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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

CALVINO: DITADOR OU REFORMADOR?


Calvino: ditador ou Reformador?
Calvino é uma figura mal compreendida, porque, devido a grande influência católica romana de nosso país, é pintado como um ditador que misturou a sã pregação da Palavra a uma busca desenfreada por domínio político usando de sua posição para calar seus inimigos. Dom Estevão Tavares Bettencourt O.S.B. (1919-2008), proeminente teólogo da igreja de Roma do séc.XX, transmite essa ideia quando afirma: “em 1555, Calvino havia conquistado vitória sobre todos os seus inimigos. Nenhum pode mais lhe abalar a posição de ditador religioso, e também político, na sua ‘Roma protestante’, para onde afluíam os emigrados protestantes da França, da Itália e da Inglaterra” (Crenças, religiões, igrejas e seitas: quem são?, 1995, p. 31).
A fé romana equivoca-se ao afirmar que Lutero foi o precursor da Reforma Protestante do séc. XVI. De fato, o “o destino de Martinho Lutero e o da Reforma se tornaram inexoravelmente ligados, de modo que, agora, tentar imagina a Reforma sem Lutero é como pensar o cristianismo primitivo sem Paulo” (Timothy George, Lendo as Escrituras com os Reformadores, 2015, p.136), todavia não podemos esquecer que antes do Reformador alemão a igreja contou com homens como John Wycliffe (1320-1384), John Huss (1369-1415) e Savonarola (1452-1498). O historiador Alderi de Souza Matos (Fundamentos da Teologia Histórica, 2008, p.155) afirma que “se Zuínglio foi o fundador da tradição reformada, João Calvino, nascido na pequena Noyon, no nordeste da França, foi seu grande consolidador e defensor”.
Uma boa resposta a crítica mordaz de Dom Estevão a Calvino como o Papa da Roma Protestante estaria na descrição que Montegomery Boice (in Steve Lawson, A Arte Expositiva de João Calvino, 2012, p. 15), faz do Reformador de Genebra: “Calvino não tinha outra arma senão a Bíblia [...]. Ele pregava a Bíblia todos os dias, e, sob o poder desta pregação, a cidade começou a ser transformada. Conforme o povo de Genebra adquiria conhecimento da Palavra de Deus e era transformado por ela, a cidade tornou-se, como John Knox chamou-a mais tardem uma Nova Jerusalém, de onde o evangelho espalhou-se para o resto da Europa, para a Inglaterra, e para o Novo Mundo”.
Sobre esse poder avassalador da Palavra Lutero afirma: “Veja meu exemplo. Eu me opus às indulgências e a todos os papistas, mas nunca pela força. Simplesmente ensinei, preguei, escrevi a Palavra de Deus. De outro modo, não fiz nada. E, então, enquanto dormia ou bebia cerveja em Wittemberg, com meus amigos Phillip e Amsdorf, a Palavra enfraqueceu tanto o papado que nunca um príncipe ou imperador conseguiu lhe causar tanto dano. Eu não fiz nada. A Palavra fez tudo” (in Timothy George, Lendo a Bíblia com o Reformadores, 2015, p.16)
Seria um terrível equívoco, até mesmo aos romanistas, comparar Roma a Genebra e Calvino ao Papa, pois, nas entrelinhas, está se admitindo que a postura papal de infalibilidade só é tolerada pelo amontoado de argumentos humanos supersticiosos que entorpecem as mentes áridas pela água pura da Palavra de Deus.
Genebra era governada por quatro síndicos que eram eleitos pelo voto. Esses cidadãos controlavam não só os negócios temporais (como a condenação do herege Serveto), mas os religiosos (já que o Estado não era laico). Segundo o historiador Rev. Alderi de Souza Matos Calvino jamais exerceu cargos políticos em Genebra e muito menos foi o ‘ditador’ daquela cidade. Na realidade, durante a maior parte do seu ministério, ele teve um relacionamento difícil com as autoridades civis”.
De fato, se Calvino fosse um ditador, deveria ter implantado a celebração contínua da Ceia, porque assim compreendia Atos 2.42. Como déspota teria êxito, quando em 1537, decidiu restringir o acesso a Ceia (que era mensal) àqueles que não tinham uma vida condizente, assim como obrigar os moradores de Genebra a ouvir os sermões pregados (Alister McGrath, A vida de João Calvino, 2004, p.121). George afirma que os Conselhos municipais recebiam amigavelmente o movimento evangélico, pois queriam expandir suas liberdades frente a autoridades como imperadores, bispos ou reis, mas, diante de mudanças radicais, tendiam a limitar os avanços (Timothy George, Lendo as Escrituras com os Reformadores, 2015, p.173).
Na páscoa de 1538, Calvino e Farel foram expulsos de Genebra e, finalmente, aquele completou sua viagem a Estrasburgo, mas ficou sossegado apenas até 1941, pois o Cardeal Sadoleto começou a investir no retorno de Genebra para a fé Romana. Como o Conselho não possuía uma pessoa a altura de Calvino para enviar uma resposta chamou Calvino que reage da seguinte maneira em carta a Pedro Viret: “certamente, não foi sem um sorriso que li o trecho de sua carta em que se mostrou tão preocupado com minha saúde que me recomendou, com base nisso, Genebra! Por que não me recomendou logo a cruz? Pois seria muitíssimo preferível morrer de uma vez a ser, novamente, enviado a esse lugar de tormento”. O pastoreio em Genebra foi tão traumatizante que o vê como uma tortura, mas, pouco tempo depois, escreve a Willian Farel: “conquanto eu não seja ardiloso, não me faltariam pretextos pelos quais pudesse, astutamente, me esquivar de maneira a justificar-me diante dos homens, mostrando que não houve erro da minha parte. No entanto, tenho plena consciência de que é com Deus que tenho de tratar, à vista do qual não se sustentam tais artifícios da imaginação”.

