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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A BÊNÇÃO DO CASAMENTO


A bênção do casamento
Se o maior objetivo do homem é glorificar a Deus e se alegrar nele para sempre (pergunta um do Catecismo Maior de Westminster), o mesmo vale para o matrimônio cristão. Com certeza, o grande problema de inúmeras famílias está no fato de homens e mulheres irem para o casamento como um meio de alcançarem uma felicidade egoísta, um forma pecaminosa de angariar glória para sei mesmo fazendo do outro um objeto dos meus anseios escusos.
Contudo esse falso matrimônio nunca atinge os propósitos para os quais foi criado por Deus tais como: “o auxílio mútuo do marido com a mulher”, “a propagação da raça humana por uma sucessão legítima e da Igreja por uma semente santa” e “impedir a impureza” (Confissão de Fé de Westminster, XXIV, 2).
Dessa maneira, no casamento, o homem encontra sua auxiliadora idônea (Gn 2.18), a qual ama como a parte mais frágil e recebe dela respeito e submissão como cabeça da família (Cl 3.18,19; 1Pe3.2). Nessa relação, firmada no amor e no respeito, o casal, dentro de suas possibilidades físicas (haja vista que a queda possibilita a inversão da bênção de Gn 1.28 trazendo o problema da esterilidade a muitos casais) tem filhos debaixo da aliança (Ml 2.15). No casamento, o homem e a mulher se preservam das concupiscências da carne, ou seja, da fornicação (porneia –  πορνεία).
Calvino afirma: “ele [Paulo] requer daqueles que se deixam influenciar pelo vício da incontinência que busquem o recurso desse antídoto [o casamento]”[1]. O vínculo matrimonial, consumado no ato sexual, é tão importante que não poder ser sonegado um do outro senão por três critério: sem consentimento mútuo, para a oração e por um período determinado, pois essa atitude aparentemente piedosa traz tentação para a vida dos cônjuges, pois, segundo Kistemaker, “o apóstolo adverte a seus leitores da presença de Satanás, que busca tirar proveito das debilidades humanas, tentando-nos ao adultério”[2].
O casamento é, além de tudo isso, um voto feito diante do Senhor, e a Bíblia diz que Deus não se agrada do voto do tolo (Ec 5.4), ou seja, aquele que de forma precipitada promete o que não é capaz ou lhe causa grande pesar em cumprir, tal como algo que o Senhor não requer em sua Palavra. Vejamos o triste exemplo de Jefté que teve de sacrificar sua própria filha, a quem amava, porque agiu de maneira precipitada, movido pela superstição (Jz 11.31-34).
Tendo em vista que o casamento envolve muitas responsabilidades e disposição em se dar ao outro, cerca de 24,6% (IBGE, 2013) dos jovens entre 25 e 34 anos ainda moram com os pais, o que forma a chamada “geração canguru”, todavia, como afirma Pearcey “os indivíduos não conseguem desenvolver toda a sua verdadeira natureza, a menos que participem de relações sociais, como casamento, família e igreja”[3].
Pearcy, rebatendo a ideologia iluminista de Rousseau de que a sociedade corrompe o homem, defende que, por causa do fato de ter sido feito à imagem e à semelhança de Deus (doutrina da imago Dei de Gn 1.26), uma substância em três pessoas. Os seres humanos buscam essencialmente associarem-se. Hoekema reforça o pensamento de Pearcy defendendo que “somente por meio de contato com os outros descobrimos quem somos e quais nossas forças e fraquezas. É somente na comunhão com os outros que crescemos e nos tornamos maduros”[4].
Hoekema afirma: “o casamento, sem dúvida, revela e ilustra mais plenamente do que outra instituição humana a polaridade e a interdependência da relação homem-mulher. Mas não o faz em sentido exclusivo. Pois o próprio Jesus, o homem ideal, nunca foi casado”[5].
O Catecismo Maior de Westminster, na vigésima pergunta, entende a ordenança do matrimônio como uma é uma das atitudes providenciais do homem quando foi criado e, hoje, é poderoso antídoto contra nossa inclinação para o pecado e a prostituição, assim como se constitui em poderosa escola que refina nosso comportamento. Contudo só redundará nos benefícios previstos se servir exclusivamente para a glória de nosso Senhor.
