse conceito, que ocupa papel central na obra Assim Falou Zaratrusta[6] desse pensador, é formada por duas palavras alemãs: über (sobre, acima de, além de) e mensch (ser humano)[7] que significam “além do homem” ou como Rubem Alves gostava de traduzir: o homem transbordante[8], pois o filósofo prussiano não se atentava para a dimensão física do ser humano, mas para a sua transformação. O homem deve deixar seu estado de submissão (camelo), lutar com fora e violência por seus direitos (leão) e atingir o estágio de uma criança, ou seja, dócil a aprender e recomeçar.
A obra Assim falou Zaratrusta afirma: “Deus morreu: agora, nós queremos que viva o Super-homem”. Dessa maneira, Nietzsche, trazendo à tona a voz de todos os ímpios, entende que a existência de Deus é um entrave para o completo desenvolvimento do homem, porque o induz a permanecer em uma religião de compaixão que lhe suga todas as forças contrariando-lhe as a lei da evolução e o faz despreparado para a seleção natural[9].
Dentro dessa visão distorcida, o novo homem vê a compaixão como um sentimento ruim e abandona todos os princípios morais advindos do cristianismo fundado nas Escrituras. O radical abandono de Deus forja um homem tolo, pois apesar de desconhecer o Senhor acredita que tem subsídios suficientes para angariar uma vida completa, pois Jesus disse eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10.10b)
Calvino afirma que “o homem jamais chega ao puro conhecimento de si mesmo até que haja antes contemplado a face de Deus, e da visão dele desça a examinar-se a si próprio”[10], todavia o homem busca conhecer-se a si mesmo não confrontando-se a Palavra, mas diferenciando-se dos outros indivíduos pecadores que conhece[11]. Dessa forma, tal como na lógica não se pode extrair verdade de uma premissa (afirmação qe não pode ser possível, provável ou falsa[12]) falsa, tampouco se pode extrair uma identidade verdadeira fora das Escrituras.
Ortega[13], citando Richard Sennett, afirma que as mudanças sócio-econômicas ocorridas nos séculos XVII e XVIII produziram uma sociedade íntima que se caracteriza por uma vida pessoal desequilibrada e uma vida pública esvaziada. Se no século XIX, a sexualidade era a fonte de ansiedade e patologia, o culto ao corpo ocupa esse lugar no século XX e XXI. De mesma maneira que um monge se entrega a ascese (regra de vida de renúncias para alcançar uma identidade idealizada), um jovem pode buscar moldar seu corpo com anabolizantes, perfurar-se com piercings ou tatuar-se para de diferenciar de um grupo ou se aproximar de outro.
Oliveira et al[14], citando Knop, afirma: “O corpo bem cuidado pode garantir ao indivíduo melhor performance e aceitação social, tornando a pessoa mais vendável e aceitável”. Segundo Osório[15], as tatuagens eram uma marca de trabalhadores de baixa renda, imigrantes e criminosos, porém essa realidade mudou quando a classe média começou a fazer uso.
A tatuagem nasce na esfera do homem que é essencialmente comunicativo e deseja fazer seu corpo emoldurar suas convicções mais íntimas. O crente pode fazer uso desse meio de consumo?
Como vimos, a prática de tatuar o corpo não provem da tradição cristã, mas de religiões pagãs. O substantivo קַֽעֲקַ֔ע  (qa’aqa) (Lv 19.28) pode ser traduzido por marca, impressão tatuagem e está relacionado a ritos fúnebres (veja Is 22.12; Jr 16.6). Harrison[16] explica que a prática de inserir palavras no corpo era típico em cerimônias fúnebres pagãs, o que não refletia a santidade de Deus (veja Dt 14.1,2). Em nossos dias, a prática da tatuagem está muito ligada à moda que é passageira e ao mundo.
