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domingo, 13 de setembro de 2015

O CONHECIMENTO PELA INJUSTIÇA



O conhecimento de Deus pela injustiça
Em certo aconselhamento, alguém me disse que determinada amiga pulava todos os versículos que falavam da ira de Deus, porque, na concepção dela, um Deus que é amor (1Jo 4.8) não combina com um Deus capaz de se irar. Contudo Paulo afirma: A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça (Rm 1.18). Como conciliar um Deus amoroso, mas capaz de se iriar?
Geralmente, as pessoas atribuem sentimentos humanos a Deus, mas essa é uma incoerência grave, porque Deus não possui paixões como nós a possuímos. Paulo, à multidão de Listra que queria adorar a ele e Barnabé como deuses, afirma que era homem sujeito aos mesmos sentimentos que os homens (At 14.15), porque Deus não pode ser surpreendido pela decepção ou a alegria frente a alguma coisa, por, sendo onisciente (conhece todas as coisas), não há nada que está velado para ele.
Deus não se arrepende ou fica irado como um ser humano, mas a Bíblia utiliza esses termos como (antropopatia) uma maneira de fazer a Palavra compreensível. Todo sentimento que atribuímos a Deus servem para a sua glória.
A ira do Senhor tem um alvo específico: a impiedade e perversão/injustiça dos homens. O primeiro adjetivo revela uma realidade interna do coração, enquanto a segunda indica uma consequência da impiedade. Essa realidade de ira existe, porque tais homens detêm a verdade pela injustiça.
Esses homens ímpios e injustos detêm a verdade, porque Deus revelou (Rm 1.19), pela revelação geral (Rm 1.20) com a finalidade de glorificarem e darem graça ao Senhor. No Areópago, Paulo afirma que os atenienses eram “acentuadamente religiosos” (At 17.22), mesmo que tenha ficado outrora revoltado frente ä idolatria dominante (At 17.16). Paulo mostra que essa preocupação teológica dos gregos era uma busca rudimentar por Deus (At 17.27). Citando Cícero, Calvino afirma: como os próprios pagãos confessam, não existe nação tão bárbara, nenhum povo tão selvagem que não tenha impressa no coração a existência de algum Deus”.
Os pagãos buscam a Deus pela revelação geral, ou seja, conseguem observar de forma clara os atributos invisíveis de Deus, o seu eterno poder e a sua própria divindade (Rm 1.20), todavia esse conhecimento é insuficiente para a salvação, mas apenas faz esses homens indesculpáveis, porque “a manifestação de Deus, pela qual ele faz sua glória notória entre suas criaturas, é suficientemente clara até onde sua própria luz se manifesta, entretanto, em razão de nossa cegueira, ela se torna inadequada” (João Calvino).
Esses homens ímpios e injustos detêm essa busca por Deus na injustiça que vivem, porque glorificam a Deus segundo seus pensamentos loucos e idólatras minimizando a infinitude do Senhor a imagens de homens ou animais. Sabendo que temos acesso ao Pai por Jesus em um Espírito (Ef 2.18), truncar essa comunicação por qualquer outro caminho seria tão absurdo quando conversar frente a frente com alguém utilizando um aparelho celular.
Essa teologia deturpada leva a uma religião idólatra e, consequentemente, uma moral limitada. Quando alguns grupos evangélicos veem a depravação dos valores acreditam que isso é próprio de nossos dias, mas a estrada da depravação em todas as épocas teve como um grande portão largo em uma visão distorcida sobre Deus. Assim como na visão de Daniel (2.41), o Império Romano é o ferro misturado com o barro da licenciosidade e da baixa moral.
R.C. Sproul defende que “todo cristão é um teólogo. Talvez não um teólogo no sentido técnico e profissional da Palavra, mas um teólogo”. Portanto, a preocupação com a teologia é de vital importância, porque de sua deturpação processam as mazelas da idolatria. Contudo a sã doutrina jamais será palatável a todos, especialmente àqueles que buscam seus próprios mestres (2Tm 4.3) que compactuam com suas idolatria tal como foi o neto de Moisés – Jônatas – para Mica.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Reduzir ou não reduzir: a educação e a a depravação total (parte 3 de 3)