Vemos, nesses trechos, dessas duas Cartas de Calvino, que ele está disposto a ir para um lugar de tortura, um lugar que seria preferível à morte e, que denegrirá sua saúde, não para obter os benefícios humanos (ele os tinha em Estrasburgo), mas única e exclusivamente para cumprir com a vontade de Deus. Segundo Lawson (A arte expositiva de João Calvino, 2012, p. 25), chegou, novamente, em Genebra no dia 13 de setembro de 1541 e ele que pregava em sequência (verso por verso, semana após semana), ao reassumir o púlpito, que fora obrigado a deixar há três anos, tomou a Bíblia e ao invés de fazer um sermão que exortasse as pessoas para a injustiça que acontecera com ele, apenas continuou a pregar do texto que havia parado na sua última pregação. Esse, de fato, não é um ditador, mas um Reformador.

sábado, 24 de outubro de 2015

O batismo com o Espírito Santo e com o fogo


O batismo com o Espírito Santo e com o fogo
Adotando a postura de Calvino e Berkhof de que o batismo joanino e o cristão são essencialmente idênticos, cabe salientar as características do batismo empreendido, hoje, pela igreja de Jesus Cristo. O próprio Batista afirma: Eu vos batizo com água, para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3.11).
O contexto desse versículo é útil para entendê-lo. Em Lucas, esse mesmo versículo é recorrente à expectativa do povo de que João fosse o Cristo (Lc 3.15. Veja Jo 1.19, 20; 3.25-36). Por isso João afirma que viria outro que seria tão grande que não lhe caberia sequer o serviço do escravo, ou seja, levar as sandálias.
Evidentemente, o batismo cristão tomou o mesmo sinal externo que João utilizava, a água, assim como, a disposição daqueles que o recebem. Alguns podem se perguntar: Como as crianças podem vir a esse sacramento se não conseguemem, como os adultos, manifestar o mesmo arrependimento?
Calvino entende que o batismo é equivalente à circuncisão, sendo o sacramento da fé e do arrependimento (Rm 10. 10-12), por isso, afima: “que se questione a Deus, então, pedindo-lhe a razão pela qual Ele ordenou que fosse aplicada aos pequeninos”.
A.A. Hodge, comentando a Confissão de Fé de Westminster, entende que as crianças pertenciam a igreja do Velho Testamento tendo a circuncisão como porta de entrada. Da mesma forma, “visto que o batismo assumiu o lugar da circuncisão – segue-se que a membresia eclesiástica de filhos de pais professos deve ser reconhecida como era outrora, e que os mesmos devem ser batizados”. Essa ordenança só poderia ser desconsiderada se Jesus, no Evangelho retirasse dos infantes o direito hereditário de pertencer a igreja.
O batismo no Espírito Santo entre os pentecostais, segundo F.D. Bruner (Teologia do Espírito Santo, p. 50,51), é o pleno recebimento do Espírito Santo, o que é distinto da regeneração e subseqüente a ela, é evidenciado por falar em línguas e deve ser buscado com sinceridade.
Lembro-me de ouvir um pregador pentecostal explicando essa doutrina com uma ilustração, no mínimo peculiar: arregaçou as mangas de sua camisa e molhou seu braço com água e pediu para um diácono muito forte tentar segura-lo, o que fez com êxito. Diante desse fato afirmou: “esse é o batismo com água, nele, ainda estamos vulneráveis a satanás”. Em seguida, mergulhou seu braço no óleo e pediu para o mesmo diácono detê-lo, mas, agora, sem o mesmo sucesso e, por isso, disse: “esse é o batismo no Espírito Santo, satanás não consegue pegar”.
O povo judeu esperava esse batismo no Espírito como podemos ver em Ezequiel 36.25-27;39.29 e Joel 2.28. Segundo Hendriksen, essa realidade mostra que há uma diferença qualitativa entre Jesus e o Batista, assim como “o infinito e o infinito, o eterno e o temporal, a luz original do sol e a luz refletida da lua (jo 1.15-17)”. Calvino entende que apenas Jesus, doador do Espírito, pode dar a graça interna que estava figurada externamente no batismo de João, ou seja, é ele quem outorga o espírito de regeneração. O batismo do Espírito não pode ser uma experiência posterior a conversão, porque o simples fato da pessoa entender-se pecador e necessitado do perdão em Cristo mostra que houve a ação miraculosa do Parácelto no seu interior (Jo 16.8). Portanto, ao recebermos o sacramento do Batismo com água (parte externa), há no mesmo instante a administração do Espírito (parte interna do sacramento) e, por que não dizer també o fogo (a santidade).
Tendo em vista que o fogo é aquilo que destrói e consome (Ml 4.1), entendemos que esse elemento, que caracteriza o batismo de Jesus em Mateus 3.11 é a ação destruidora de Deus. Calvino afirma: a palavra fogo é adicionado como um epíteto, e é aplicado ao Espírito, porque ele tira os nossos corrupções, como o fogo purifica o ouro”. Para o Exegeta da Reforma, há um único batismo que regenera (Espírito Santo) e purifica dos pecados (Fogo). Calvino entende o fogo com o poder de limpar, porque faz paralelo entre Mateus 3.11 e João 3.5 e compreende que o Senhor compara o fogo dito por João (em Mt 3.11) a água (dito por Jesus a Nicodemus em Jo 3.5).
Segundo Timothy George, uma das grandes descobertas de Lutero ao ler o Novo Testamento interlinear de Erasmo foi entender que Jerônimo havia traduzido Mateus 3.2 de maneira errada. O grande tradutor da Vulgata havia entendido o termo Μετανοετε - matanoeite (arrependei) por paenitentiam agite (fazei penitência). A partir dessa constatação, Lutero percebe que a ënfase de João (Mt 3.2,11) não está em um conjunto de atitudes que almejam perdoar pecados, mas em uma mudança do coração. Dessa maneira, como disserta Rienecker a vida cristã envolve o arrependimento, que leva a conversão, evento único, a qual, por sua vez leva a vida de santidade, ou seja, continuamente deixar o mundo. Dessa maneira “O Espírito e o fogo são o elemento da nova vida que continuamente julga e purifica, como também continuamente aquece e promove a vida.”.
Há quem defenda que, em Mateus 3.11, há dois batismos do Espírito Santo dado por Jesus aos crentes colocando-os no seu celeiro (o céu) (Mt 3.12a) e o do fogo aos ímpios dado pelo mesmo Jesus colocando-os no fogo inextinguível (o inferno) (Mt 3.12b). Essa não deixa de ser uma proposta plausível, mas que não se harmoniza ao correspondente sinótico de Marcos 1.7,8 e, especialmente o de Lucas 3.1-5-17.