Portanto, se as vozes pessimistas decretam o fim do casamento e, consequentemente, o da família, essa falsa constatação só pode ser proveniente daqueles que utilizaram do matrimônio para sua glória pessoal e para fins egoístas.




[1] CALVINO, João. 1Coríntios. São Bernardo do Campo-SP: Parakletos, 2003, p.200.
[2] KISTEMAKER, Simon. Comentario al Nuevo Testamento: 1 Corintios. Kalamazoo: Libros Desafio, 1998, p.191.
[3] PEARCEY, Nancy. Verdade Absoluta: libertando o cristianismo de seu cativeiro cultural. São Paulo: CPAD, 2012, p. 149.
[4] HOEKEMA, Anthony. Criados à Imagem de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 1999, p.93,94.
[5] Ibid, p. 93.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Carnaval, dias que passam?


Carnaval, dias que passam?
Nestes dias de festa que se aproximam muitos se entregam aos prazeres dessa vida sem pensar nas alegrias eternas do céu. Ímpios e cristãos superficiais fazem da cultura mundana sua própria expressão de alegria, entretanto a Palavra nos adverte que podemos aproveitar todo o sabor da juventude, seguir os desejos do nosso coração e aquilo que atrai o nosso olhar, mas nos adverte: “de todas essas coisas Deus te pedirá conta” (Ec 11.9).
Seguir os desígnios do coração, certamente, não é coisa boa, pois ele é enganoso, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto (ou donte) (Jr 17.9). Deus não nos criou para sermos felizes aos moldes humanos, mas para servi-lo e, assim, adquirirmos a felicidade eterna que não está sujeita às pessoas e circunstâncias. Dean Ulrich, comentando o livro de Rute, afirma: “Deus não entra em relacionamento conosco para nos dar tudo o que queremos. Ele nos atrai para si para que possamos encontrar segurança, contentamento, paz e alegria nele” (p.38).
Dessa maneira, o apóstolo Paulo nos ensinou que a alegria cristã ela é contínua, porque está no Senhor (Fl 4.4). Quantas pessoas se iludem de que viver a vida é se embebedar-se ou entregar-se a uma vida sexual desregrada, porém as consequências desses atos impensados nessa vida são: a própria degradação da saúde, a estabilidade emocional e a morte, porque o o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6.23).
No livro O Contrabandista de Deus, no qual se relata como o Irmão André contrabandeava Bíblias pelos países comunistas, André, antes de sua conversão estava internado, depois de ser ferido na guerra. Até aquele momento vivera atormentado pelas coisas que vira nos campos de batalha e desafiara a morte infinitas vezes. No Hospital, recuperando-se para voltar à Holanda – sua terra natal – entregava-se ao álcool sempre que podia sair.
Um dia antes de ter alta, uma freira Francisca chamada de Irmã Patrícia, lhe contou como se caçavam macacos na floresta: os nativos sabem que um macaco jamais larga algo que deseja, mesmo que isso signifique perder a liberdade, por isso, pegam um coco, abrem um pequeno buraco grande o suficiente para passar tão somente a pata de um macaquinho e jogam uma pedrinha lá dentro. Quando o macaco pega o coco e percebe que há algo dentro dele, enfia a pata e pega a pedra sem soltá-la. A freira concluiu de maneira sábia: “aquele macaco nunca largará o que pensa ser uma coisa preciosa e a coisa mais fácil do mundo é apanhar alguém que age assim” (p.44).