Reduzir ou não reduzir: a educação e a a depravação total (parte 3 de 3)
Quantas vezes se ouviu: “a educação transforma”, “se construíssemos mais escolas, não precisaríamos edificar tantos presídios”. Essa ideia vem ao encontro do seguinte pensamento de Cesare Beccaria: “quereis prevenir os crimes? Marche a liberdade acompanhada das luzes. Se as ciências produzem alguns males, é quando estão pouco difundidas; mas, à medida que se estendem, as vantagens que trazem se tornam maiores”. Sob esse prisma, a educação (as luzes, as ciências) ganha o status de redentora, como se a criminalidade fosse fruto apenas da ignorância ou da falta de oportunidade no mercado de trabalho.
A ideia de que o sistema carcerário é capaz de ressocializar o indivíduo é um doce sonho iluminista de que o indivíduo é essencialmente bom e que a sociedade o corrompe e, por isso, tirando-o da sociedade e abrigando-o em um lugar ideal ele pode se desvencilhar de seus antigos comportamentos.
O maior expoente desse pensamento é Jean Jaques Rousseau (1712-1778) que, no Discurso sobre a desigualdade, defende a existência de dois tipos de desigualdade entre os homens: a física (imposta pela natureza) e a moral (imposta pelas convenções humanas). O homem selvagem vive pelas suas paixões e não teme a morte e seus terrores de tal maneira que o mais virtuoso dos homens selvagens é o que menos resistia a sua natureza.
Rousseau afirma: “Os homens nesse estado [selvagem], não tendo entre si nenhuma espécie de relação moral nem de deveres conhecidos, não podiam ser bons nem maus, nem tinham vícios nem virtudes, a menos que, tomando essas palavras em um sentido físico, se chamem vícios, no indivíduo, as qualidades que podem prejudicar a sua própria conservação, e virtudes as que podem contribuir para essa conservação. Nesse caso, seria preciso chamar de mais virtuoso aquele que menos resistisse aos simples impulsos da natureza[1]”.
Dessa maneira, para Rousseau, o amor leva o homem físico ao sexo enquanto o homem moral a um contrato de casamento que estabelece meios para contê-lo, pois quanto mais intensa uma paixão mais se fazem necessárias as leis que a limitam[2], pois a própria lei civil veio subjugar a lei natural e fazendo gente honesta contar entre suas obrigações cortar o pescoço do seu semelhante[3].
Dessa forma, para esse iluminista francês, o homem nasce em desigualdades físicas, todavia a sua inserção na sociedade “modificam e alteram todas” as suas inclinações naturais. No âmbito da educação é o adulto que perverte a criança, por isso, no pensamento romântico de Rousseau, se o indivíduo puder se isolar dos vícios e mazelas da sociedade, desenvolver-se-á com mais dignidade.
Os teóricos Iluministas defendiam que a educação deveria ser democrática, laica e gratuita e Condorcet (1743-1794) propunha que se essa educação fosse difundida de forma universal diminuiria as desigualdades, mas como é comum até hoje entraves políticos levaram aqueles em melhores condições econômicas pagar por uma escola melhor.
Se a aquisição de conhecimento fizesse o homem melhor, as festas da Universidade de São Paulo não teriam tantos excessos, tampouco jovens universitários cometeriam crimes em trotes organizados para humilhar calouros. Se a distribuição de renda fosse suficiente para eliminara criminalidade, por que pessoas da classe média entram para a marginalidade com tanta frequência? Se a educação não partir da perspectiva da depravação total ela fatalmente funcionará como um frustrante paliativo para uma sociedade doente.
Alguns podem afirmar que não se pode submeter uma ciência (pedagogia) a um pressuposto religioso, todavia concordamos com o filosofo jansenista cristão Blaise Pascal (1623-1662) quando afirma: “a última tentativa da razão é reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam. Revelar-se-á fraca se não chegar a conhecer isso. É preciso saber duvidar onde é preciso, afirmar onde é preciso, e submeter-se onde é preciso. Quem não faz assim não entende a força da razão.
Enquanto os teóricos iluministas pregavam uma educação democrática, laica e gratuita que visava eliminar as desigualdades, Weber (1864-1920) afirma que “um simples olhar às estatísticas ocupacionais de qualquer país de composição religiosa mista mostrará, com notável frequência, [...] o fato de que os homens de negócios e donos do capital, assim os trabalhadores mais especializados e o pessoal mais habilitado técnica e comercialmentedas modernas empresas, são predominantemente protestantes”[4].
Essa realidade se dá porque, para os Reformadores, como Lutero, “nenhum pecado exterior pesa tanto sobre o mundo perante Deus e nenhum merece maior castigo do que justamente o pecado que cometemos contra as crianças, quando não as educamos [...]. Para ensinar e educar bem crianças precisa-se de gente especializada”[5].
João Amós Comênius (1592-1670) pretendia que a educação fosse democrática capaz de oferecer sólido conhecimento aliado à piedade, pois afirma: “prometemos uma organização das escolas, através do qual [...] todos se formem como uma instrução não aparente, mas verdadeira, não superficial, mas sólida; ou seja, que o homem, enquanto animal racional, habitue-se a deixar-se guiar, não pela razão dos outros, mas pela sua, e não apenas a ler livros e a entender, ou ainda reter e recitar de cor opiniões dos outros, mas penetrar por si mesmo até o âmago das próprias coisas e a tirar delas conhecimentos genuínos de utilidade”[6]. O marxista Althusser, de forma míope, vê nessa pedagogia uma perspectiva inferior, que visa apenas perpetuar valores religiosos e incapaz de transformar o indivíduo, todavia muitas escolas que começaram ao lado de igrejas como Havard transformaram pessoas e influenciaram o mundo.
Lessa afirma que o Colégio Mackenzie (embrião da instituição que é hoje), diferentes das outras escolas de São Paulo do século XIX, não possuía distinção de cor ou raça, tampouco da religião de seus alunos, mas promovia a educação mista (meninos com meninas), com métodos modernos de educação, sempre adotando a Bíblia como livro básico[7], de tal maneira que o diretor da Escola Americana (Primeiro nome do Colégio Mackenzie) questionando sobre a presença da Bíblia aberta na sala de aula é interpelado pelo diretor que responde: “a bíblia tem estado aberta nessa escola desde o primeiro dia de sua abertura e, quando fechar-se fechar-se-ão as portas da Escola Americana”[8].
A educação pode redimir o homem se observa-lo da maneira correta, ou seja, partindo do pressuposto de que o homem está contaminado até a sua raiz pelo pecado e sua transformação efetiva se dá quando toma consciência de que é um pecador e que será, um dia, julgado por Deus segundo a justiça dEle (Jo 16.8). Portanto, se a educação não oferecer os verdadeiros elementos críticos que levam o indivío a buscar a Deus e desprezar as coisas desse mundo ela será sempre insuficiente.


[1] ROUSSEAU, J.J. A Origem da Desigualdade entre os homens. http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000053.pdf. Acessado no dia 24 de dezembro de 2014, p.24.
[2] Ibidem, p. 26,27.
[3] Ibidem, p.38.
[4] WEBER, M. A Ética Protestante e o Espírito Capitalista, p.39.
[5] LUTERO in COSTA, H.M.P. Raízes da Teologia Contemporânea, p.86.
[6] Ibidem, p.115.
[7] LESSA, V.T. Anais da Primeira Igreja Presbiteriana de São Paulo, p.387.
[8] Ibidem, p. 137.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Reduzir ou não reduzir? Eis a questão!: a adolescência (parte 2 de 3)



Reduzir ou não reduzir? Eis a questão!: a adolescência (parte 2 de 3)

