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domingo, 12 de abril de 2015

A Bagagem invisível



A bagagem invisível
É comum ouvirmos que casais que se davam bem no namoro quando casaram começaram a brigar. Alguns vão dizer que esses são problemas típicos do casamento como se a bênção matrimonial desligasse o botão harmonia e desse início à guerras intermináveis. Talvez uma afirmação conhecida por muitos casais seja: “você não me entende!”. Contudo o que as famílias carecem para amadurecerem nesse sentido? Como viver um casamento para a glória de Cristo?
Exceto Adão e Eva, todos os casais trazem com o enxoval simples ou ricamente bordado uma bagagem invisível, que eles próprios não tem consciência de sua dimensão, mas que existe e é profundamente pertinente.Nela se encontram nossas influências. Todos nós temos um modelo de família ideal em nossas mentes e ao casarmos sabemos como queremos ou não queremos ser. Essa influência foi construída ao longo de nossa vida olhando o relacionamento das pessoas ao nosso redor, especialmente os nossos pais.
Essa mala contém as primeiras raízes de nossos acertos e, principalmente, de nossos erros. Ela nos ajuda quando nos permite desviar dos erros feitos por nossos pais (Ez 18.14) ou imitar seus acertos. Todavia é maléfica quando nos leva a exigir do outro a postura que encontrávamos em nossos progenitores.
Frequentemente, alguns casais vivem anos não um ao lado do outro, mas de seres imaginários que eles forjaram a partir daquelas influências que trouxeram de suas casas e passam a vida querendo enquadrar o cônjuge nos seus padrões. Isso denota uma terrível rebeldia, porque primeiro se quer tomar o lugar de Deus e mudar o coração do outro e em segundo lugar se quer impor um padrão humano que está, naturalmente, aquém das Escrituras.
Dessa maneira, a Palavra é sábia ao orientar os casais: “deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” (Gn 2.24).
Segundo o Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento (DIT), o verbo asab (עזב) implica partir, abandonar e soltar (p.1101). No contexto de Gênesis 2.24, esse verbo transmite a ideia de que esse deixar o pai e a mãe pelo filho ou a filha (apesar da ênfase de ish [אִ֔ישׁ] estar sobre o homem) deve ser feita de maneira contínua. Derek Kidner (1967, p.62), citando Gerhard Von Rad, afirma: “a união matrimonial de ambos deve ser um laço exclusivo (um homem deixa), permanente (...e se une), e selado por Deus, pois o próprio Deus, como pai da noiva leva a mulher ao homem”. Kidner enfatiza que o ato de deixar deve, impreterivelmente, preceder o ato de unir. Moisés usa aqui o verbo dabaq (דבק) “usado com bastante frequência no Antigo Testamento para designar coisas físicas que se grudam umas às outras, em especial as partes do corpo” (DIT, p. 291). Dessa maneira, maneira o homem e a mulher, pelo casamento são ajuntados com tal intensidade que são mesma pessoa.
Todavia essa orientação não exime o indivíduo de honrar seu pai e sua mãe e cuidar deles na velhice. Jesus condena de maneira contundente a prática do corbã (Mc 7.11), segundo Hendriksen (1998, p.205), quando um judeu dedicava uma grande quantia ao templo e, por isso, ficava dispensado, segundo os Mestres da Lei, de honrar seus pais. Calvino (1998, p.175), comentando a Carta aos Efésios (5.31), afirma: “aquele que quer ser um bom esposo não cessará de demonstrar que é filho de seu pai; mas preferirá o matrimônio como o mais santo de todos os laços”.
O objetivo do matrimônio é fazer do homem ser uma só carne com sua mulher de tal maneira que poderíamos repetir como Adão: “esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2.24). Entretanto para que esse fim obtenha êxito existem alguns cuidados que os cônjuges devem observar:
1º. Reconhecer que não estão juntos apenas pelas afinidades, mas pela soberania de Deus (Lc 12.6,7). Salomão chega a afirmar: “A casa e os bens vêm como herança dos pais; mas do SENHOR, a esposa prudente” (Pv 19.14);
2º. O amor que une um casal não é um sentimento, mas uma decisão diária de receber o outro como ele realmente é. Dessa maneira, como afirma Dave Harvey, em Quando Pecadores dizem sim, casamentos felizes são construídos sobre o alicerce da misericórdia que tem como parâmetro o ato salvífico empreendido pelo próprio Deus (Lc 6.27-36). Calma, ser misericordioso não é fazer vista grossa, mas não batalhar pelos meus desejos e interesses, mas pela glória de Cristo. Harvey afirma: “a misericórdia não muda a necessidade de falarmos a verdade. Ela transforma a nossa motivação, que deixa de ser o desejo de vencer batalhas e passa a ser o desejo de representar a Cristo”.
3º. Se as pequenas manias cotidianas necessitam de misericórdia os pecados precisam de perdão (Mt 18.20,22), que deve levar em consideração que fomos perdoados de uma dívida impagável (Mt 18.23-35);
4º. As discussões devem seguir os parâmetros de Efésios 4.29 e chegar a uma solução que glorifique a Deus. Lembre-se: quando em uma discussão familiar houve um vencedor que não é o Senhor Jesus o marido e a esposa foram derrotados;
5º. O casamento melhora com atitudes orientadas pelas Escrituras e não com promessas e discursos bem elaborados; 
6º. A nossa mudança visa à comunhão mais íntima com o Senhor e não o interesse do cônjuge, tampouco podemos condicionar a correção de nossa conduta a decisão do outro em se corrigir também. Lembre-se de que a alma que pecar essa morrerá (Ez 18.4). Apesar de sermos um o progresso na santidade é individual;
7º. John Bettler disse: “seu côjuge sempre expõe seu ídolo”, ou seja, o marido, pela convivência conhece e expõe a ela seu ídolo, assim como a esposa a seu marido. Dessa maneira, Deus uniu um ao outro para que ambos cresçam na mortificação de seus pecados e na santidade, por isso, Lutero chamava o casamento de “a escola do caráter”. 
Essas dicas, que de nenhuma maneira são exaustivas, podem indicar o caminho da construção de um casamento ou de sua restauração, o que corre na contramão de nossos dias em que o divórcio tem sido facilitado como algo simples e corriqueiro, todavia, apesar de estarmos no mundo não pertencemos a ele (Jo 17.14), tampouco nosso casamento.