Quantas pessoas que estão se preparando para o carnaval com bebidas, drogas e “preservativos”, estão agarradas a esses vícios como se fossem bens preciosos, todavia são emoções passageiras que terminam em acidentes, aumento no índice de DSTs (doenças sexualmente transmissíveis), mortes ou, no mínimo, em uma forte ressaca na quarta-feira. Conta-se que o bandeirante Fernão Dias Paes Leme morreu agarrado a pedras que julgava como esmeraldas, mas eram apenas turmalinas (pedra que se parece com a esmeralda, mas tem pouquíssimo valor). Os prazeres dessa vida parecem preciosos, porque são saborosos e aparentemente belos, todavia não podem se comparar com as riquezas que o Senhor tem par oferecer aqueles que o seguem. Assim como o bandeirante, por não ter sólido conhecimento de geologia se enganou, todos aqueles que não conhecem a Palavra podem se iludir e morrer agarrados a meras pedrinhas sem valor.
Há duas palavras na Bíblia para se referir a coroa: diadema (διδημα), a coroa do rei; e o stéfanos (Στφανος), a coroa que o atleta recebe ao chegar vitorioso. Jesus promete: Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa (stéfanos) da vida” (Ap 2.10). Paulo afirma: Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível” (1Cor 9.25). Um atleta faz tantas renúncias pessoais para atingir objetivos olímpicos e conseguir uma medalha, muito mais nós deveríamos nos esforçar em nossa vida renunciando o jugo dos vícios e prazeres desse mundo para perseguirmos aquela coroa eterna.
O stéfanos dos atletas na Antiguidade era uma coroa feita de folhas de oliveiras, por isso depois de alguns dias estava murcha e sem vida. Talvez isso causasse frustração ao esportista que se esforçou de forma intensa por palmas que se dissiparam e uma coroa que será jogada fora, por isso Pedro fala da imarcescível (que não murcha) coroa da glória (1Pd 5.4). Da mesma maneira, muitos podem nos final da vida olhar para as conquistas, a luxúria, as bebedices, as comilanças, os títulos pendurados na parede e os trabalhos empreendidos e reconhecer como Salomão: “tudo é vaidade e correr atrás do vento” (Ec 1.17b).
Screwtape, um diabo que tenta ensinar seu sobrinho – Wormwood – a arte de tentar, da obra Cartas do Inferno de C.S. Lewis, explica que o inferno não pode criar o prazer, mas tentar o homem a tomar o prazer criado por Deus e usa-lo em formas ou intensidades que Ele proíbe. Nesses dias muitos estão dando uma direção pecaminosa a ímpetos de seus corações, porém esses lampejos fugazes dos desejos pecaminosos do homem só o afastam de Deus (Is 59.2) e levam a um vazio terrível e desolador, porque não há quem esteja longe de Jesus e encontre prazer, pois na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente (Sl 16.11b).



sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Os dois lados de uma arma


Os dois lados de uma arma
Uma frase latina atribuída ao franciscano Guilherme de Ockham (1285-1349) diz: “defende me gládio, defendam te calamo”, ou seja, defende-me com a espada e eu te defenderei com a pena (objeto para escrever: caneta ou lápis). Segundo Reale et al[1], essa frase foi dita quando Guilherme fugiu do convento de Avignon, onde era acusado de heresia, para se refugiar junto do Imperador Ludovico o Bávaro em Pisa. Esse religioso entendia que o poder das palavras era maior que o poder das armas.
No último dia 7, dois homens entraram no jornal satírico francês Charlie Hebdo fortemente armados, com treinamento militar e deixaram 12 mortos e 11 feridos. Esse fato gerou uma comoção em todo o ocidente e diversos chefes de Estado manifestaram condolências e repúdio a esse ato de terror, inclusive a presidente Dilma, apesar de outrora defender que o diálogo da ONU com terroristas fosse melhor que uma postura mais dura contra o Estado Islâmico (grupo terrorista que controla parte da Síria) que degolam turistas[2].
Com certeza, nesses dias conturbados que iniciaram o ano de 2015, em que os extremistas islâmicos não esperaram até o fim de janeiro para apresentar seus desejos de morte, esse pensamento de Ockham se faz muito pertinente, porque o estopim das guerras não está no disparo das armas, mas nas ideias que as engatilharam. É uma terrível ingenuidade acreditar que apenas uma das extremidades da arma pensa, ambos absorvem influências e as transformam em pensamentos e ideologias.