Vivemos em uma sociedade em que a regeneração efetuada pelo agir do Espírito Santo é um mito, uma lenda abominável que precisa ser extirpada, todavia se acredita que um lugar (sistema carcerário), uma faixa etária (a adolescência) e um processo de formação (educação) podem fazer alguém melhor para si e para os outros indivíduos. Agora qual crença é mais ingênua?
O termo adolescência vem do verbo latino adolesco, is, ere (mais precisamente do particípio passado adulescens), que significa crescer, desenvolver-se. Entretanto, segundo Bock et al[1], essa fase de desenvolvimento não possui critérios claros para ser delimitada, porque “não é uma fase natural do desenvolvimento humano”[2], não porque seja anormal os transtornos que a puberdade causa nos indivíduos que transitam da infância para a vida adulta, mas a sua duração e as suas implicações sociais.
Segundo Coutinho[3], o conceito de adolescência surge na cultura ocidental no contexto da consolidação do individualismo – cujo marco histórico fundamental é a Revolução Francesa”. Dessa maneira, a adolescência é um fenômeno recente e que existem em nossa sociedade. Mallinowski[4], pesquisando a cultura dos nativos da Ilha Trobriand da Nova Guiné, não encontra a presença dessa fase de desenvolvimento, mas as crianças se tornam adultos quanto mais participam da vida e das decisões dos adultos. Em outros lugares existem ritos de passagem que marcam essa transição. Bock et al[5] defende que “a adolescência é uma fase típica do desenvolvimento do jovem de nossa sociedade. Isso porque uma sociedade evoluída tecnicamente, isto é, industrializada, exige um período para que o jovem adquira os conhecimentos necessários para dela participar”.
Portanto, em nossa sociedade e a partir do século XIX, entendemos, nas palavras de Eisenstein, que a adolescência acontece entre as mudanças corporais da puberdade e termina quando o indivíduo consolida seu crescimento e sua personalidade, obtendo progressivamente sua independência econômica, além da integração em seu grupo social”[6]. Apesar de não existirem parâmetros sólidos para delimitar o período dessa fase de desenvolvimento a Organização Mundial da Saúde (OMS) estipula que ela dure entre 10 e 19 anos; a Organização das Nações Unidas (ONU) de 15 a 24 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA – Lei 8.069/1990 art. 2º ) de 12 aos 18 anos.
Da mesma maneira que se convencionou aceitar que haja adolescência, igualmente, passou a se inferir que nesse período o indivíduo não tem total condição de responder pelos seus atos. Quando um adolescente pratica uma infração, o Estado aplica-lhe medidas sócio-educativas tais como I – advertência; II – obrigação de reparar o dano (apenas se existirem provas contundentes); III – prestação de serviços à comunidade; IV – liberdade assistida; V – inserção em regime de semi-liberdade; VI – internação em estabelecimento educacional (ECA, IV, art. 112).
É um anacronismo tentar ver adolescência nas Escrituras Sagradas, todavia isso não quer dizer que, na suficiência da Palavra, não haja subsídio necessário para discutirmos o que é próprio para o jovem.
A Bíblia admite:
·         A criança pequena/filho: יָלַד  (yalad), παιδίον (paidíon);
·         A criança que pode ser ensinada:  נַעַר (na’arâ), νέος (neós);
·         O jovem em idade para se casar: בָּחוּר (barur), νεανίσκος (neavískos).
A criança (נַעַר) deve ser rigorosamente educada, porque a estultice (אִ֭וֶּלֶת/’iwwelet: tolice, insensatez ou loucura) está ligada ao seu coração e só a vara da disciplina poderá curá-la. Assim como o bordão do pastor é consolo da ovelha (Sl 23.4), da mesma maneira o chinelo do Pai (que disciplina e não espanca) é consolo da criança que reconhece com maior clareza seus limites e sabe por qual caminho é seguro caminhar.
Quando a educação, que começa no lar, imprime valores claros e elevados nas crianças, estas naturalmente respeitarão os professores e as autoridades constituídas (civis ou eclesiásticas) da mesma maneira como respeitam seus pais. A crise de valores que vivemos ocorre em uma sociedade que não tem mais nítida a noção de autoridade. Onde todos têm direito a tudo sem deveres, ninguém pode se sustentar por muito tempo.
Jesus concorda com a regra mosaica (Êx 21.17-Mt 15.2) de que o filho que ofendesse seu pai deveria ser morto e daí vem a promessa de dias prolongados a filhos que honram o pai e a mãe (Êx 20.12).
Portanto, por convenção contrária à Palavra, passou a se conceder ao adolescente uma moratória indevida, ou seja, o direito de cometer os mais torpes delitos e crimes (sendo por isso até mais facilmente aliciado pelo crime organizado) e, até os 18 anos sem se responsabilizar pelos deus atos de maneira plena.



[1] BOCK, A.M.B; FURTADO, O; TEIXEIRA, O.L.T. Psicologias: uma introdução ao estudo da Psicologia. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 255-258.
[2] Ibidem, p.255.
[3] COUTINHO, L.G. A Adolescência na Contemporaneidade: ideal cultural. Revista de Psicanálise, ano XVII, no 181, p. 17.
[4] In BOCK, A.M.B; FURTADO, O; TEIXEIRA, O.L.T. Psicologias: uma introdução ao estudo da Psicologia. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 256.
[5] Ibidem, p. 257.
[6] EISENSTEIN, E. Adolescência: definições conceitos e critérios. Revista Adolescência e Saúde, vol. 2, no 2, 2005, p.1.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

REDUZIR OU NÃO REDUZIR? EIS A QUESTÃO!: O SISTEMA CARCERÁRIO (PARTE 1 DE 3)