domingo, 5 de abril de 2015

A RESSURREIÇÃO DE CRISTO, PRIVILÉGIO DO CRENTE


RESSURREIÇÃO DE CRISTO, O PRIVILÉGIO CRENTE!
Na igreja de Corinto, muitas pessoas possuíam dúvidas ou negavam categoricamente a ressurreição do Senhor Jesus Cristo, porque algumas pessoas dentre eles (1 Cor 15.12)não queriam retornar a um corpo que os limitaria, pois sofriam a influencia da grega e precisamente o gnosticismo, no qual a matéria e naturalmente perversa, enquanto o espírito é bom, assim a pessoa para atingir a Deus, conhecimento supremo, deve ser livrar do corpo e buscar apenas as práticas que valorizam a alma.
O corpo, para os gnósticos, era um castigo que visa aperfeiçoar a alma. Essas teorias heréticas circulavam dentro de muitas igrejas do primeiro século. Para muitas pessoas que ouviam a Palavra ressuscitar, ou seja, voltar para o seu corpo, era sinal do completo fracasso de levar uma vida longe das pessoas e ocupada apenas com as orações e o conhecimento de Deus.
Era ridículo para o grego ouvir falar da ressurreição (At 17.32) e até mesmo caçoavam sobre esse tema, porém se a cruz do senhor é loucura para os sábios homens da Grécia a Palavra afirma: “destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei a inteligência dos inteligentes” (1Cor 1.17), pois o próprio Jesus afirma que Deus ocultou o temor do juízo e a certa condenação dos pecadores dos sábios e entendidos, para revela-las aos pequeninos (Mt 11.24,25).
Muitos olham para a doutrina da ressurreição e, devido o seu caráter sobrenatural e a sua total dependência de Deus, encaram os cristãos fieis como ingênuos ou ignorantes. Jesus disse que nós somos pequeninos nepíois (νηπίοις), pessoas que estão abaixo dos adultos em conhecimento e experiência, contudo foi a esses que o Senhor se revelou, enquanto Deus, conhecendo os pensamentos dos sábios, viu que eram vãos (1 Cor 3.20).
A Palavra afirma que o princípio da sabedoria é o temor de Deus (Pv 1.7), pois todo o conhecimento humano distante do temor é loucura, pois não glorifica o nome do Senhor, porém o desonra (Rm 1.20-22), porque uma visão errada de Deus gera uma ética deficiente e uma conduta reprovável.
Portanto, se alguém se diz temente a Deus e não acredita na ressurreição de Jesus sua fé é nula e se assim nós professássemos vã seria nossa pregação e, como afirma Paulo (1 Cor 15.14), somos falsas testemunhas.
A ressurreição de Jesus não é um mero retorno à vida como Lázaro (Jo 11.43,44) ou o filho da viúva de Naim (Lc 7.11-15), pois tornaram a morrer, como aconteceu com Lázaro (Jo 12.10,11), mas Jesus é “a primícias dos que dormem”, ou seja, a ressurreição não será uma opção, mas as primícias (aparké) algo que acontecerá no princípio da morte e se estenderá pela eternidade, pois se Cristo não ressuscitou a morte não foi vencida e estamos perdidos em nossos pecados e se a fé noSenhor vale apenas para as coisas terrenas somos as pessoas mais infelizes (1 Cor 15.14-19).
Todos ressuscitarão, contudo os tementes a Deus para a vida eterna e outros para a vergonha e o horror (Dn 12.2), pois quem crer em Jesus no seu interior fluirão rios de água viva (Jo 7.38) mas aquele que não crer será condenado (Mc 16.16)
Se a fé em Jesus é apenas para aliviar as lutas cotidianas, Pedro seria um tolo afirmando que só Jesus tem palavras da vida eterna (Jo 6.68) e Jesus um charlatão prometendo algo que não poderia dar (Jo 10.28). A vida eterna é um dom gratuito de Deus em Jesus Cristo que pagou a dívida fatal de nosso pecado (Rm 6.23).
Podemos acaso lidar com nossas próprias forças contra o pecado? Mesmo se reencarnássemos muitas vezes poderíamos viver uma única vez sem cometer um pecado? Se viéssemos a esse mundo um bilhão de vezes e na ultima cometêssemos um único pecado, pensando mal de alguém ou não nos doando inteiramente ao projeto de Cristo, seríamos merecedores do inferno, porque não há vida plena longe de Jesus (Jo 10.10).
Quando confiamos na ressurreição de Cristo, sabemos que se Cristo, o cabeça da igreja ressuscitou nós ressuscitaremos com Ele (Cl 1.18). Assim para aqueles que dizem: “para tudo tem um jeito, menos para a morte”, podemos afirmar com certeza: a solução para a morte é Cristo, pois ele a venceu na Cruz! Sem Jesus comemos e bebemos certos de que amanhã morreremos e seremos desligados como uma máquina ou viremos muitas vezes decaídos em um mundo decaído. Não há propósito nisso, pois isso, desde o Antigo Testamento a ideia da ressurreição é viva e consoladora, pois o próprio Isaías acreditava que o ressuscitaria com seu corpo (Is 26.19) e Jó, nas mais difíceis provações, afirma: “eu sei que o meu Redentor vive, e por fim se levantará sobre a terra” (Jó 19.25)