Cazuza (1958-1990) clamava: “ideologia, eu quero uma pra viver”. Segundo Japiassú et al[3], esse conceito, cunhado pelos filósofos franceses do sec. XVIII que estudavam a origem da ideias, evoluiu até significar em nossos dias “um conjunto de ideias, princípios, valores que refletem uma determinada visão de mundo, orientando uma forma de ação, sobretudo uma prática política”[4].
É impossível viver alheio a um conjunto de ideias, princípios e valores que norteiam a nossa maneira de interpretar o mundo ao nosso redor. Dessa maneira, ao analisarmos o ato terrorista na França precisamos entender as ideologias que motivaram os dois lados da arma. Os terroristas mulçumanos partem do pressuposto de que o Alcorão é “o eterno milagre, o último livro de Deus enviado para a orientação da humanidade”[5].
O Alcorão tem a sua origem no próprio Allah (Alcorão, Na Nissá, 4.82), que é a testemunha mais fidedigna (Alcorão, Al An'Am, 6.19) e é, por meio desse livro esclarecedor, que seus adeptos são perdoados e encontram o caminho reto para a salvação e luz que precisam (Alcorão, Al Máida, 5.15,16).
Aqueles que não acreditam no conteúdo do Alcorão serão castigados, enquanto os crentes (no Alcorão) terão recompensa infalível (Alcorão, Al Inxicac, 84.20-25), por isso, o Livro sagrado dos mulçumanos prevê que “o castigo, para aqueles que lutam contra Allah e contra Seu Mensageiro, e semeiam a corrupção na terra, é que sejam mortos, ou crucificados, ou lhes seja decepada a mão e pé de lados opostos, ou banidos. Tal será, para eles, uma desonra neste mundo e, no Outro sofrerão severo castigo” (Alcorão, Al Máida, 5.33).
Segundo o Instituto Brasileiro de Estudos Islâmicos, a palavra Islam significa submissão, todavia na sua origem etimológica significa paz. Dessa maneira, o islamismo pode ser definido como uma submissão sem reservas a vontade de Allah[6]. Entretanto extremistas não partilham dessa paz e propagam o terror. Segundo Teles[7] e Souza[8] o “fundamentalismo”[9] islâmico tem sua origem na ação norte americana de patrocinar, armar e treinar afegãos como Bin Laden para lutarem contra os invasores soviéticos, pois era melhor tê-los no poder e seus países do que legar as fontes de petróleo do mundo ao poder comunista em plena Guerra-Fria.
Ainda usando Ockham, porém de forma parafraseada[10], os princípios religiosos podem funcionar alheios a razão, porque o estudo teológico de uma religião ou seita pode deixar de ser uma ciência e passar a ser “um complexo de proposições mantidas em vinculação não pela coerência racional, mas sim pela força de coesão da fé”[11].
Segundo o Sheikh Muhammed Salih Al-Munajjid, jihad significa esforço e gasto de energia pessoal, ou seja, o mulçumano deve se esforçar “para fazer a palavra de Allah suprema e para estabelecer a sua religião (o islam) na Terra”[12]. Contudo o Islã não defende que se deve matar o não mulçumano, mas buscar atraí-lo para a única religião aceitável para Allah. De fato, o Alcorão afirma: “combatei até terminara intriga, e prevalecer totalmente a religião de Allah. Porém se se retratarem, saibam que Allah bem vê tudo quanto fazem” (Al Anfal, 8.39).
O Sheikh Muhammed Salih Al-Munajjid “Jihad contra os kaafirs (não muçulmanos) e hipócritas são de quatro tipos: com o coração, com a língua, com os bens e com si mesmo (combate físico). Jihad contra os kaafirs é ao longo das linhas de luta física enquanto a jihad contra os hipócritas é mais ao longo das linhas de se usar palavras e idéias”[13]. Entretanto os tementes, a quem é prometido um céu de repouso, bebidas, frutas e mulheres castas (Alcorão, Sad, 38.49-52), aqueles que foram mortos ou morreram pela causa de Allah “serão infinitamente agraciados por Ele, porque Allah é o melhor dos agraciadores” (Alcorão, Al Hajj, 22.58).