sábado, 17 de outubro de 2015

O BATISMO DE JOÃO



O batismo de João
O batismo e a ceia são os dois únicos sacramentos ordenados pelo Senhor. Segundo a Confissão de Fé de Westminster (CFW, XXVII,1): “os sacramentos são santos sinais e selos do pacto da graça, imediatamente instituídos por Deus, para representar a Cristo e seus benefícios e para confirmar nosso interesse nele, bem como para fazer diferença visível entre os que pertencem a igreja e ao restante do mundo, e, solenemente, compromete-los no serviço de Deus em Cristo, de acordo com sua Palavra”.
Os sacramentos possuem duas partes: um sinal externo e sensível ( no batismo, “o elemento exterior usado é a água com a qual a pessoa é batizada em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, por um ministro do Evangelho, legalmente chamado para tal fim”CFW, XXVIII, 2 ; na Ceia, o pão e o fruto da videira.), que não pode ser usado pela conveniência do homem, mas segundo a determinação de Cristo na Palavra, e a parte interna e espiritual (Breve Catecismo de Westminster, pergunta 163).
Segundo o Breve Catecismo de Westminster (pergunta 94), o batismo “é um sacramento no qual o lavar com água, no nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo significa e sela nosso externo em Cristo, nossa participação dos benefícios do pacto da graça e nosso comprometimento de pertencermos ao Senhor”.
O batismo está relacionado a circuncisão (Gn 17.9-14), ou seja o ato de colocar uma pessoa debaixo da aliança com o Senhor. Segundo Calvino (Institutas, vol. 3, p.169) o batismo e a circuncisão são semelhantes no fato de ambos sinalizarem a promessa da misericórdia, remissão dos pecados e vida eterna aquele que o recebe; na realidade simbolizada é a mesma, a purificação e a mortificação, assim como no fato de Cristo ser o mesmo fundamento da da circuncisão e do batismo. Por isso, esse sacramento pode ser administrado a crianças e adultos, não pode ser ministrado mais de uma vez (Ef 4.5) e não pode ser concedido sem critério algum, mas apenas aos convertidos que professam publicamente sua fé e arrependimento ou aos filhos dos pais crentes.
Apesar dessa ligação entre o batismo e a circuncisão os judeus possuíam ritos de purificação (Hb 9.10) e, segundo Laubach (Comentário Esperança de Hebreus, p. 54), os judeus costumavam batizar prosélitos baseando-se nos banhos de purificação levíticos (Lv 14.8; 2Rs 5.14). As religiões de mistério dos helenistas também possuíam ritos de purificação. O batismo empreendido por João nas águas do Jordão seguia esse molde de rito de purificação.
Há divergência na compreensão do batismo de João. A.A. Hodge, comentando a Confissão de Fé de Westminster (p.458,459), que o batismo de João é diferente do batismo cristão pelos seguintes aspectos: a.) João não é um apóstolo do Novo Testamento (Lc 1.17); b.) o seu batismo não era em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; c.) seu batismo era para arrependimento e não para a fé em Cristo; d.) seu batismo não introduzia a comunhão da igreja como os apóstolos fizeram (At 2.41,47); e.) as pessoas batizadas por João foram rebatizadas (At 18.24-28; 19.1-5). A.A. Hodge entende que até mesmo o batismo empreendido pelos discípulos antes da crucificação (Jo 3.22; 4.1,2) não eram válidos.
Calvino (Institutas, vol. 3, p.156) defende que o batismo de João é essencialmente o mesmo que foi confiado aos apóstolos, pois ambos aceitavam a mesma doutrina: batismo para arrependimento e o ministravam para a remissão dos pecados. Berkhof (Teologia Sistemática, p.576) sobre o batismo cristão e aquele empreendido por João, afirma: “alguns acham que a prova da diferença essencial entre os dois está em At 19.1-6, qu,e segundo eles, registra um caso em que alguns que tinham sido batizados por João foram rebatizados. Mas essa interpretação está sujeita a dúvidas. O que parece correto é dizer que os dois são essencialmente idênticos (grifo nosso). De fato, não há indícios de que Apola fora rebatizado (At 18.25).
Calvino, defendendo que os tais de Atos 19.1-6, não foram rebatizados argumenta: “Se o primeiro Batismo fosse defeituosoa e nulob por causa da ignorância dos batizandos, devendo eles ser rebatizados, os próprios apóstolos teriam que ser os primeiros a ser batizados de novo, porque, após o Batismo, passaram três anos sem ter grande conhecimento da verdadeira doutrina.” (Institutas, vol.3, p.164).
Berkhof (Teologia Sistemática, p.576) entende que existem semelhanças entre o batismo de João e aquele oferecido pelos Apóstolos: a.) ambos foram instituídos pelo próprio Deus (Mt 21.25; Jo 1.33); b.) relacionavam-se a mudança radical de vida (Lc 1.1-17); c.) estabelecem uma relação com o perdão dos pecados (Mt 3.7,8; Mc 1.4; Lc 3.3) d.)usam do mesmo elemento material, a água. Contudo o batismo de João é diferendo do oferecido pela igreja, porque: a.) pertencia a antiga dispensação; b.) harmonizava-se com a dispensação da lei, mesmo se excluir a fé; c.) foi planejado para judeus; d.) “visto que o Espírito Santo ainda não fora derramado na plenitude do Pentecostes, o batismo de João o batismo de João ainda não era acompanhado por tão grande porção de dons espirituais como o batismo cristão”.
Se ambos batismos não são essencialmente diferentes, o de João é inferior ao empreendido pelos apóstolos, porque o batismo de João atinge apenas o externo, enquanto o de “Cristo é o autor da graça interna” (Institutas, vol.3, p.157). Portanto, de fato o batismo de João cessou não para dar lugar a algo inédito, mas algo maior, um batismo no Espírito e no fogo.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O maior no Reino dos céus


O maior no Reino dos céus

“Se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Mt 18:3)