Jesus, em João 17, mostra que o mundo odeia o cristão, porque esse não é do mundo (v.14) e “todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12). No versículo 15-17, Jesus enfatiza que não somos do mundo e que precisamos ser santificados pela Palavra que é a verdade. Dessa maneira, quando o crente se distancia dos eixos da Palavra, fatalmente estará suscetível às ciladas/artimanhas/métodos de satanás (Ef 6.11).
Paulo afirma, em 1 Coríntios 6.19, que não nos pertencemos, pois fomos adquiridos pelo Senhor, por isso, somos templo do Espírito Santo. Dessa forma, o crente, ao utilizar seu corpo, deve entender como Calvino: “devemos viver em pleno temor a fim de não o expulsarmos, e ele, por sua vez, nos abandone, irado com nossos atos sacrílegos”[17].
A tatuagem envolve comunicação. Essencialmente, sua função é testemunhar. Outra pergunta é se o crente pode tatuar temas bíblicos como palavras impregnadas de conceitos ou versículos bíblicos.
Tripp[18] afirma que uma tendência ruim entre os cristãos é ver a Bíblia como uma enciclopédia, por isso, diante de um problema buscam informações curtas e categóricas, assim ninguém achará faça ou não faça tatuagem nos moldes que conhecemos, mas nos mostra como no processo de santificação somos conformados à imagem de Cristo.
As tatuagens profanas ou de cunho vazio (tatuagens tribais) podem expressar mensagens que não conhecemos. Não conhecer, profundamente, o que se tem tatuado é como alguém que desfila uma caminha com uma inscrição em uma linguagem que se desconhece. Outra problemática é seu caráter permanente que está sujeito às mudanças da vida e das concepções pessoais.
O conteúdo bíblico de uma tatuagem não altera o fato de possuí-la sem o aval da Palavra. O crente não é chamado a fazer o que a Bíblia manda e sua vontade pessoal naquelas questões em que ela aparentemente não trata, mas cumprir completamente única e exclusivamente suas orientações. Cultuar o corpo, mesmo que sem completa intenção, é seguir “as imaginações e invenções homens tal como as sugestões de satanás” (CFW, XXI,1).
O crente que traz tatuagens de sua vida pregressa não deve ser ridicularizado, pois são marcas de uma vida que passou, tampouco aquele que as faz como convertido deve ser visto como alguém menor na fé, mas alguém que, infelizmente, exteriorizam a identidade de seu velho homem carnal, influenciado pelas vãs oscilações desse mundo.
Não se deve cogitar que tatuados percam a salvação, porque “os crentes verdadeiros, em razão do amor imutável de Deus e do seu decreto e pacto de lhes dar a perseverança, da união inseparável entre eles e Cristo, da contínua intercessão de Cristo por eles e do Espírito e semente de Deus permanecendo neles, nunca poderão total e finalmente cair do estado de graça, mas são conservados pelo poder de Deus, mediante a fé para a salvação.” (CMW, pergunta 79).
Se fosse da vontade de Deus que marcássemos nosso corpo como se marca o gado, ele nos teria informado pela Palavra com santos exemplos ou claras determinações. Portanto, assim como Paulo as únicas marcas que deveríamos ostentar são as marcas de Jesus (Gl 6.17).




[1] GARCÍA, Alberto González. El Tatuaje y la Perforación en la Construción de la corporeidad. http://web.b.ebscohost.com/ehost/pdfviewer/pdfviewer?vid=3&sid=d1511b86-3e55-443b-87cf-5b8ec676bf46%40sessionmgr110&hid=115. Acessado no dia 12 de dezembro de 2014 às 23h48.
[2] http://www.abril.com.br/noticia/diversao/no_202587.shtml. Acessado no dia 12 de dezembro de 2014 às 23h05.
[3] http://www2.uol.com.br/modabrasil/imagem_atitude/tatuagem/index2.htm. Acessado no dia 12 de dezembro de 2014 às 23h24.
[4] OLIVEIRA, Mário José; TROCCOLI, Irene Raguenet; ALTAF, Joyce Gonçalves. Eu estendido e tatuagem: um aspecto identitário no comportamento do consumidor. Acessado no dia 13 de dezembro de 2014 às 01h10.