Quando acreditamos no privilégio da ressurreição podemos andar em novidade de vida, porque pelo nosso batismo morremos com o nosso salvador e com ele ressuscitaremos (Rm 6.4; 1Cor 6.14), assim não estamos entregues às circunstâncias, mas ao soberano poder de Deus. Se estávamos mortos em nossos delitos e pecados e Cristo nos Deus a vida, não há morte para quem vive eternamente no Senhor (Ef 2.1), pois não somos nós que devemos viver, mas Cristo em nós e este viver deve ser fundamentado na certeza de que Jesus nos amou de tl maneira que se entregou por nós na cruz (Gl 2.20) e aqueles que se conformarem aos seus sofrimentos ressuscitarão (Fl 3.10).

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A importância da ressurreição de Cristo no livro de Jó


A importância da ressurreição de Cristo no livro de Jó
Segundo Anglada[1], a Bíblia protestante possui exatamente os mesmos 39 livros que o cânon massorético (a bíblia judaica que Jesus conhecia).Contudo Archer[2] afirma que a divisão dos livros sagrados, que encontramos e nossas Bíblias (livros da lei, livros de história, livros de poesia e sabedoria e livros proféticos), é baseada na edição adotada pelos compiladores da Septuaginta (LXX – tradução da Bíblia do hebraico para o grego). No texto massorético, o livro de Jó se encontra junto com Salmos e Provérbios na divisão “escritos” (Kethubhim). Dessa maneira, pelo fato do Texto Sagrado não adotar uma divisão cronológica, mas tópica, alguns incautos podem julgar o livro de Jó mais recente do que o de Moisés.
Cronologicamente, segundo Kaiser[3], deve ser classificado dentro da Era Patriarcal (2100-1800 a.C.), porque:
a.)    a riqueza de Jó (1.3) é semelhante a de Isaque (Gn 26.13,14);
b.)    o aumento do gado de Jó (1.10) é semelhante a de Labão (Gn 30.29,30);
c.)    Como os Patriarcas prefere o termo Shaddai (שַׁדַּי ) para se referir a Deus. Essa palavra tem 43 ocorrência no Antigo Testamento sendo 23 delas no livro de Jó, 3 em Salmos, 2 em Cantico dos Cânticos, 3 em Ezequiel, 1 em Rute e 11 no Pentateuco (6 em Gênesis, 1 em Êxodo e 4 em Êxodo);
d.)   Como nos Patriarcas não há sacerdotes e sacrifícios no templo (Jó 1.5);
e.)    O conteúdo dos sacrifícios empreendidos por Jó são semelhantes aos de Balaão (Nm 23.1-3);
f.)     Jó viveu 140 anos (Jó 42.16) e José 110 (Gn 50.23);
g.)    Em Jó 42.11, onde a Almeira Revista e Atualizada (ARA) traduz por dinheiro, no hebraico, a palavra empregada é qesitah (קְשִׂיטָה ), assim como nos tempos de Jacó (Gn 33.19; Js 24.32);
h.)    A morte de Jó é descrita de maneira semelhante a de Abraão e Isaque (compare Jó 42.7 com Gn 25.8; 35.29).
Kaiser[4] entende que o livro de Jó, do qual não conhecemos o autor, é peculiar, porque, apesar de ser tido como um literatura sapiencial, todavia além do diálogo poético traz, também, estrutura narrativa. Essa combinação faz dele um problema. Entretanto, como afirma Hill et al[5], traz de maneira singular a perspectiva bíblica para o sofrimento.
Nesses últimos cinco mil anos, pessoas ou comunidades, como Jó, perguntam-se a respeito do sofrimento e buscam o auxílio de Deus para isso. Não são poucos os que avaliam a dor pelo princípio de retribuição e precisam compreender que até mesmo pessoas íntegras, retas, tementes a Deus e dispostas a se desviar do mal estão suscetíveis ao sofrimento.
Em uma sequencia funesta e rápida, Jó perde seus bens, filhos, o respeito da esposa e dos amigos (Elifaz, Bildade e Zofar), que, depois de consolá-lo, passam a expor para ele o destino dos perversos e depois a acusá-lo, pois buscavam um motivo pelo qual passava por tanto sofrimento.
Bildade, segundo Jackson[6], é o mais moralista dos “amigos” de Jó tentando convencê-lo de que Deus tem uma causa para tantas desgraças, porém, diante de tamanha acusação, Jó declara sua confissão de fé: “porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus. Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos o verão, e não outros; de saudade me desfalece o coração dentro de mim” (Jó 19.25-27). Essa declaração encontraria pleno vigor milênios depois em Cristo.