Diferente do que pensava o filósofo iluminista Rousseau, a criança não é o bom selvagem, Davi afirma: Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51.5), como interpreta Calvino, “o pecado, por natureza, penetra cada parte dele sem exceção”.
Na queda de nossos primeiros pais, perdemos nossa integridade original, porque “Adão não mantinha um caráter privativo e isolado, mas era representante de toda a humanidade [...] quando ele caiu, todos nós, juntamente com ele, perdemos nossa integridade original” (Calvino, Comentário dos Salmos) (veja Rm 5.19) de tal maneira que precisávamos de um novo Adão, que nos redimisse (1Cor 15.22), porque o “ofício [de Cristo] é restaurar o que perdemos em Adão, [Jesus] é para nós causa da vida e sua ressurreição é a substância e penhor da nossa própria ressurreição” (Calvino, Comentário de 1Coríntios).
Se a criança nasce com pecado, assim como a mais tenra víbora já carrega veneno mortífero em sua peçonha, a vida adulta não coloca o fardo da iniquidade sobre a criança que insiste em crescer, trilhando o caminho inverso de Peter Pan, mas oferece os subsídios necessários para desenvolvê-lo. Os discípulos de Jesus viam o Reino que se iniciava com o Messias (Mt 12.28), porque “a mola mestra do mundo é que todos querem subir ao poder e ao esplendor, a fim de superar e dominar os outros” (Rienecker)
O Reino inaugurado pelo Senhor não é deste mundo (Jo 18.36), tampouco segue os parâmetros de maior ou menor que os discípulos de Jesus estavam acostumados (Mt 18.1; Mc 9.33-38; Lc 9.46-48), mas como afirma João: o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou ” (Jo 13.16). Diante da desorientação a respeito dos seus discípulos, Jesus passa a explicar quem é o maior no reino dos céus, por isso, toma uma criança pequena ou de colo (παιδον), que, segundo Carson, bem poderia ser de Pedro se a casa do capítulo 17 for dele (veja Mt 17.25; Mc 9.33).
Essa atitude não visa mostrar alguém em alto grau de pureza e falta de pecado, mas alguém humilde, pois aquele que se humilhar como esta criança, esse é o maior no reino dos céus” (Mt 18.4). O verbo humilhar (tapeinoo - ταπεινω), segundo Coenen Brown (Dicionário Internacional de Teologia do NT, 977) não significa se colocar mais baixo do que é, mas “deve-se saber, como criança, quão baixa é nossa condição diante de Deus”. Carson afirma: “A crianca e levantada como um ideal nao de inocencia, pureza ou fe, mas de humildade e de despreocupacao por posicao social”.
Os discípulos deveriam converter-se m nessa atitude pueril (de criança), na qual há uma humildade que esboça, segundo Rienecker, “modéstia e fraqueza; liberdade com quem cofiam e carência de amor”. Dessa maneira, o maior no reino dos céu é aquele que como uma criança não busca a arrogância como uma forma de defesa, tampouco se envergonham de suas limitações.
Cristo não nos convida à infantilidade, mas a uma vida regida por padrões diferentes como diz Paulo: Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte” (2Co 12.10). Uma vida cristã bem sucedida imita a maneira como a criança encara o mundo ao seu redor.

Nesse mês em que se comemora o dia das crianças é co’mum vermos nas redes sociais inúmeros perfis de pessoas crescidas, mas que querem lembrar o óbvio: já foram crianças e, por isso, adaptam e digitalizam fotos antigas. Quando esse mês passa dando lugar às propagandas de natal, esses perfis são trocados por outros. Enquanto o desejo de ser como criança no facebook dura apenas um mês Jesus mostra que ser como uma criança não deve ser um adereço, mas uma busca, porque se não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Mt 18.3).

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O QUE É IMPORTANTE PARA A IGREJA HOJE?


O que é importante para a igreja hoje?

Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido” (Sl 1.3).