[5] BOCK, Ana Maria Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes. Psicologias: uma introdução ao estudo da Psicologia. São Paulo: Saraiva, 1995, p.212.
[6] NIETZSCHE, Fridrich. Assim Falou Zaratrusta. São Paulo: Martin Claret, 2003, p. 216.
[7]http://michaelis.uol.com.br/escolar/alemao/definicao/alemao-portugues/mensch_49958.html. Acessado no dia 12 de dez de 2014 às 16h45.
[8] http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2208200009.htm. Acessado no dia 12 de dezembro de 2014 às 16h49.
[9] NIETZSCHE, Fridrich. O Anticristo: ensaio de uma crítica do cristianismo. Ateus, 2002, p.15.
[10] CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. Vol I. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p.48.
[11] BOCK, Ana Maria Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes. Psicologias: uma introdução ao estudo da Psicologia. São Paulo: Saraiva, 1995, p.213.
[12] CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2005, p.112.
[13] ORTEGA, Francisco. Práticas de Ascese Corporal e Constituição de Bioidentidades. http://www.cadernos.iesc.ufrj.br/cadernos/images/csc/2003_1/artigos/2003_1%20FOrtega.pdf. Acessado no dia 13 de dezembro de 2014 às 00h01.
[14] OLIVEIRA, Mário José; TROCCOLI, Irene Raguenet; ALTAF, Joyce Gonçalves. Eu estendido e tatuagem: um aspecto identitário no comportamento do consumidor. Acessado no dia 13 de dezembro de 2014 às 01h10.
[15] OSÓRIO apud OLIVEIRA, Mário José; TROCCOLI, Irene Raguenet; ALTAF, Joyce Gonçalves. Eu estendido e tatuagem: um aspecto identitário no comportamento do consumidor. Acessado no dia 13 de dezembro de 2014 às 01h10.
[16] HARRISON, Roland K. Levítico: introdução e comentário. São Paulo: Mundo Cristão, 1983, p.186.
[17] CALVINO, João 1 Coríntios. São Bernardo do Campo-SP: Parakletos, 2003, p.195.
[18] TRIPP, Paul David. Instrumentos nas Mãos do Redentor. São Paulo NUTRA, 2009, p.391.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Dúvidas sobre Culto Familiar (II)


Dúvidas sobre o Culto Familiar
3. Quem convoca e dirige o Culto Familiar?
Com certeza, a artimanha satânica mais perniciosa propagada pelo feminismo, em todas as suas ondas, tenha sido o fato de que o homem não exerce liderança na família e que partilha ou troca com a esposa, de forma irresponsável e negligente, a regência de seu lar.
O Reverendo James W Alexander afirmava que “nenhum homem pode aproximar-se do dever de liderar sua família, em um culto espiritual, sem uma solene reflexão do papel que ocupa em relação aos seus deveres. O homem é o chefe do lar, por divina e inalterável instituição. Estes são deveres e prerrogativas que ele não pode transferir”.
Portanto, cabe ao homem convocar e estabelecer quem irá dirigir o culto familiar (é saudável que exista um rodízio entre os membros contando inclusive com as crianças que podem ser incentivadas a esse encargo), todavia é útil analisarmos as bases teológicas do Culto doméstico para nos aprofundarmos nessa questão.
O Pastor Joel Beeke afirma que a base teológica do culto doméstico está na Trindade, pois “o amor de Deus é expansivo e transbordante e compartilha as bem-aventuranças intertrinitárias. O amor entre as pessoas da Trindade era tão grande desde toda a eternidade, que o Pai decidiu criar um mundo de pessoas que, embora finitas, teriam personalidades que refletiriam o Filho”.