Jó tinha um conhecimento íntimo de que ele possuía um redentor. Futuramente, esse termo seria usado para se referir aquele que resgata a dívida de alguém (Lv 25.25,26). Esse Remidor é pessoal (meu redentor –  גֹּ֣אֲלִי ) e específico que, mesmo futuro, tem implicações na sua vida presente e quanto mais a nós que vivemos nos últimos dias (At 2.17), de forma mais vívida do que Jó precisamos reconhecer que ele vive, ou seja, não é uma ideia abstrata com pouca relevância prática em nossas vidas.
O tempo de ação desse Redentor se daria “no fim”, todavia, o que era escatológico para Jó é a realidade fundamental de nossas vidas. A sua atitude de “se levantará” implica julgamento. Dessa maneira, Jó está afirmando que o julgamento de seus amigos é distorcido em relação Àquele que o julgará no fim. Mostra que não adianta ser amado pelos homens e ser odiado por Deus. Independente da classe social ou do poder político-econômico, aqueles que não estiveram em Jesus clamarão no derradeiro dia: “Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro” (Ap 6.16).
No séc. I da era cristã, algumas pessoas partindo do pressuposto de que o corpo era mau e essencialmente ligado ao pecado começaram a defender que Jesus não poderia ter um corpo real, mas apenas aparente. Esses hereges eram chamados de docetistas que vem do verbo grego dokéo (δοκέω), que significa parecer, pois acreditavam que se Cristo era Deus não podia sofrer de forma real. Não é à toa que o Credo Apostólico enfatiza que ele nasceu da virgem Maria.
Para muitas pessoas ainda é difícil compreender que “foi ele [Jesus] tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (Hb 4.15). O pecado não faz parte da essência da criação, mas Le é um acidente. Wolters[7] compara a ação do pecado na criação a uma criança que contrai uma doença na infância, por isso, a criança se desenvolve paralela a doença que possui e, assim, não se consegue perceber todo o seu potencial, porque a enfermidade utiliza-se de sua força para sobreviver. A criança sendo curada passa a desenvolver-se plenamente. A doença é o pecado e a cura é Cristo. Jesus mostra que é possível viver sem pecar e nos compartilharemos dessa realidade na regeneração.
Ainda se nutre a ideia de que a estrutura criada por Deus está invalidada pelo pecado, por isso se luta contra o sexo e não a sua direção, a luxúria. O cristão não deve combater ou destruir as estruturas, mas influenciar biblicamente a sua direção (obediência ou rebeldia) que as pessoas impõem à criação. “O pecado não anula a criação, nem se identifica com ela. Criação e pecado permanecem distintos, no entanto intimamente entrelaçados na nossa experiência”[8].
Walsh e Middleton afirmam: “os cristãos dos últimos dias são chamados para empenharem-se na tarefa de refletir a imagem de Deus como ministros da reconciliação. Essa é a tarefa redentora: é vocação do corpo de Cristo trabalhar em um mundo caído, procurando trazer o perdão, a cura e a renovação do domínio de Deus para cada área da vida”[9].
Jó tem consciência de sua condição física e perdeu toa esperança quanto a continuar a vida, pois afirma que depois de consumida (נקף ) a sua pele” (Almeida Corrigida Fiel-ACF), pois está tomado de tumores malignos da planta dos pés até o alto da cabeça (Jó 2.7) de tal maneira que se raspava-se com um caco de telha (Jó 2.8), todavia ele está mostrando aos seus amigos que apesar de ele não ter mais condições de recuperação para os homens, aquela pela apodrecia pela doença seria restaurada e ele veria a Deus. Todo o sofrimento e humilhações desses dias não tinham mudado seus princípios, tampouco afetado o seu coração.
Defende que verá com seus próprios olhos verão a Deus. Dessa maneira, acredita na ressurreição do corpo e não em um infinito e inútil processo de reencarnação. A convicção de que o corpo não é mal, tampouco uma prisão da alma, mas uma criação boa de Deus que será restaurada definitivamente na segunda vinda de Jesus. Só a ressurreição pode nos dar pleno consolo, porque nos garante um dia estarmos em reconfigurados céus e terra (2Pe 3.13) e não em desencontros reencarnacionistas.
Da mesma maneira como Jó, podemos esperar em Jesus nosso redentor, ou seja, aquele que veio pagar a dívida que nossos primeiros pais contraíram no Éden. Um dia ressuscitaremos em nosso corpo para vivermos em um mundo onde o pecado não mais nos influenciará.