Reduzir ou não reduzir? Eis a questão!: o sistema carcerário (parte 1 de 3)
Muito se falou na mídia sobre a redução da maioridade penal, a PEC 171/1993, que visa alterar o artigo 228 da Constituição Federal que diz: São penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos, sujeitos às normas da legislação especial para “São penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos, sujeitos às normas da legislação especial, ressalvados os maiores de dezesseis anos, observando-se o cumprimento da pena em estabelecimento separado dos maiores de dezoito anos e dos menores inimputáveis, em casos de crimes hediondos, homicídio doloso e lesão corporal seguida de morte”.
Essa proposta de emenda constitucional (PEC) tem defensores e acusadores inflamados, que tomam para si o dever de salvar a pátria. Não entrando tanto na variedade desses argumentos, o fato dessa proposta vir sob uma aparente chancela de uma bancada que se denomina “evangélica” passa a falsa ideia de que todos os cristãos ou pelo menos os protestantes são favoráveis a essa alteração da Carta Magna de nossa nação. Mas, à luz das Escrituras, é lícito ou não reduzir a maioridade penal de dezoito para dezesseis anos?
Para começo de conversa, a Bíblia tem uma cosmovisão diferente de ambos os lados que se digladiam sobre o reduzir ou não reduzir a maioridade penal e podemos observar essas diferenças em três tópicos: a redenção do homem, o conceito de adolescência e pena (conceito de sistema carcerário). Veremos que em todas elas há uma ingenuidade humanística da condição do homem.
Muito se ouve dizer sobre o sistema penitenciário brasileiro como a paraliteratura Estação Carandiru, todavia desde do princípio não se tinha essa ideia, pois o então príncipe regente Dom Pedro de Alcântara, no dia 23 de maio de 1821, expede o decreto que garante a liberdade individual de forma que ninguém possa ser preso sem ordem por escrito de um juiz, assim como ficam abole o uso de correntes, algemas, grilhões e outros quaisquer ferros inventados para martirizar homens”[1]. Esse mesmo pensamento aparece na primeira Constituição do Brasil (1824): “As Cadeias serão seguras, limpas, o bem arejadas, havendo diversas casas para separação dos réus, conforme suas circunstâncias, e natureza dos seus crimes”[2]. Esse pensamento vem ao encontro da obra Dos Delitos e das Penas de Cesare Beccaria, onde afirma: à medida que as penas forem mais brandas, quando as prisões já não forem a horrível mansão do desespero e da fome, quando a piedade e a humanidade penetrarem nas masmorras, quando enfim os executores impiedosos dos rigores da justiça abrirem os corações à compaixão, as leis poderão contentar-se com indícios mais fracos para ordenar a prisão” (Cap.VI, p.15).
O Marquês de Beccaria entendia que a prisão para interrogatório era necessária, mas não pode ser arbitrária, tampouco deixar qualquer mácula àquele que poderia ser inocente. A lei de Execução penal (7.210 de 1984) entende que a pena tem dois objetivos: efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado”[3]. Dessa maneira, o sistema penitenciário brasileiro não visa apenas cumprir uma sentença, mas garantir a reintegração do indivíduo à sociedade. Entretanto qualquer investimento para que se leve a efeito essa disposição legal não tem boa aceitação do povo e até calorosos manifestos, porque, enquanto o sistema quer ressocializar, a população deseja apenas punir.
Segundo Costa Neto[4], existem basicamente três sistemas prisionais: o pensilvânico ou da Filadélfia, no qual o detento ficava isolado e incentivado a ler a Bíblia; o auburniano (por causa da prisão de Auburn), e que o silêncio era uma imposição e o sistema progressivo (adotado no Brasil), no qual o preso começa em regime fechado, depois passa para o semi-aberto até o aberto (2.848 de 1940, art. 33 § 1º), porque se intenta reconduzir gradativamente o encarcerado à sociedade que foi sentenciado a deixar.
Entretanto o ócio, a reincidência, a violência sexual e a superlotação mostram a fragilidade desse sistema, que não consegue cumprir o objetivo que se propôs, pelo simples propósito de não atentar para a vontade de Deus claramente revelada nas Escrituras.
Segundo Portela[5], vemos no Antigo Testamento três aspectos da lei: moral (vontade d Deus para o homem), civil (legislação dada à sociedade de Israel) e cerimonial (legislação levítica). Apesar de Cristo ter abolido a lei cerimonial (Ef 2.15), tampouco as leis civis, ambas, segundo Kevan[6], devem ser levadas em consideração, porque:
·         O termo torah transmite uma ideia mais ampla do que um código autoritário de dever, mas algo que deve ser feito, mas também algo que deve ser conhecido;
·         Não há contradição alguma em obedecer por amor;
·         As obras da lei são necessárias, mesmo que são seja para justificar o homem;
·         Orienta a vida pessoal do crente;
·         Aponta para Cristo.
A Bíblia não trata sobre o sistema penitenciário, mas das cidades de refúgio (Nm 35). Segundo Wenhan[7] esse método não pode ser aplicado, porque não é mais a família (Nm 39.12, 19, 21, 24, 25, 27) que busca o culpado, assim como não há mais a figura de um sumo-sacerdote. Contudo a Bíblia prega um sistema de retribuição a faltas que podem ser restituídas, a morte àquelas atentam contra a vida e a cidade de refúgio para quem cometeu um crime culposo (Êx 21.13).
Se aplicássemos esse método em nossa sociedade, quando alguém roubasse, não iria para a prisão, mas restituiria o valor total do roubo, mais o seu quinto (Nm 5.7; Lc 19.8). Aquele que assassinou morreria e a terra de refúgio existiria para preservar a integridade de uma pessoa. Dessa maneira, o crime não compensaria. Em nosso modelo, aquele que comete um crime é sustentado pelo contribuinte e os lesados pelos delitos não ganham nada, além do prejuízo e com o gosto amargo de uma suposta noção de justiça.
A ideia de que um sistema carcerário, mesmo que em condições peculiares, pode reintegrar um homem a sociedade á acreditar em um falso arrependimento, que segundo Watson[8], pauta-se no medo, a luta externa contra as antigas faltas e o abandono daquelas que são convenientes abandonar. Somente a ação sobrenatural da graça pode regenerar o homem e mudar seu caminho. Dessa maneira Watson afirma: “o verddeiro abandono acontece quando os atos pecaminosos cessam pela infusão de um princípio da graça, como um ambiente deixa de estar seguro pela infusão da luz”[9].
Se o arrependimento é uma “graça especial do Espírito Santo”[10], a educação não possui esse poder miraculoso, por isso, deveria se garantir que as atitudes tivessem o fim que merecem sem criarmos depósitos humanos, que além de caro, são inúteis.
Portanto, a redução da maioridade penal não é uma luta cristã, porque a finalidade dessa lei não se coaduna com o interesse da Palavra.