Dessa maneira, nossa família deve se moldar a esse amor expansivo e interpessoal, pois deve estar profundamente embasada no amor do marido pela sua mulher, mas também no respeito da esposa pelo seu marido (Ef 5.33) e ambos na iniciativa de criar seus filhos na disciplina e na admoestação do Senhor (Ef 6.4b). Todavia o marido amará sua esposa tendo como modelo Cristo, que deu a vida pela igreja (Mt 5.25); a esposa respeitará seu marido sendo-lhe submissa (Ef 5.22,24) e ambos criarão sua prole sem provocá-la a ira (Ef 6.4a). Uma família disciplinada a buscar e agradar a Deus e não aos seus desejos pessoais encontra grande felicidade, porque na presença do Senhor há plenitude de alegria e delícias eternas (Sl 16.11).
A Confissão de fé de Westminster, dissertando sobre a Trindade, defende: “na unidade da Divindade há três pessoas de uma mesma substância, poder e eternidade – Deus o Pai, Deus o Filho e Deus o Espírito Santo. O Pai não é de ninguém – não é nem gerado, nem procedente; o Filho é eternamente gerado do Pai; o Espírito Santo é eternamente procedente do Pai e do Filho” (II, 3).
Assim como na Trindade, os membros da família, especialmente o marido e a mulher, não podem se separar (Mt 19.6); todos são idênticos em dignidade e, por isso, é proibido qualquer tipo de insubmissão das partes ou tratamento hostil (Veja 1Pe 3.7; Pv 21.19; Dt 21.18); existe uma ordem representativa na família (o marido representa a esposa e ambos os filhos), pois, assim como toda a Trindade é chamada pelo Pai (Ef 3.14,15 compare com 1Jo 1.3), o homem representa toda a sua família.
Assim como as pessoas da Trindade se diferenciam por certas distinções pessoais (o Pai cria; o Filho redime e o Espírito Santo santifica), devemos buscar a rica diversidade de dons em nossos lares aproveitando-os e os educando ao serviço do Reino.
Louis Berkhof afirma que cada pessoa da Trindade não tem existência fora ou à parte da Trindade. Certa vez ouvi de um chefe de família: “o evento em que não couber um de nós, não caberá nenhum de nós”. Quantas vezes a família se esfacela por priorizar desejos pessoais? Precisamos entender que as decisões que tomamos devem honrar a Deus e, assim, beneficiar toda a nossa família. Eva e Adão decidiram viver de forma autossuficiente de Deus e tiveram grandes prejuízos na vida familiar. Davi imaginou que uma aventura amorosa não traria conseqüências para a sua vida espiritual, mas nossa vida espiritual está intimamente ligada a nossa vida familiar e vice-versa.
Nossos primeiros pais, Adão e Eva, foram criados para adorarem a Deus, mas, cedendo à tentação maligna, transformaram “a alegria da adoração e da comunhão com Deus em medo, temor, culpa e alienação” (Joel Beeke) (Gn 3.23,24). Nessa realidade de pecado, Deus fez uma aliança com nossos pais, prometendo o Salvador (Gn 3.15). Agora, em Jesus Cristo, não não precisamos mais ter medo, pois “No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor” (1Jo 4.18)
Além de uma aliança orgânica (alianças que acontecem na Palavra não de maneira isolada, mas progressiva), Deus lida com a raça humana por meio de lideranças ou representações que são plenamente visíveis nas Escrituras:
·   Sete, Noé e Jó oferecendo sacrifícios por seus filhos (Gn 8.20-21; Jó 1.5);
·   Em Abraão, todas as famílias da terra seriam abençoadas (Gn 12.3);
·   Na lei mosaica o pai deveria liderar a celebração da páscoa e a instrução dos filhos sobre o sentido dessa comemoração (Êx 13.14; Dt 6.20);
·   Pedro mostra que a promessa é para os pais e os filhos (At 2.39);
·   O marido crédulo santifica sua esposa (1Cor 7.14).