Se você perguntasse: “o que é uma boa igreja?” ou “o que minha igreja precisa para crescer?”. Com certeza as respostas seriam variadas como: uma boa estratégia de marketing, programações mais envolventes, um ministério de música profissional, etc. Todas essas intenções são boas e sinceras, todavia sem nenhuma exceção todas escolheram o caminho errado, pois todas acreditam que fazendo algo e até imitando o que o mundo faz pode se encontrar êxito. Não é à toa que vemos igrejas investindo mais em música do que em formação de membros ou em templos monumentais que em almas para o Senhor. Deveria ecoar em nossos ouvidos o imperativo de Jesus: “buscai primeiro o reino de Deus e sua justiça” (Mt 6.33a). Talvez no serviço do Reino haja muitas pessoas bem intencionadas, mas com uma escala de valores e, consequentemente, com uma agenda distorcida.
Os dois primeiros salmos da Bíblia formam a introdução de todo o livro de salmos que, segundo Futato (Interpretando os Salmos, 2011, p.54), pode ser considerado como “um manual de instruções para viver uma vida verdadeiramente feliz”. O primeiro salmo inicia como a expressão “bem-aventurado” (‘asrê -  אַ֥שְֽׁרֵי ou makarios (LXX) - μακριος), feliz e, com certeza, nos versos desse texto encontraremos não só como nossa igreja poderá crescer feliz, mas também, como nós poderemos ser mais felizes e realizados dentro dela.
O Salmista começa mostrando a complexa realidade do pecado: ele é um mal progressivo, silencioso e degenerativo. A relação do homem caído como pecado é equivalente, em muitos aspectos, a nossa relação com o mar. Tudo começa com brincadeira e diversão.Todos sabem dos perigos do mar e como ele é inconstante. Entretanto inúmeras pessoas morrem todos os anos vítimas de afogamento. Assim como ao nos embrenharmos nas águas acreditamos estar no controle e prontos para retornar à segurança da praia, todavia logo nos vemos vulneráveis e entregues a uma força maior do que a nossa.
Semelhantemente, o pecado começa quando nos guiamos pelos conselhos dos ímpios, logo nos detemos à prática deles e, quando menos percebemos, estamos no mesmo procedimento desastroso. É óbvio que, pela graça comum, podemos extrair valiosos ensinamentos do mundo ao nosso redor, contudo sempre é uma tentação utilizarmos tais contribuições sem o filtro das Escrituras, incorporando-as sem critério algum no culto e na vida da igreja.
O salmista utiliza duas metáforas para caracterizar o justo e o ímpio: a árvore e a palha. Aquela é boa enquanto fincada no solo e melhor ainda se com uma boa fonte de água, esta nunca está em um mesmo lugar, mas, utilizando-se da vontade do vento penetra todos os ambientes trazendo sempre incômodo e sujeira.
Assim como a árvore é boa enquanto exerce a função para a qual foi criada, a igreja feliz e o justo são felizes enquanto exercem o propósito para os quais foram criados, ou seja, “glorificar a Deus e se alegrar nEle para sempre” (BCW). Dessa maneira, não perseguem os “modismos” de nossos dias, tampouco se valem de muitas programações para angariar membros, antes têm prazer na lei/Palavra do Senhor e, por isso, continuamente a meditam.
O termo hebraico הָגָה (haga – meditar), no Antigo Testamento, não tem a mesma conotação que as religiões orientais lhe atribuem, mas se trata de murmurar algo, trazer a memória um texto bíblico, como afirma o putitano John Owen (): “Por meditação, eu quero dizer pensar sobre alguma questão espiritual e divina, fixando, forçando e ordenando os pensamentos sobre isso, com o propósito de afetar o próprio coração quanto a isso”. Na imagem pintada pelo autor, essa relação com a Palavra está para o homem e a igreja, assim como a água corrente (contínua) está para a árvore, ou seja, para ambas são vitais. A corrente de água, que refrigera e abastece o cristão, não é um córrego pronto para secar, mas o próprio Jesus Cristo que disse à Samaritana: aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna” (Jo 4.14).
Na metáfora proposta pelo salmista, o justo e a igreja feliz não têm frutos o tempo todos, mas existe a promessa de que no tempo certo, ou seja, quando eles forem requeridos pelo Senhor serão apresentados de forma satisfatória.
Dessa maneira, não há problema algum em zelar pela qualidade musical dos cultos, tampouco em organizar grandes eventos ou ampliar a divulgação dos trabalhos semanais, mas essas estratégias não podem esconder, nem diminuir aquela que é mais necessária: buscar a Palavra com insaciável interesse, porque não há outro lugar pelo qual o Senhor fala ao seu povo, assim como oferece o melhor lugar para forjar o caráter do cristão.

Às vezes, aos olhos do mundo, se a igreja não tiver uma ação social forte ela não term uma razão prática para existir. A igreja pode ter um bom trabalho assistencial, mas sua existência só se justifica se seu maior intento for pregar a Palavra com fidelidade, porque só assim suas folhas não murcharão e tudo quanto fizer (inclusive as áreas adjacentes como programações, propagandas, música ou assistência social) serão sucedidas.