[1] http://www.monergismo.com/textos/bibliologia/canon_anglada.htm. Acessado no dia 1º de abril de 2014 às 12h
[2] ARCHER, G.L. Merece Confiança o Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1984. p.69.
[3] KAISER JR, W.C. O Plano da Promessa de Deus. São Paulo: Vida Nova, 2011, p.65.
[4] Ibidem, p. 138.
[5] HILL, A.E; WALTON, J.H. Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Acadêmica, 2006, p. 357.
[6] JACKSON, D.R. Clamor por Justiça: o evangelho segundo Jó. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 81.
[7] WOLTERS, A.M. A Criação Restaurada: base bíblica par uma cosmovisão Reformada. São Paulo Cultura Cristã, 2006, p. 67.
[8] Ibidem, p.67.
[9] WALSH, B.J; MIDDLETON, J.R. A Visão Transformadora. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p.76,78.

terça-feira, 31 de março de 2015

ELE LEVOU NOSSAS DORES


Ele levou nossas dores
Algumas culturas gostam de simbolizar a vitória da vida sobre a morte em um alimento muito comum: a pipoca. Entendem-na como a transformação do milho, que no calor e na escuridão de uma panela consegue desabrochar em seu melhor, porque antes sendo duro agora se apresenta macio; sendo intragável; agora é agradável ao paladar.
Todavia as condições desfavoráveis que permitem alguns grãos desabrocharem em uma iguaria de pouco sabor (pois tem o gosto do sal ou do caramelo que o tempera), mas com grande capacidade de captar pessoas para momentos de doce distração, fazem outros grãos de milho mais duros ou apresentarem uma transformação parcial, tais como os irmãos de Laodiceias que tinham suas vidas na mesma temperatura de suas fontes termais (Ap 3.16).
Os milhos conservam a todo custo sua antiga forma, tal como muitos se apegam a seu velho homem em suas idolatrias por tradição ou conveniência, são chamados piruás, todavia essa tentativa suicida os tornou inúteis mostrando a validade da máxima de Cristo: Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á” (Mc 8.35).
Em nossa relidade caída, assim como na panela de pipoca, a vida e a morte se alternam de aneira profunda e subjetiva, pois há pessoas que parecem vivas, mas estão mortas e podem ouvir o que se diz a igreja de Sardes: Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives e estás morto” (Ap 3.1).
Hoje, vivemos a alegria de comemorar a páscoa, porque podemos nos reunir e nos recordarmos que Jesus obteve vitória sobre a morte, porque, aquele que é superior a Moisés (Hb 3.3) cruzou em sua ressurreição o denso mar da morte de forma que aqueles que o seguem não perecerão, mas terão a vida eterna. O mesmo consolo que Marta recebeu do Mestre nós também podemos confiar: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente” (Jo 11.25,26).
No Evangelho de Lucas 24.13-35, vemos dois discípulos destruídos batendo em retirada de Jerusalém; desertando para Emaús. Caminhavam cegos pelo poder da dor. Não sabemos o quanto tiveram convivido com o Senhor, mas carecia a eles a crença de que Jesus é o Cristo (Mc 8.29), pois consideravam-no como “varão profeta , poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo” (Lc 24.19), porém essa era a fé geral das pessoas (Mc 6.14,15; Mc 8.27,28). Há muitas pessoas que, em nossos dias, veem o Senhor um filósofo, revolucionário, estadista, todavia só tem íntima relação com Deus aquele que confessa que Jesus é o filho de Deus (1Jo 4.15). Essa convicção não vem da aptidão mental ou pelo poder dos argumentos, mas pela ação do Espírito Santo (Mt 16.17).
Se os discípulos estavam dispostos a tomar um caminho contrário àquele proposto pelo Senhor – Emaús ao invés da Galileia (Mc 14.28) –, uma rota semelhante a empreendida pelo profeta Jonas oito séculos atrás, Jesus não perdeu nenhum dos seus exceto o filho da perdição (Jo 17.12).
Lucas, dos evangelistas, é o único que traz essa história com uma grande números de detalhes com o propósito de que tenhamos plena certeza das verdades em que fomos instruídos (Lc 1.4). Podemos aprender com esses dois homens que uma fé superficial é extremamente vulnerável os dias maus. Esse artigo visa analisar como Jesus lida conosco nesses momentos de tristeza profunda. Esse artigo também pode nos oferecer pistas para como lidar com o nosso próximo nesses momentos.
A primeira atitude de Jesus é caminhar com os discípulos, ouvindo-os, conhecendo suas angústias e anseios. Em nossos dias em que todos querem se comunicar em plenos pulmões ou pelas redes sociais, talvez ouvir seja o gesto de carinho mais escasso. Jesus, como fez desde a sua concepção, acomodou-se às limitações daqueles homens, porém sem deixar de exortá-los pela lentidão de seus corações, pois quem ama cedo disciplina (Pv 13.24).
A segunda atitude do Senhor é confrontá-los com a Palavra que é “útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça,a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16,17). Jesus discorre de Moisés aos Profetas mostrando que o Antigo Testamento o apresenta e indica como seria sua morte (Is 53.4-7).
Esse momento de pregação aquece o coração dos discípulos, porque “A lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices (פּתִי: patî pode ser entendido como cabeça aberta, aquele que se deixa levar pelas mais diversas opiniões)” (Sl 19.7). Isso serve para nos mostrar duas coisas: primeiro, a eficácia terapêutica da Palavra e, em segundo lugar, para nos alertar sobre a insanidade de tantos “cristãos” que deixam a verdade inspirada, inerrante, plenos e suficientes para se fiarem em teorias humanas de fracasso comprovado. Enquanto muitas incham de forma doentia com a promessa de prosperidade e sinais extraordinários, nosso anseio deveria ser o mesmo de Pedro: Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus” (Jo 6.68,69). Nesses dias, em que muitas igrejas tem reduzido o tempo da pregação deveríamos nos recordar de que aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação” (1Cor 1.21).
A terceira atitude de Jesus é ficar com eles, especialmente, no partir do pão. O Senhor não entra na casa dos discípulos como uma visita qualquer, mas como o próprio anfitrião e, por isso, se vê no direito de partir o pão. Se Jesus não for o nosso alimento (Jo 5.35,36) todo alimento será insosso e incorreremos no erro cometido por Salomão em Eclesiastes de se entregar às delícias e aos trabalhos desta via sem direcioná-los para a glória de Deus. Nesse momento íntimo e preciso os olhos dos discípulos se abriram e constataram que o coração lhes ardia quando Jesus lhes expunha a Palavra e que não podem mais continuar em Emaús, de tal forma que os empecilhos que impediam Jesus de continuar a viagem o o obrigavam a ficar com eles desapareceram.
Esses dois discípulos são quais pipocas que as sofrimentos desses dias maus enclausurou em cascas de morte, pois toda aquele que não crer no Jesus ressuscitado está morto, mas a ação dura e amável do Senhor os fez voltar para o reto caminho.Existem muitos cristãos frustrados com denominações e pastores e que ora vivem uma espiritualidade independente (ferindo Hb 10.24,25), Ra se tornam amargos e passam a ofender a igreja repetindo suas lamúrias alicerçadas em doutrinas humanas e pragmáticas.Como discípulos de Cristo precisamos caminhar do lado delas ouvir-lhes as angústias, exortá-las, expor as Escrituras, certos de que a Palavra jamais voltará vazia (Is 55.11)