Cabe ao homem proclamar de forma vigorosa diante de todos: “agora, pois, temei ao SENHOR e servi-o com integridade e com fidelidade; deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e no Egito e servi ao SENHOR. Porém, se vos parece mal servir ao SENHOR, escolhei, hoje, a quem sirvais: se aos deuses a quem serviram vossos pais que estavam dalém do Eufrates ou aos deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha casa serviremos ao SENHOR”. (Js 24.14-15)
Josué está com cem anos de idade. Sabe que não poderá mais conduzir o povo e reconhece que precisa influenciá-los na fidelidade ao Senhor, porque, assim como no passado o povo de Deus deuses egípcios, os ídolos dos povos pagãos lhe seriam encantadores a essa geração que entra na terra prometida.
Nós pais precisamos tomar as rédeas da formação espiritual de nossas casas cumprindo em nossas vidas e na vida de nossos filhos Deuteronômio 6.7, porque os ídolos pagãos do mundo podem encher os olhos deles e professores ateus poderão corrompê-los se não tomarmos a iniciativa de influenciarmos nossa família no serviço ao Senhor.
Assim como Josué colocou a sua adoração familiar como modelo para os demais chefes de família, precisamos colocar nossa adoração pessoal e a liderança sobre o culto familiar como exemplo para os nossos filhos certos de que o Senhor nos honrará como honrou o sucessor de Moisés (veja Js 24.31).
O Professor Neil Postman dizia: “os filhos são mensagem vivas que enviamos a um tempo que não veremos”. Dessa maneira, precisamos continuamente ensinar nossa prole a se lembrar do criador nos dias de sua mocidade (Ec 12.1) para que, pelo nosso exemplo de liderança e obediência ao Senhor, eles venham no futuro a imitar esse procedimento em suas famílias.

O Reino requer homens que tenham a coragem de olhar nos olhos de sua família e dizer: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Cor 11.1). Essa tarefa exige total abnegação e dependência de Deus, mas “entrega o teu caminho ao SENHOR, confia nele, e o mais ele fará” (Sl 37.5).

Dúvidas sobre Culto Familiar


Dúvidas sobre o Culto Familiar
1. O que é o Culto Familiar? Como ele se relaciona com nossa vida cristã?
O homem existe para duas atividades muito importantes: glorificar a Deus e se alegrar nele para sempre. Glorificamos a Deus de três maneiras: em particular, em família e em público.
Geralmente, as pessoas, quando pensam na tarefa de glorificar a Deus, imaginam imediatamente o Culto dominical na beleza de seus hinos, cânticos espirituais e pregação. Infelizmente, a boa participação no Culto Solene só será possível se estivermos abastecidos por uma vida cujo maior anseio está na busca por um relacionamento com Deus. A Bíblia diz: “Buscai o SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto” (Is 55.6).
Sobre nossa oração particular, Jesus nos exorta a orarmos sempre e nunca esmorecermos (Lc 17.37), por isso, ela é parte vital de nossa vida cristã. Precisamos ter nosso momento com o Senhor, em que, como Maria, poderemos nos assentar aos pés de Jesus, convictos de que escolhemos a melhor parte (Lc 10.42).
Devemos estar conscientes de que, como Marta, irmã de Lázaro, temos inquietações e nos preocupamos com muitas coisas, mas o Senhor não deve ser negligenciado nem por assuntos vitais, tal como nosso alimento, bebida ou vestuário (Mt 6.31,32). O Mestre nos exorta: “buscai, pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.33).
Igualmente, precisamos glorificar a Deus em nossa vida familiar. Dessa maneira, o Culto doméstico é o momento em que a família se reúne para glorificar a Deus na leitura da Palavra, com cânticos e orações em espírito e em verdade (Jo 4.23).
Quando glorificamos a Deus nas diversas áreas de nossa vida a tarefa de nos alegarmos para sempre no Senhor se torna fácil e natural, pois aprendemos na oração a nos submetermos e confiarmos que “todas as coisas (as circunstâncias que nos parecem boas e aquelas que, em um primeiro momento, não nos parecem favoráveis, mas escondem a mão providente do Senhor) cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28).