domingo, 13 de setembro de 2015

O CONHECIMENTO PELA INJUSTIÇA



O conhecimento de Deus pela injustiça
Em certo aconselhamento, alguém me disse que determinada amiga pulava todos os versículos que falavam da ira de Deus, porque, na concepção dela, um Deus que é amor (1Jo 4.8) não combina com um Deus capaz de se irar. Contudo Paulo afirma: A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça (Rm 1.18). Como conciliar um Deus amoroso, mas capaz de se iriar?
Geralmente, as pessoas atribuem sentimentos humanos a Deus, mas essa é uma incoerência grave, porque Deus não possui paixões como nós a possuímos. Paulo, à multidão de Listra que queria adorar a ele e Barnabé como deuses, afirma que era homem sujeito aos mesmos sentimentos que os homens (At 14.15), porque Deus não pode ser surpreendido pela decepção ou a alegria frente a alguma coisa, por, sendo onisciente (conhece todas as coisas), não há nada que está velado para ele.
Deus não se arrepende ou fica irado como um ser humano, mas a Bíblia utiliza esses termos como (antropopatia) uma maneira de fazer a Palavra compreensível. Todo sentimento que atribuímos a Deus servem para a sua glória.
A ira do Senhor tem um alvo específico: a impiedade e perversão/injustiça dos homens. O primeiro adjetivo revela uma realidade interna do coração, enquanto a segunda indica uma consequência da impiedade. Essa realidade de ira existe, porque tais homens detêm a verdade pela injustiça.
Esses homens ímpios e injustos detêm a verdade, porque Deus revelou (Rm 1.19), pela revelação geral (Rm 1.20) com a finalidade de glorificarem e darem graça ao Senhor. No Areópago, Paulo afirma que os atenienses eram “acentuadamente religiosos” (At 17.22), mesmo que tenha ficado outrora revoltado frente ä idolatria dominante (At 17.16). Paulo mostra que essa preocupação teológica dos gregos era uma busca rudimentar por Deus (At 17.27). Citando Cícero, Calvino afirma: como os próprios pagãos confessam, não existe nação tão bárbara, nenhum povo tão selvagem que não tenha impressa no coração a existência de algum Deus”.
Os pagãos buscam a Deus pela revelação geral, ou seja, conseguem observar de forma clara os atributos invisíveis de Deus, o seu eterno poder e a sua própria divindade (Rm 1.20), todavia esse conhecimento é insuficiente para a salvação, mas apenas faz esses homens indesculpáveis, porque “a manifestação de Deus, pela qual ele faz sua glória notória entre suas criaturas, é suficientemente clara até onde sua própria luz se manifesta, entretanto, em razão de nossa cegueira, ela se torna inadequada” (João Calvino).
Esses homens ímpios e injustos detêm essa busca por Deus na injustiça que vivem, porque glorificam a Deus segundo seus pensamentos loucos e idólatras minimizando a infinitude do Senhor a imagens de homens ou animais. Sabendo que temos acesso ao Pai por Jesus em um Espírito (Ef 2.18), truncar essa comunicação por qualquer outro caminho seria tão absurdo quando conversar frente a frente com alguém utilizando um aparelho celular.
Essa teologia deturpada leva a uma religião idólatra e, consequentemente, uma moral limitada. Quando alguns grupos evangélicos veem a depravação dos valores acreditam que isso é próprio de nossos dias, mas a estrada da depravação em todas as épocas teve como um grande portão largo em uma visão distorcida sobre Deus. Assim como na visão de Daniel (2.41), o Império Romano é o ferro misturado com o barro da licenciosidade e da baixa moral.
R.C. Sproul defende que “todo cristão é um teólogo. Talvez não um teólogo no sentido técnico e profissional da Palavra, mas um teólogo”. Portanto, a preocupação com a teologia é de vital importância, porque de sua deturpação processam as mazelas da idolatria. Contudo a sã doutrina jamais será palatável a todos, especialmente àqueles que buscam seus próprios mestres (2Tm 4.3) que compactuam com suas idolatria tal como foi o neto de Moisés – Jônatas – para Mica.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Reduzir ou não reduzir: a educação e a a depravação total (parte 3 de 3)