Reverendo Diego José Gonçalves Dias


sexta-feira, 20 de março de 2015

O JUGO DESIGUAL E SUAS IMPLICAÇÕES


O jugo desigual e suas implicações
Segundo Dean Ulrich (2011, p.71), o povo de Israel tinha duas missões: ser um exército santo que exerceria disciplina sobre o povo cananeu, porque o cálice da ira de Deus havia transbordado (Gn 15.13-16) diante de todas as idolatrias e depravações empreendidas por eles, assim como não se contaminar com casamentos mistos. Entretanto, quando olhamos a genealogia de Jesus, vemos duas uniões, aparentemente, mistas: Salmom com Raabe e Boaz com Rute.
Raabe era uma prostituta de Jericó (Js 2.1) e Rute uma mulher moabita, que até a décima geração não poderia entrar na congregação do Senhor (Dt 23.3). De fato, se a base do casamento misto fosse racial, essas mulheres não poderiam ser tomadas como esposas por israelitas piedosos, tampouco compor a descendência do Salvador. Todavia, “embora Israel devesse manter a pureza moral e de culto, bem como eliminar os cananeus, é preciso salientar que a base para a separação era TEOLÓGICA e não racial (ULRICH, 2011, p. 74, grifo nosso).
Vemos que tanto Raabe, quanto Rute, apesar de terem vivido em terras pagãs e praticado a idolatria, um dia ouviram (Js 2.9-11) sobre os feito gloriosos de Deus e foram chamadas da morte para a vida. O próprio Abraão serviu outros deuses em Ur dos caldeus (Js 24.2), porém, diante da ordem Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção”. (Gn 12.1,2) obedeceu.
Dessa maneira, o povo de Deus não tem como fundamento um laço sanguíneo, muito menos integrar o rol de membros de uma igreja, mas escutar as palavras do Senhor e colocá-las em prática (Mt 7.24; Lc 6.49), porque “quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus” (Jo 3.21). Carson (2007, 209), comentando João 3.10-21, afirma que a fé simples, despreparada e incondicional levou os israelitas a se voltarem para a serpente de bronze no deserto (Nm 21.8,9 compare com Jo 3.13-18) e essa mesma  fé deve levar o cristão a buscar Jesus e é “por intermédio de tal fé, e tal fé somente, alguém pode experimentar o novo nascimento (Jo 3.3,5) e assim ganhar a vida eterna (Jo 3.15,16)”.
Raabe demonstrou essa fé simples quando “recebeu os espias com aquela hospitalidade que punha em risco sua vida” (CALVINO, 2012, p.325) e pediu misericórdia para si e para a casa de seu pai. Rute evidencia sua fé quando busca o Deus de Noemi como o seu Deus (Rt 1.16; 2.12) e encontra refúgio em suas asas. Cundall e Morris (1986, p.244) entendem que a decisão de Rute, apesar de moabita, viúva, sem filhos e ainda em idade para se casar até mesmo com bons partidos seguir uma senhora, igualmente viúva, sem filhos, para uma terra que só ouvira falar e assumir o seu Deus como o seu deus mostra que apesar de sua fé não ser bem fundamentada era real.
Se alguém perguntasse para Paulo entre 59 e 60 d.C. (data em que escreveu as cartas de Colossenses e Filemon em Roma) sobre a fé de Demas, provavelmente, diria que era um rapaz comprometido, pois o reconhece como seu cooperador junto de Marcos, Aristarco e Lucas. Boor (2006, p. 74) entende que a falta de elogios a Demas na carta aos Colossenses (escrita no mesmo período) talvez revelasse que ele continuava cooperando, mas sem a mesma ênfase. Contudo, a fé de Demas , tal como a semente que cai nos espinhos (Mt 13.22), não suportou os cuidados do mundo e suas fascinações e, por essas quimeras apostatou. Calvino (2009, p.281) afirma: “ele não podia ficar com Paulo sem se envolver em muitos problemas e humilhações e até mesmo com o real risco de sua vida, ficava exposto a muitas repreensões, insultos, era forçado a renunciar os cuidados dos próprios interesses” e, por isso, temos a constatação de Paulo: Demas, tendo amado o presente século, me abandonou e se foi para Tessalônica” (2Tm 4.10a).
Por outro lado, se alguém visse a ficha policial do ladrão crucificado ao lado de Jesus, afirmaria que ele não era um escolhido antes da fundação do mundo (Ef 1.4), porém, no alto da cruz, reconhece seus pecados (Lc 23.41) e busca a Jesus: “Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu reino” (Lc 23.42). Rienecker (2005, p.299) afirma: o malfeitor na cruz superou a muitos outros em clareza de percepção, em força de fé e em ousadia de testemunho”, nem o “corajoso” Pedro foi tão audaz para discípulos do sumo sacerdote, uma criada, servos, guardas e pessoas que se esquentavam (Jo 18.15-18, 25-27).
Dessa maneira, quando Paulo orienta que os cristãos devem se casar no Senhor (1Cor 7.39), mostra primeiro que não é lícito que o crente se vincule com o incrédulo, mas também que o temor do Senhor deve ser o alicerce pelo qual deve se começar a vida conjugal (CALVINO, 2003, p.245,246). Há muitos crentes que se casaram com outros crentes, as lutas cotidianas alteram suas prioridades e, em algum tempo, estão vivendo como uma família ímpia, mas como uma casca religiosa que apenas mostra uma fé superficial e sem efeitos na vida prática. Contudo para saber quem é crente e quem é incrédulo é necessário muito mais da habitual análise burocrática (Qual igreja pertence?, Fez pública profissão de fé?, Qual seu ministério na igreja?), precisa-se conhecer os hábitos e prioridades. O Jovem rico tinha uma vida bastante piedosa, mas quando foi obrigado a priorizar Jesus e se desfazer de suas riquezas não foi capaz (Lc 18.18-23), todavia Mateus não se importou em deixar a coletoria (Mt 9.9)