2. Qual a importância do Culto Familiar?
O Pastor presbiteriano do séc. XIX James Waddel Alexander (1804-1859) disse: “é inevitável que o culto familiar, como uma forma de adoração espiritual, enfraqueça e desapareça em tempos quando o erro e o mundanismo invadem a igreja”.
Vivemos em tempos difíceis, nos quais a fé cristã parecer estar sendo suplantada tal como nos dias de Noé, quando “a maldade do homem se havia multiplicado na terra e era continuamente mau todo desígnio do seu coração” (Gn 6.5), todavia entendemos, tal como J.I. Packer, “Deus tem o comando completo desse mundo. Sua mão pode estar escondida, mas seu governo é absoluto”. Nesse contexto, somos convocados por Paulo: “não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as” (Ef 5.11).
Dessa maneira gostaria de mostrar algumas razões pelas quais o Culto Familiar é importante:
a)      O Culto Familiar é o momento em que testemunhamos que somos de Cristo e não pertencemos ao mundo. Logo, enquanto muitos estão preocupados com afazeres mundanos, nós nos voltamos ao Senhor com espíritos gratos;
b)      O Culto familiar é o momento em que o casal exerce a influência cristã uns sobre os outros e ambos sobre os filhos. O pastor puritano Jonathan Edwards afirmava: afadiguem-se em ensinar, aconselhar e orientar seus filhos; criem-nos na disciplina e na admoestação do Senhor; comecem cedo, quando ainda há oportunidade”;
c)      O Culto familiar leva nossa família a uma participação mais plena na vida da Igreja;
d)      O Culto Familiar contribui para a diminuição de brigas e desentendimentos. Leonard Ravenhill afirma, no livro Por que tarda o pleno avivamento, que a oração é um poderoso purificador da alma, pois podemos observar que “nunca oramos pela vida das pessoas que falamos mal e jamais falamos mal das pessoas pelas quais oramos”;
e)      Pelo Culto Familiar, somos obrigados a testemunharmos o Senhor em nossas vidas, especialmente entre aqueles que amamos e estão mais suscetíveis as nossas incoerências;
f)        No Culto familiar, o marido exemplifica a sua esposa e ambos aos filhos a necessidade de buscar a Deus;
g)      Quando as famílias assumem o compromisso do Culto Familiar, elas mudam a vida da igreja, que transforma a vida moral da sua cidade, consequentemente do seu Estado e de sua nação. Jerry Marcellino afirma, no livro Redescobrindo o tesouro perdido do Culto Familiar, “a falta de vida que muitas igrejas experimentam em nossos dias pode ter sua origem nas muitas famílias cujos membros adoram a Deus somente no domingo”.


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A Falsa Certeza da Prosperidade


A falsa certeza da prosperidade
Vivemos em um mundo que foge de todo e qualquer sofrimento. Proliferam em todos os lugares igrejas que prometem, em nome de Deus, uma vida fácil e abastada. Muitos Cristãos ligam a bênção do Altíssimo à aquisição de bens materiais.
O muito ter não é sinal da bênção de Deus sobre a vida, pois todo o esplendor de Herodes não o impediu e até o encaminhou a ser comido de vermes (At 12.21). Se nossa vida cristã não estiver centrada no Senhor onde há delícias eternas (Sl 16.11), somos os mais infelizes de todos os homens (1Cor 15.19). Jesus nos advertiu que deveríamos acumular tesouros no céu e não na terra, pois, enquanto os de cá são passíveis a ação da traça, ferrugem ou almejados por ladrões, os de lá estão seguros no Senhor (Mt 6.20) em quem “não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg 1.17). O cristão precisa desejar a “herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus” (1Pe 1.4).