[1] http://www2.camara.leg.br/a-camara/conheca/historia/reinounido.html. Acessado no dia 10 de julho de 2015 às 12h05.
[2] http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao24.htm. Acessado no di 10 de julho de 2015 às 12h11.
[3] http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/leis/L7210.htm. Acessado no dia 10 de julho de 2015 às 12h30.
[4] http://jus.com.br/artigos/24073/sistema-penitenciario-brasileiro-a-falibilidade-da-prisao-no-tocante-ao-seu-papel-ressocializador. Acessado no dia 11 de julho de 2015 às 01h04.
[5] http://www.solanoportela.net/palestras/tres_aspectos.htm. Acessado no dia 15 de agosto de 2015 às 23h44.
[6] KEVAN, E. A Lei Moral. São Paulo: Puritanos, 2000, p.9.
[7] WENHAN, G. Números: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1981, p.57.
[8] WATSON, T. Doutrina do Arrependimento. São Paulo: PES, 2012, p.17-20.
[9] Ibidem, p. 16,17.
[10] Ibidem, p.18.

sábado, 25 de julho de 2015

Eu quero ter um milhão de amigos?


Eu quero ter um milhão de amigos?
Qual foi o momento em que o amigo passou a ser um ícone na tela de um computador?
O conceito de amizade e relacionamento sofreu sérias influências dos avanços tecnológicos, pois há uma necessidade de ser ter muitos e muitos amigos e até seguidores, todavia, nessas amizades superficiais, os supostos relacionamentos não suportam as adversidades e as opiniões contrárias. Nunca se teve tantos amigos presos nos ícones coloridos e felizes emoldurados pela tela de LED, mas nunca se viu tanta solitária e carente de contato humano. No muito pragmático, em que vivemos, anseia-se por construir muitas e muitas amizades, mas que podem ser desligadas ou excluídas sem grandes confrontos e desgastes pessoais. O pragmatismo fez o amigo se tornar um ícone manipulável. A amizade virtual foi forjada por uma geração que tem medo do outro, mas continua tendo necessidade de se relacionar.
O ser humano é essencialmente um ser social, que se relaciona, porque, criado a imagem e semelhança do Deus (Gn 1.26), uno e trino, ou seja, do único Deus que vive em relacionamento perfeito entre as pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo, é angustiante e doentio ao homem caminhar sem o convívio dos outros. Aristóteles afirmava: “fica evidente, pois, que a Cidade é uma criação da natureza, e que o homem, por natureza, é um animal político [isto é, destinado a viver em sociedade], e que o homem que, por sua natureza e não por mero acidente, não tivesse sua existência na cidade, seria um ser vil, superior ou inferior ao homem. Tal indivíduo, segundo Homero, é “um ser sem lar, sem família, sem leis”, pois tem sede de guerra e, como não é freado por nada, assemelha-se a uma ave de rapina” (Política, Lv I, Cp. 1).
Tal como Isaías, devemos reconhecer: “sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios” (Is 6.5) e, por causa dessa realidade de depravação total (ou radical) todos os nossos relacionamentos nos são árduos desafios, porque esperamos o que o outro não pode ou não quer nos dar e, igualmente, nos oferecemos com diversas cautelas.
Dessa maneira, Salomão afirma: “como o ferro com o ferro se afia, assim, o homem, ao seu amigo” (Pv 27.17). Assim como um instrumento precisa estar com suas cordas esticadas de tal maneira que produzam um som agradável e as facas precisam ser gastas na pedra para ter um corte eficiente, os relacionamentos nos ensinam mutuamente sobre nos mesmos. Todos os embates que temos com o outro envolvem pecados nossos ou pecados alheios, que precisam ser mortificados em Cristo Jesus.
Quando nossa geração optou por um relacionamento mediado pelas redes sociais, eliminou muito dessas adversidades, porque o surgimento dos problemas foram resolvidos com a fuga, ou seja, excluir do meu rol de amigos determinada pessoa, mas se perdeu muito em crescimento pessoal.
No momento em que convivemos apenas com indivíduos que pensam a nossa maneira, falam apenas aquilo que queremos ouvir (futilidades), construímos um mundo previsível, impenetrável, mas uma realidade que dificulta nossos aprendizado e crescimento, porque aprendemos imitando, crescemos ao sermos confrontados. Apenas quando os músculos são ofendidos pelo movimento repetido e doloroso é que se enrijecem e ganham volume. Músculos ociosos atrofiam. No instante em que afiamos e nos deixamos a afiar pelo outro, é que nos construímos e ajudamos a construir pessoas melhores.
Em nossos dias, as pessoas querem ter seguidores, mas, ao almejarmos que as pessoas nos sigam, limitamos nosso interesse de seguir alguém e de nos colocar a serviço do outro. Jesus não vivia, tampouco pregava em busca de seguidores, apesar de chamá-los e tê-los, pois ao se revelar como o pão da vida muitos deixam de segui-lo, todavia não titubeou em convidar os doze a seguir o mesmo caminho (Jo 6.66,67). A amizade cresce no solo fértil da verdade. Apesar de ser o caminhos, a verdade e a vida (Jo 14.6), Jesus não se portou jamais com um tirano, mas sendo Mestre e Senhor a quem todos devem seguir, instantes antes de morrer, tomou a toalha e, como um escravo, lavou os pés daqueles que tinha por amigos (Jo 15.15).
O amor de Jesus é o maior amor que existe, porque ela dá a vida pelos seus (Jo 15.13), todavia há uma condição para ser amigo de Cristo: fazer aquilo que ele manda (Jo 15.14). O Senhor nos mostra que o vínculo da amizade se constrói sobre o perdão, pois, em Jo 21.15-18, Jesus trata com ternura a Pedro que o negara.
Atualmente, é comum alguém ter milhões de amigos, satisfazendo o antigo desejo de Roberto e Erasmo na música Eu quero apenas. Aristóteles na Ética a Nicômaco (Lv VIII, Cap. 6) afirma que os mais velhos não se firmam facilmente em amizade, mas trabalham e conservam aquelas que se tem. Segundo o filósofo de Estagira, a amizade precisa de tempo e empenho. Ser amigo de alguém é se tornar responsável por outra pessoa, assim como a raposa disse ao Pequeno Príncipe “Tu te tornas eternamente responsável, por aquilo que cativas” (Antoine de Saint-Exupéry, Cap XXII, p.39).
Salomão afirma em Provérbios: “O homem que tem muitos amigos sai perdendo; mas há amigo mais chegado do que um irmão” (Pv 18.24). Não adianta nada ter muitos amigos se não se pode contar com nenhum deles nos dias maus. Na multidão de amigos, poucos serão aqueles que ficarão presentes quando a única coisa a fazer é ajudar. Dos doze discípulos apenas o amado fica ao pés da Cruz.