Em 2 Coríntios 6.14, Paulo afirma que toda sociedade do crente com o incrédulo é “jugo desigual”, o que evoca a metáfora de dois bois, cavalos ou burros atados pela mesma canga e tendo que puxar a mesma carga. Uma canga desigual obriga um a levar aior peso do que o outro e é exatamente isso que acontece com o crente, pois tem a responsabilidade de glorificar a Deus em todas as áreas de sua vida, enquanto o ímpio só possui compromissos com os ídolos de seu coração. Calvino (2008, p.177) entende que “prender-se a jugo desigual com os incrédulos significa nada menos que manter comunhão com as obras infrutíferas das trevas (Ef 5.11) e estender-lhes a destra aos incrédulos como emblema de companheirismo”.
Os casamentos mistos têm o poder de corromper pessoas sábias e comprometidas como Salomão, que, velho, por influência de suas mulheres ímpias, seguiu Astarote (deusa dos sidônios), a Milcom (deus amonita), edificou santuário a Camos (deus moabita que exigia sacrifícios humanos. Veja 2Rs 3.26,27) e Moloque (deus amonita que exigia sacrifício de crianças) (1Rs 11.4-8). Neemias descreve Salomão e seu pecado da seguinte maneira: entre muitas nações não havia rei semelhante a ele, e ele era amado do seu Deus, e Deus o constituiu rei sobre todo o Israel. Não obstante isso, as mulheres estrangeiras o fizeram cair no pecado” (Ne 13.26).
O jugo desigual não é pernicioso apenas no casamento, mas em todas as relações em que o crente possa empreender junto ao ímpio. Um exemplo é o sacerdote Eliasibe, porque, enquanto o povo, diante da orientação bíblica, procurava apartar todo elemento estrangeiro, ele, encarregado dos depósitos, cedera uma grande sala no templo que era destinada a depositar as ofertas de manjares, o incenso, os utensílios e os dízimos dos cereais, do vinho e do azeite, que se ordenaram para os levitas, cantores e porteiros, como também contribuições para os sacerdotes para Tobias, amonita que não se agradou que alguém procurasse o bem do povo de Israel (Ne 2.10), zombou do povo de Deus (Ne 2.19), subestimou a edificação dos muros (Ne 4.3), tentou matar Neemias (Ne 6.1), subornou profetas como Semaías e Noadia (Nm 6.10,12,14) e escreveu cartas para atemorizar Neemias (Ne 6.19). Tobias estava instalado no templo, porque era parente do sacerdote Eliasibe e esse era um ótimo lugar para influenciar de forma negativa os da tribo de Judá.
Tobias não temeu em jogar os móveis de Tobias, tomado por semelhante zelo com o qual o Senhor Jesus expulsou os vendilhões do tempo. Sempre que o povo adotou a doutrina de Balaão, ou seja, um relaxamento quanto a aproximação daqueles que não temem a Deus sempre ouve um esfriamento da fé (veja a igreja de Pérgamo em Ap 2.12-17) uma tendência a perversão mais intensa do que a praticada entre os ímpios.
Assim como é mais fácil ser puxado para dentro de um lamaçal do que tirar uma pessoa de dentro dele, é muito fácil o crente se desviar ao se casar “infiéis, papistas ou outros idólatras são notoriamente ímpios em suas vidas ou que mantêm heresias perniciosas” (Confissão de Fé de Westminster XXIV, 3). Contudo, acreditamos que existem pessoas que entram em um casamento misto e, com o tempo, a parte não crente, por fazer parte da igreja invisível, vem a se converter e ser um crente vigoroso, mas essa realidade não é uma regra, mas uma exceção. Na maioria dos casos, vemos pessoas que antes professavam uma fé viva se desviando do reto ensinamento da Palavra ou pessoas que suportam um peso desigual, porém buscam santificar suas famílias no testemunho e na oração.
A Igreja Presbiteriana do Brasil (SC-1942-031) é contrária ao casamento misto, porque entende que as Escrituras são específicas em salientar a inconveniência deles, todavia como a confissão se silencia sobre se pode ou não se impetrar a bênção matrimonial sobre casais mistos, sabendo que a cerimônia de casamento não é um sacramento, mas um culto intercessório onde os familiares do não-crente têm a oportunidade de conhecer melhor o evangelho, mesmo sendo inconveniente (CE-87-110) e se o casal almeja de fato a bênção do Senhor é lícito conferi-la, porém respeita “respeita o escrúpulo de pastores, conselhos e congregações que consideram inaceitável sobre casais mistos ou não evangélicos”.
Salmom e Boaz viram em Raabe e Rute a piedade externa de um compromisso interior com Deus. Da mesma maneira, os jovens crentes devem entender que a membresia eclesiástica não é um fator predominante para indicar que uma pessoa é de fato crente, pois todo crente fiel está em uma igreja fiel (prega a Palavra, administra os sacramentos e a disciplina conforme as orientações bíblicas), mas nem todos aqueles que estão em uma igreja fiel são de fato crentes. Jesus nos adverte que o joio deve crescer com o trigo até o juízo (Mt 13.30). Dessa maneira, nem todos os que estão arrolados no rol de membros de uma igreja são de fato crentes. No período do namoro, deve-se primar por conhecer acima de tudo as convicções religiosas do indivíduo, suas prioridades, sua cosmovisão.
Vestir o ímpio de crente não o faz piedoso. Muitos jovens tentam impor aos ímpios condições externas de piedade como ir à igreja, fazer o discipulado, fazer pública profissão de fé, etc, mas, assim como não se pode mudar a cor do etíope, tampouco as manchas do leopardo, o indivíduo acostumado ao mal não pode fazer o bem (Jr 13.23).