Zaqueu, depois de sua conversão não se tornou mais rico, porém mais pobre aos olhos do mundo, pois decidiu doar metade de seus bens e devolver quatro vezes a quem a acaso tivesse defraudado (Lc 19.8). O pequeno Publicano de Jericó, mais de abnegado que o jovem rico, não foi justificado por sua doação ou justiça, pois somos salvos pela graça (Ef 2.5), contudo o seu desprendimento para com as riquezas mostra que a luz do Evangelho entrara em sua vida para iluminar os cantos mais escuros, mostrar seus pecados mais íntimos e forçar o abandono dos ídolos mais arraigados.
Como Moisés bem constatou (Ex 32.18), o clamor de um povo imerso na idolatria e na paixão perniciosa por este mundo caído não é guerra, nem derrota, mas festa vã que desagrada o Senhor
Diversos Cristãos, no mundo todo, usam de forma errada suas orações para esbanjar em prazeres mundanos esquecidos de que aqueles que são amigos do mundo são inimigos de Deus (Tg 4.3,4).
A fé Reformada sempre ensinou que em nossas igrejas há dois tipos de pessoas: aquelas que pertencem apenas ao rol de membros comungantes e aquelas que pertencem ao rol de membros nesta igreja na terra e têm seus nomes inscritos no livro da vida. A teologia entende que há uma igreja visível que consiste em todas as pessoas que pertencem a congregação, contudo existe uma igreja invisível, vista apenas por Deus em sua glória.
Devemos viver como pessoas que fazem parte da igreja invisível. Nossa vida, como membros de igreja, deve ser marcada pela concórdia e o esforço para garantir a paz (Fl 4.2,3) com todos (Rm 12.18), porque fazemos parte de uma mesma igreja que não possui placa ou denominação e que está no céu em perpétua adoração ao Cordeiro.
Naturalmente, o mundo, que elegeu o capital como seu deus supremo, não se contentará com uma pregação capaz de levar o fiel a viver “contente em toda e qualquer situação” (Fl 4.11). Ele não permitirá que as pessoas pensem que podem ser felizes na pobreza, humilhação, fome ou escassez, tampouco que relação delas com Cristo seja inabalável mesmo nas circunstâncias mais adversas (Rm 8.35). O ímpio jamais compreenderá como o crente zeloso pode enfrentar problemas diversos alegre (Tg 1.2) e confiante de quem o fortalece é o Senhor (Fl 4.13) em quem ele é mais que vencedor (Rm 8.37).
Igrejas corruptas e corrompidas nascem, porque o homem não suporta a sã doutrina e, assim, busca cercar-se de mestres que pregam segundo suas cobiças (2Tm 4.3). Entretanto Deus, que é livre para operar pelos meios diversos, sem eles, sobre eles ou contra eles segundo sua vontade (CFW V, 3), toma para si o seu povo desses arraiais, aparentemente, entregues a idolatria e a perdição para faze-los assentar nas regiões celestiais em Cristo Jesus (Ef 2.6).
A igreja fiel pode ser conhecida em três aspectos: a fiel pregação da Palavra; a fiel administração dos sacramentos e na disciplina segundo as Escrituras. Nesses lugares a pregação terá como objetivo mostrar ao crente que o seu maior problema é o pecado que, pela cobiça, gera morte (Tg 1.15).
Ouvindo essa pregação o crente será exortado a ir a Cristo e depositar seu pecado aos pés da Cruz, contudo não sairá dela sem passar por um processo de santificação que exige renuncia constante do mundo e seus atrativos. O pecador regenerado passava a compreender que vive neste mundo, mas não pertence a ele.

Há riquezas eternas para serem desfrutadas aqui nesta vida e no porvir a todos os que passam pela porta estreita e têm Cristo como seu único e verdadeiro caminho. Esse tesouro bendito não está recheado de ouro e prazeres temporais, mas da gloriosa providência do Senhor que, com sua boa mão, nos conduz às campinas verdejantes e às águas de descanso, mesmo que tenha que usar seu bordão e seu cajado para nos puxar do abismo ou bater em nossas pernas para não perdermos a ininterrupta marcha dos santos rumo à Jerusalém celeste.