Reduzir ou não reduzir: a educação e a a depravação total (parte 3 de 3)
Quantas vezes se ouviu: “a educação transforma”, “se construíssemos mais escolas, não precisaríamos edificar tantos presídios”. Essa ideia vem ao encontro do seguinte pensamento de Cesare Beccaria: “quereis prevenir os crimes? Marche a liberdade acompanhada das luzes. Se as ciências produzem alguns males, é quando estão pouco difundidas; mas, à medida que se estendem, as vantagens que trazem se tornam maiores”. Sob esse prisma, a educação (as luzes, as ciências) ganha o status de redentora, como se a criminalidade fosse fruto apenas da ignorância ou da falta de oportunidade no mercado de trabalho.
A ideia de que o sistema carcerário é capaz de ressocializar o indivíduo é um doce sonho iluminista de que o indivíduo é essencialmente bom e que a sociedade o corrompe e, por isso, tirando-o da sociedade e abrigando-o em um lugar ideal ele pode se desvencilhar de seus antigos comportamentos.
O maior expoente desse pensamento é Jean Jaques Rousseau (1712-1778) que, no Discurso sobre a desigualdade, defende a existência de dois tipos de desigualdade entre os homens: a física (imposta pela natureza) e a moral (imposta pelas convenções humanas). O homem selvagem vive pelas suas paixões e não teme a morte e seus terrores de tal maneira que o mais virtuoso dos homens selvagens é o que menos resistia a sua natureza.
Rousseau afirma: “Os homens nesse estado [selvagem], não tendo entre si nenhuma espécie de relação moral nem de deveres conhecidos, não podiam ser bons nem maus, nem tinham vícios nem virtudes, a menos que, tomando essas palavras em um sentido físico, se chamem vícios, no indivíduo, as qualidades que podem prejudicar a sua própria conservação, e virtudes as que podem contribuir para essa conservação. Nesse caso, seria preciso chamar de mais virtuoso aquele que menos resistisse aos simples impulsos da natureza[1]”.
Dessa maneira, para Rousseau, o amor leva o homem físico ao sexo enquanto o homem moral a um contrato de casamento que estabelece meios para contê-lo, pois quanto mais intensa uma paixão mais se fazem necessárias as leis que a limitam[2], pois a própria lei civil veio subjugar a lei natural e fazendo gente honesta contar entre suas obrigações cortar o pescoço do seu semelhante[3].
Dessa forma, para esse iluminista francês, o homem nasce em desigualdades físicas, todavia a sua inserção na sociedade “modificam e alteram todas” as suas inclinações naturais. No âmbito da educação é o adulto que perverte a criança, por isso, no pensamento romântico de Rousseau, se o indivíduo puder se isolar dos vícios e mazelas da sociedade, desenvolver-se-á com mais dignidade.
Os teóricos Iluministas defendiam que a educação deveria ser democrática, laica e gratuita e Condorcet (1743-1794) propunha que se essa educação fosse difundida de forma universal diminuiria as desigualdades, mas como é comum até hoje entraves políticos levaram aqueles em melhores condições econômicas pagar por uma escola melhor.
Se a aquisição de conhecimento fizesse o homem melhor, as festas da Universidade de São Paulo não teriam tantos excessos, tampouco jovens universitários cometeriam crimes em trotes organizados para humilhar calouros. Se a distribuição de renda fosse suficiente para eliminara criminalidade, por que pessoas da classe média entram para a marginalidade com tanta frequência? Se a educação não partir da perspectiva da depravação total ela fatalmente funcionará como um frustrante paliativo para uma sociedade doente.