sexta-feira, 13 de março de 2015

Como Protestar por dias melhores?


Como Protestar por dias melhores?
Parafraseando Shakespeare: há algo de podre no governo do Brasil. Assim como Hamlet (Ato I, cena IV) via a imoralidade do palácio dinamarquês como algo a apodrecer, nós brasileiros, pelos jornais, vemos a anatomia de mais um escândalo que nos dá o mesmo sentimento de putrefação de instituições que julgávamos sólidas como a Petrobrás e o pessimismo de sabermos que outras notícias de roubo vão ser contadas e seus protagonistas permanecerão impunes em sua empáfia. Diante dessa triste realidade, alguns grupos de organizam em movimentos que visam o impeachment da presidente da República. Portanto, é lícito ao cristão participar desses atos?
Jesus nos orientou a sermos prudentes como as serpentes e símplices (não misturados) como as pombas (Mt 10.16), por isso, ao vermos esses movimentos se levantando devemos ter a mesma percepção de Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas (cap. IV): “Quem não sabe que ao pé de cada bandeira grande, pública, ostensiva, há muitas vezes várias outras bandeiras modestamente particulares, que se hasteiam e flutuam à sombra daquela, e não poucas vezes lhe sobrevivem?”.
Debaixo da bandeira “fora Dilma” ou “fica Dilma” existem interesses partidários que não possuem força legal, porque a presidente foi eleita democraticamente com 51, 45% dos votos, contra os 48, 55% do seu oponente e tampouco pode ser, na vigência de seu mandato,  responsabilizada por atos estranhos ao exercício de suas funções” (Constituição Federal 86§4), por isso, requerem a população como massa de manobra para que, no frigir dos ovos, o impeachment não pareça um interesse partidário, mas a voz popular. Se essa voz conta algo, ela já se manifestou nas urnas nas últimas eleições, e toda manifestação posterior é um contratempo vago.
No último dia 08, a mídia mostrou cenas ridículas de pessoas protestando com panelas e palavras de baixo calão. Por pior que seja a administração de um governante ou por mais que ele persiga a igreja, a Bíblia não nos dá o direito de lançar imprecações contra ele, mas nos incentiva na obrigação de orar por sua vida.
Em meados de 60 d.C., quando Paulo escreve a primeira epístola a Timóteo, as autoridades romanas não eram bem quistas entre os judeus e cristãos, pois no ano 50 d.C. Claudio expulsara os judeus de Roma e logo, em 67 d.C., Nero, sexto imperador romano, se torna o primeiro a perseguir a doutrina cristã (Eusébio de Cesareia XXV.4), o qual matará Pedro e Paulo. Todavia Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, irá ordenar aos crentes de todas as épocas: exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito” (1Tm 2,1,2).
A Confissão de Fé de Westminster (XXIII.1) entende que há m duplo governo de Deus: Deus, o Senhor supremo e Rei de todo o mundo, para a sua glória e para o bem público, constituiu sobre o povo magistrados civis que lhe são sujeitos, e a este fim, os armou com o poder da espada para defesa e incentivo dos bons e castigo dos malfeitores”.
A qualidade administrativa da presidente ou seus pressupostos não exime os cristãos de interceder por seu governo, pois estes têm o dever de orar até mesmo porque aqueles que os perseguem (Mt 5.44) tampouco demonizá-la, pois toda a autoridade vem de Deus (veja Pv 8.16; Rm 13.1). Dessa maneira Calvino, comentando a Epístola aos Romanos, afirma: “ainda que as autoridades ditatoriais e injustas não devam ser classificadas como governos ordeiros, todavia o direito de governar é ordenado por Deus visando ao bem-estar da humanidade”.
Calvino, nas Institutas (XX. 24,25) que a maioria dos governantes não apresenta bons exemplos, tampouco transparecem em suas atitudes como bons governantes, mas se extraviam em uma vida dissoluta que traz sofrimento aos súditos, todavia esses devem respeitar aqueles como se fossem bons, pois Calvino entende que os governantes, legalmente constituídos, que não exercem corretamente seu ofício são instrumento de castigo e disciplina para um povo que se distancia de Deus.
Deus, por meio de Jeremias chamará Nabucodonosor, rei da Babilônia de seu servo (Jr 25.9; 27.6) não por sua piedade, pois saqueou o templo de Jerusalém para levar tesouros a Bel seu Deus (2Cr 36.10; Dn 1.2), muito menos por causa de sua misericórdia, porque não a teve nem com jovens, donzelas ou velhos (2Cr 36.17). Entretanto é chamado de servo de Deus, porque procede a ira do Senhor contra aqueles que zombavam dos mensageiros, desprezavam as palavras de Deus e mofavam dos seus profetas” (2Cr36.16). Dessa maneira, devemos entender que a presença de uma autoridade civil falhas e perniciosa serve para a disciplina de um povo, sabendo que o “o justo viverá pela fé” (Hc 2.4), ou seja, mesmo que o justo tenha que sentir a disciplina angariada pelos maus ela não esmorecerá, mas, como Daniel, firmará o propósito de não se contaminar (Dn 1.8).
Todavia a obediência aos governantes não pode ser maior do que a obediência devida a Deus. O súdito não pode negligenciar a Palavra para contentar seus superiores, tal como os amigos de Daniel (Dn 3.18), que estavam dispostos a morrer, mas não se entregar a idolatria. Pedro, inspirado pelo Espírito, afirma que o temor do Senhor antecede a honra devia a autoridade civil (1Pe 2.17) e igualmente diz aos homens do Sinédrio: Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens (At 5.29).
A estrutura política não pertence a satanás, todavia, como um hábil mercador da tentação ele exerce influência degenerativa na direção que a política assume. A luta do cristão não deve se resumir a utilizar dos modelos humanos para reformar o mundo, mas daqueles dispostos na Palavra, ou seja, denunciando as distorções e fiscalizando de maneira ordeira se a justiça está sendo feita. Sem uma profunda santificação na direção que a atividade política toma a saída de um corrupto só abre vaga para mais a se corromper.

Na tentação do Getsêmani, Pedro quis usar dos meios mundanos para fazer justiça, mas ele e nós somos advertidos pelo Príncipe da Paz: Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão” (Mt 26.52).