Os atuais moldes de amizade produzidos pela cultura digital ampliaram de maneira jamais pensada os horizontes para conhecer e se comunicar com o outro por mais longe que ele esteja, todavia limitou os laços interpessoais, a conversa franca e até mesmo a discussão construtiva que sempre existiu entre amigos. Se Jonatas fosse apenas um ícone na tela de Davi, jamais teria chorado por ele e amparado seu filho na necessidade. Dessa maneira, devemos querer ter amigos sinceros, mas ter um milhão não é um bom negócio.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

A mulher na sociedade e religião Greco-Romana


A mulher na sociedade e religião Greco-Romana
Segundo McKenzie[1], a mulher vivia na sociedade Greco-romana em uma terrível inferioridade jurídicam, pois, segundo Vrissimtzis[2], “não podia mover processos, nem possuir ou vender bens e propriedades”, sendo representada pelo irmão, marido ou parente masculino mais próximo que serviam-lhe como tutores. As mulheres de Atenas, que sequer eram registradas nos catálogos oficiais do Dêmos ou da Frátria[3], viviam como Chico Buarque bem retrata na música Mulheres de Atenas: “vivem pros seus maridos/orgulho e raça de Atenas”[4]. Essas mulheres tinham apenas dois direitos: contrair matrimônio legal e gerar filhos, conforme afirma Vrissimtzis[5]. Citando, ainda o mesmo Chico Buarque: “geram pro seus maridos/novos filhos de Atenas”[6].
Essa realidade pode ser observada na Odisseia[7], quando Penélope, devido a demora de Ulisses e sua possível morte, e obrigada a voltar a casa paterna para que seu pai lhe arrume um novo marido com novo dote ou aceite se casar com um dos pretendentes em Ítaca. A honrada mulher de Ulisses toma uma postura submissa, porém muito criativa: decide fazer uma mortalha para o seu marido antes de contrair novas núpcias, todavia, por três anos, desenvolve árduo trabalho de dia e o desmancha a noite[8]. Penélope só poderá sair de casa quando Ulisses regressa[9]. Esse registro literário mostra como a mulher sem marido vivia em extrema pressão. Vrissimtzis[10] afirma:
“Uma filha sem irmãos recebia uma herança de seu pai, tornava-se herdeira sem evidentemente, ser capaz de possuir, administrar ou vender tal herança, uma vez que, como foi mencionado, não dispunha de quaisquer direitos de transação comercial. Por esse motivo, a herdeira era obrigada a se casar o mais breve possível com um parente mais próximo por parte do pai, geralmente com um primo ou um tio, a fim de que a herança (a terra) permanecesse com a família”
Na Grécia, berço da democracia, a mulher era considerada uma criatura sub-humana e servia para o lar e a procriação. A criação feminina servia para a finalidade doméstica. Sobre esse condição Vrissimtzis afirma:
“As meninas não recebiam educação formal, mas aprendiam com suas mães ou com uma serva experiente a administrar o lar, bem como a arte de tecer e, ocasionalmente, algumas noções de leitura, escrita e aritmética. É evidente, porém, que as meninas das classes inferiores tinham menores chances de aprender a ler e a escrever. Só a partir do ano helenístico (323-30 a.C.) as meninas começaram a frequentar a escola”.
Podemos identificar a difícil condição das mulheres pela fala de Lisítrata a Cleonice, personagens da comédia Lisístrata: a greve do sexo de Aristófanes[11]: “Oh, Cleonice meu coração está cheio de despeito. Envergonho-me de ser mulher. Sou obrigada a dar razão aos homens, quando nos tratam como objetos, boas apenas para os prazeres do leito”.
Platão[12], na República, tem uma concepção a respeito as mulheres bem diferente daquela que era corrente em sua sociedade. Nessa obra, Platão utiliza-se de um fictício diálogo entre Sócrates e Polemarco para dissertar sobre diversos assuntos filosóficos entrelaçados em um eixo temático central: justiça.
No capítulo V, por meio de Sócrates (seu alter ego) Platão afirma que a difeença existente entre homens e mulheres se dá apenas na robustes daqueles e na debilidade dessas, pois as mulheres poderiam frequentar as academias (mesmo trajando roupas curtas) e empunhar armas com os homens nos campos de batalha. As núpcias de homens com mulheres que chegaram a superação de seus limites só pode promover uma prole mais qualificada para a cidade. Dessa maneira, independente do sexo, o célebre discípulo de Platão, defendia que todos deveriam ter acesso a educação idêntica e de qualidade para que todos pudessem desenvolver da melhor maneira possível suas aptidões.
Essa realidade não era igual em Esparta, onde a mulher possuía grande destaque, pois era vista como a fonte de bons soldados, haja vista que o pai e a mãe não poderiam educar seus próprios filhos, essa função era exclusiva do Estado.
Segundo Vrissimtzis[13], essa situação, em que a mulher vive como um ser inferior e os homens estavam ocupados com o futuro da Pólis, contribuiu para uma total desestrutura da organização familiar, porque os adolescentes ficaram sem referenciais que os ensinassem “os segredos da vida social, as funções do Estado, os bons modos, os valores éticos, a virtude, mas também os percalços e perigos da vida”[14]. Essa realidade traz nos idos do século IV a.C. pederastia.
A homossexualidade existia na Grécia, porém não era aceita, pois submetia o homem a posição humilhante de uma mulher. O termo pederasta tem sua origem etimológica[15] a aglutinação das palavras paidós (παιδός-criança) e erastés (҆εραστής-apaixonado). Dessa maneira, em um mundo que valorizada a educação intelectual na mesma proporção que os corpos estabelecia-se uma relação mestre (erastés) e aluno (erómenos) pautada por uma intimidade que chegava a fornicação, todavia durava dos 12 aos 18 anos para são se constatar homossexualismo. Podemos ver essa realidade na fale de Sócrates, alter ego de Platão, em O Banquete[16] quando Sócrates fala de Alcebíades para o anfitrião Agáton:
Protege-me, Agáton! O amor deste homem [Alcebíades] só me causa incômodos. Desde que amei, não me é mais permitido dirigir um olhar ou trocar uma palavra com nenhum belo jovem, pois este homem ciumento e despeitado, começa a fazer escândalo, entra a injuriar-me, e quase me agride. Por isso, toma cuidado para que não faça nada disso agora! Arranja para que haja paz entre nós dois, ou então, se ele tentar usar de violência, protege-me. Na sua loucura de amor, este homem é capaz de fazer muitas coisas.