Alguns podem afirmar que não se pode submeter uma ciência (pedagogia) a um pressuposto religioso, todavia concordamos com o filosofo jansenista cristão Blaise Pascal (1623-1662) quando afirma: “a última tentativa da razão é reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam. Revelar-se-á fraca se não chegar a conhecer isso. É preciso saber duvidar onde é preciso, afirmar onde é preciso, e submeter-se onde é preciso. Quem não faz assim não entende a força da razão.
Enquanto os teóricos iluministas pregavam uma educação democrática, laica e gratuita que visava eliminar as desigualdades, Weber (1864-1920) afirma que “um simples olhar às estatísticas ocupacionais de qualquer país de composição religiosa mista mostrará, com notável frequência, [...] o fato de que os homens de negócios e donos do capital, assim os trabalhadores mais especializados e o pessoal mais habilitado técnica e comercialmentedas modernas empresas, são predominantemente protestantes”[4].
Essa realidade se dá porque, para os Reformadores, como Lutero, “nenhum pecado exterior pesa tanto sobre o mundo perante Deus e nenhum merece maior castigo do que justamente o pecado que cometemos contra as crianças, quando não as educamos [...]. Para ensinar e educar bem crianças precisa-se de gente especializada”[5].
João Amós Comênius (1592-1670) pretendia que a educação fosse democrática capaz de oferecer sólido conhecimento aliado à piedade, pois afirma: “prometemos uma organização das escolas, através do qual [...] todos se formem como uma instrução não aparente, mas verdadeira, não superficial, mas sólida; ou seja, que o homem, enquanto animal racional, habitue-se a deixar-se guiar, não pela razão dos outros, mas pela sua, e não apenas a ler livros e a entender, ou ainda reter e recitar de cor opiniões dos outros, mas penetrar por si mesmo até o âmago das próprias coisas e a tirar delas conhecimentos genuínos de utilidade”[6]. O marxista Althusser, de forma míope, vê nessa pedagogia uma perspectiva inferior, que visa apenas perpetuar valores religiosos e incapaz de transformar o indivíduo, todavia muitas escolas que começaram ao lado de igrejas como Havard transformaram pessoas e influenciaram o mundo.
Lessa afirma que o Colégio Mackenzie (embrião da instituição que é hoje), diferentes das outras escolas de São Paulo do século XIX, não possuía distinção de cor ou raça, tampouco da religião de seus alunos, mas promovia a educação mista (meninos com meninas), com métodos modernos de educação, sempre adotando a Bíblia como livro básico[7], de tal maneira que o diretor da Escola Americana (Primeiro nome do Colégio Mackenzie) questionando sobre a presença da Bíblia aberta na sala de aula é interpelado pelo diretor que responde: “a bíblia tem estado aberta nessa escola desde o primeiro dia de sua abertura e, quando fechar-se fechar-se-ão as portas da Escola Americana”[8].
A educação pode redimir o homem se observa-lo da maneira correta, ou seja, partindo do pressuposto de que o homem está contaminado até a sua raiz pelo pecado e sua transformação efetiva se dá quando toma consciência de que é um pecador e que será, um dia, julgado por Deus segundo a justiça dEle (Jo 16.8). Portanto, se a educação não oferecer os verdadeiros elementos críticos que levam o indivío a buscar a Deus e desprezar as coisas desse mundo ela será sempre insuficiente.


[1] ROUSSEAU, J.J. A Origem da Desigualdade entre os homens. http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000053.pdf. Acessado no dia 24 de dezembro de 2014, p.24.
[2] Ibidem, p. 26,27.
[3] Ibidem, p.38.
[4] WEBER, M. A Ética Protestante e o Espírito Capitalista, p.39.
[5] LUTERO in COSTA, H.M.P. Raízes da Teologia Contemporânea, p.86.
[6] Ibidem, p.115.
[7] LESSA, V.T. Anais da Primeira Igreja Presbiteriana de São Paulo, p.387.
[8] Ibidem, p. 137.