Na Grécia, a mulher se limitava a casa onde reinava soberana, todavia lhe era vedada participações sociais por medo de que fosse essencialmente infiel. Essa ideia era compartilhada pelos romanos, entre os quais a mulher não possuía personalidade legal (alieni iuris) e para herdar uma propriedade precisava se casar para que o marido requeresse os seus direitos. Nessa sociedade, que desenvolveu sobremaneira as bases do direito, o homem (sui iuris) tinha direito de vida e morte sobre ela (pátria potestas). O romano, segundo das leis, poderia tratar sua esposa como seus escravos conforme a Institutas de Justiniano[17] (Flavius Petrus Sabbatius Justinianos 483-565).
Segundo McKenzie[18], essa realidade de opressão era totalmente diferente no âmbito religioso, no qual “a deusa representa a mulher como fonte de vida, mas representa também a mulher como objeto de prazer sexual, antes, nas concepções mais baixas do culto esta é a sua função mais elevada”[19]
Segundo Vrissimtzis[20], representações eróticas e relações sexuais tinham caráter religioso, pois entre o séc. VI e IV a.C. tinham a intenção de assegurar a fertilidade em uma sociedade basicamente agrária. Todavia a prostituição não era aceita com naturalidade no berço da democracia, pois, no séc. VI a.C. o legislador Sólon instituíra prostíbulos que ajudavam os jovens que chegavam à fase adulta e colocavam fim a prostituição descontrolada.
Vrissimtzis[21] entende a prostituição sagrada como uma questão especial, pois, segundo costume antigo no oriente médio como Fenícia, Síria, Babilônia e Ásia Menor, sendo que os pólos em que essa prática tinha maior força na Grécia estava em Corinto, Pafos, Amátos e Chipre, onde se acreditava “em um tipo de mágica simpatética”[22], na qual mulheres consagradas a essa função prostituiam-se mediante pagamento[23] em honra a Afrodite ou a Dionísio. Como eram funcionárias do templo todo o dinheiro arrecadado era destinado aos cofres do lugar sagrado.
O templo dedicado a Afrodite em Corinto contava com mil mulheres e acumulava fabulosa fortuna de tal maneira que Horácio afirmava: “nem todo homem pode se dar o luxo de visitar Corinto”. Werner de Boor[24] afirma que essas mil prostitutas viviam em casinhas adornadas de rosas ao redor do templo e que era freqüentadas pelos homens sem incorrer em escândalo, porque a cópula com tais mulheres garantia a fertilidade da cidade e do país. Segundo Kistemaker[25], os gregos e o romanos viam a cidade de Corinto com tal permissividade que se cunhou o verbo corinthiazethai, ou seja, ter a mesma prática lasciva que era encontrada naquela cidade portuária da Grécia. Em Roma, a realidade de promiscuidade de Corinto tinha equivalência na cidade de Pompeia.
Segundo McKenzie[26], Ártemis (ou Diana), mencionada em Atos 19.23, irmão gêmea de Apolo, possuía um suntuoso templo em Éfeso que pertencia a uma das sete maravilhas do mundo antigo. Virgem caçadora desde tempos antigos era vista como a deusa da fertilidade, porque protegia as parturientes. Em sua imagem as inúmeras mamas representavam a fecundidade.
Salis[27] entende que gemelaridade de Artemis com Apolo, pois enquanto aquele regia o dia pelo sol, esta regia a fecundidade pelos ciclos lunares. Defende, também, que os deuses são formas de linguagem fascinante que tinha como objetivo de ensinar questões éticas aos homens. No caso de Ártemis, seria a personificação da própria natureza que precisa estar virgem (intacta) e pune com suas flechas de fome e desastres naturais os excessos humanos. Percy Bysshe Schelley apresenta ideia semelhante no poema Adonai[28]:
O trovão. Ele[29], a Actéon[30] semelhante,
Comtemplou a nudez da Natureza
E foge agora pela terra inteira:
Os próprios pensamentos o perseguem,
Como ferozes cães, de instante a instante.
LiDonnici[31], citando Nicole Loraux, afirma que mudanças nas condições sociais e políticas “reflected by modifications, sometimes radical, in the conceptualization and worship of their gods[32]. Dessa maneira, a autora identifica uma mudança radical na imagem de Ártemis dos Efésios em relação aquele, mais limpa, apresentada no período helenista e entende essa mudança a partir de um louvor incluído no momento de dominação romana. Os muitos seios da imagem apresentada no templo da capital da Ásia Menor dava aos fiéis as ideias de proteção e nutrição que eram muito importantes nesse período.
O culto desse período romana se dá em um sincretismo entre Diana, Ártemis e Ísis (divindade egípcia mãe de Osíris). A ideia proposta pela imagem da Ártemis do Efésios é a da mulher intacta que se devotou inteiramente a nutrir e proteger seus súditos e garantir a estabilidade da nação que a adora. Essa realidade permite que ela tenha todos os seus seios a mostra sem parecer uma mulher pervertida ou uma hetaira.
Portanto, quanto mais distante uma sociedade está do seguro foco das Escrituras Sagradas, mas tendencioso estará a legar à mulher ou uma posição de humilhação ou exaltação indevida. Essa tendência se reflete no processo de culto e que a mulher ocupará um lar de destaque no sacerdócio (quando a mulher é exaltada de maneira indevida) ou como um ser idealizado, como bem vimos no caso de Ártemis.
Ulrich[33] vê essa realidade na sociedade de Juízes que mostram o estágio de degradação de uma sociedade em que a moral estava completamente corrompida e um sistema religioso que não conseguia cumprir seus propósitos, pra mostrar que o pecado não é um privilégio dos povos pagãos, mas de todos aqueles que estão distantes da Palavra de Deus. Ulrich defende a ideia de que um sociedade pode ser avalia pela maneira como trata as mulheres e crianças. No mundo grego-romano crianças podiam ser simplesmente abandonadas pelos pais e mulheres subjugadas a uma classe inferior.
A sociedade Greco-romana precisava de uma figura materna que os consolasse, uma deusa estilizada cujo único objetivo é servir de sinistro paliativo para mentes depravadas. Não é à toa que Paulo afirma literalmente que os efésios eram ateus (ἄθεοι) antes da conversão (Ef 2.12) de tal maneira que Calvino afirma: “aqueles que não cultuam o verdadeiro Deus, por mais que multipliquem as modalidades de seus cultos, por mais que os ataviem com toda sorte de cerimônias, continuarão sem Deus! Porquanto adoram o que não conhecem”.




[1] MCKENZIE, John. Dicionário Bíblico. São Paulo, Paulus: 1983, p.634,635.
[2] VRISSIMTZIS, Nikos A. Amor, Sexo e Casamento na Grécia Antiga. São Paulo, Odysseus: 2002, p.34.
[3] Ibid, p. 34.
[4] http://letras.mus.br/chico-buarque/45150/. Acessado no dia 04 de novembro de 2014 às 11h26.
[5] VRISSIMTZIS, Nikos A. Amor, Sexo e Casamento na Grécia Antiga. São Paulo, Odysseus: 2002, p.34.
[6] http://letras.mus.br/chico-buarque/45150/. Acessado no dia 04 de novembro de 2014 às 11h26.
[7] HOMERO, Odisseia, Livro 1, v.215-225.
[8] Ibid, Lv II, v.75,76.
[9] Ibid, Lv XXI, v. 75-79.
[10] VRISSIMTZIS, Nikos A. Amor, Sexo e Casamento na Grécia Antiga. São Paulo, Odysseus: 2002, p.34.
[11] ARISTÓFANES, Lisístrata: a greve do sexo. Porto Alegre-RS, L&PM Pocket: 2003, p.10.
[12] PLATÃO, A República. São Paulo: Martin Claret, p. 150.
[13] VRISSIMTZIS, Nikos A. Amor, Sexo e Casamento na Grécia Antiga. São Paulo, Odysseus: 2002, p.102,103.
[14] Ibid, p.102.
[15] http://www.dicionarioetimologico.com.br/busca/?q=pederasta. Acessado no dia 05 de novembro de 1014 às 21h02.
[16] PLATÂO, O Banquete. São Paulo, Martin Claret: 2003, p. 152.
[17] JUSTINIANO, Institutas. Lv I, 8.
[18] MCKENZIE, John. Dicionário Bíblico. São Paulo, Paulus: 1983, p.634,635.
[19] Ibid, p.634.
[20] VRISSIMTZIS, Nikos A. Amor, Sexo e Casamento na Grécia Antiga. São Paulo, Odysseus: 2002, p.71,71.
[21] Ibid, p.90.
[22] Ibid, p.91.
[23] Segundo Vrissimtzis (p.89), o preço médio de uma prostituta no séc. V a.C. era de um óbolo (uma dracma é igual a seis óbolos), contudo também se aceitava pagamento em espécie.
[24] BOOR, Werner. Carta aos Coríntios: comentário Esperança. Curitiba, Editora Evangélica Esperança: 2004, p.20.
[25] KISTEMAKER, Simon. Comentario Al Nuevo Testamento1 Coríntios. Desafio: 1998, p.13.
[26] MCKENZIE, John. Dicionário Bíblico. São Paulo, Paulus: 1983, p.78.
[27] SALIS, Viktor D. Mitologia Viva: aprendendo com os deuses a arte de viver e amar. São Paulo: Nova Alexandria, p.2004.
[28] Apud BULFICH, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia: histórias de deuses e heróis. Rio de Janeiro, Ediouro: 2006, p. 46.
[29] Esse poema é dedicado a John Keats, poeta inglês da segunda geração romântica, que morreu aos 25 anos.
[30] Filho do rei Cadmo que é condenado a se tornar um cervo e ser perseguido pelos próprios cães por ter visto a nudez de Ártemis.
[31] LIDONNICI, Lynn R. The Images of ArtemisEphesia and Greco-Roman Worship: a reconsideration. Disponível em http://web.a.ebscohost.com/ehost/pdfviewer/pdfviewer?vid=3&sid=ac357771-f3ea-418a-9373-2058154957dc%40sessionmgr4005&hid=4206.
[32] Ibid, p.1.
[33] ULRICH, Dean R. Da Fome para a Fartura: o evangelho segundo Rute. São Paulo, Cultura Cristã: 2011, p.19.