Se a postura pacífica do islamismo pode ficar reservada nas mesquitas e nos centros de aprendizado, a teologia fanática e não fundamentalista é a que seduz jovens carentes de objetivos sólidos. Aos poucos a teologia liberal se desenvolveu a tal ponto de fazer com que as pessoas desacreditassem na Palavra, vê-la como um mito fútil terrivelmente e suplantada pela ciência. Segundo Machen[14], o teólogo liberal passou a negociar com a razão científica o direito de continuar existindo, todavia em uma postura desacreditada e vã.
A mesma França que viu Calvino e a Europa que ouviu as teses de Lutero vê o cristianismo diminuir cedendo lugar para o Islamismo. Em 2008, a igreja Católica anunciou oficialmente que o número de mulçumanos havia ultrapassado o número de católicos na Europa[15], haja vista, que em 1990 o número de mulçumanos era de 568.000 e em 2010 era de 3,5 milhões[16]. Essa realidade não diferente na América, pois, nos Estados Unidos, o número de mulçumanos duplicará nas próximas décadas de 2,6 para 6,2 milhões[17].
A Europa que ridicularizou a Bíblia vê o Alcorão doutrinar sua juventude. A população que foi educada a entender que não existem padrões absolutos, agora ouve a Mesquita ditar as normas de conduta. Enquanto igrejas viraram museus, mesquitas foram erigidas.
Com certeza não se pode de maneira alguma ligar o Islã esses atentados, pois existem pessoas pacíficas e honradas nas diversas mesquitas do mundo, mas assim como a Inquisição ou os profetas Zwickau deturparam a fiel pregação, fanáticos podem distorcer o ensinamento oficial do Alcorão. Esses terroristas estão com a arma apontada não para uma pessoa, mas para uma ideia e esta arma está carregada.
Segundo Anne Sinclair, a revista Charlie Hebdo começa a ter atritos com o mundo islâmico desde que, em 2002, decidiram publicar um artigo do livro de Oriana Fallaci, no qual tecia críticas ao islamismo, assim como, em 2006, publicou caricaturas de Maomé publicadas pelo jornal dinamarquês Jyllands Posten, o que levou a um atentado em 2011[18].
Essa revista é adepta de um humor ácido a serviço de todo o arcabouço ideológico de nossos dias e, por isso, satiriza a política e tem um gosto por fazer piadas de decência questionável da religião católica, do próprio cristianismo e do islamismo. Aristóteles, na Poética, entende que é natural ao homem imitar desde a infância, assim como as artes da mesma maneira imitam. Homens nobres imitam ações nobres, todavia pessoas de má índole imitam aquilo que é baixo, por isso, sendo a comédia a imitação de pessoas inferiores, ou seja, daquilo que é cômico e grotesco e a tragédia a imitação de ações nobres, os poetas tendiam a esta ou aquela segundo suas inclinações naturais.
O tutor de Alexandre entendia que a comédia tendia a incentivar sentimentos baixos que não viriam edificar o indivíduo. A comédia e a caricatura possuem um limite complexo na comunicação, porque ele não estabelece uma discussão, mas expõe um pensamento que pede o riso como aprovação e entendimento. Portanto, se rir ao ver uma charge ou assistir uma comédia implica que há entendimento e concordância, todavia o contrário demonstra que não houve entendimento e se subentende que, por isso, não houve concordância.
Essa atividade não é nova, já na Antiguidade o dramaturgo grego Aristófanes (447-385 a.C.) transformou o respeitado Sócrates (469-399 a.C.), o modelo de mestre para Platão, em um charlatão que corrompia a juventude. Esse comediante grego só reproduziu em suas páginas o pensamento dos sábios de sua época que se incomodavam com a maneira como Sócrates os contatava ignorantes pela ironia[19]. Na literatura trovadoresca, as cantigas de escárnio e maldizer cumpriam o mesmo papel que programas como Pânico e o canal Porta dos Fundos tentam empreender. O direito a liberdade de expressão é muito caro a nossa cultura não pode nos levar a uma libertinagem que exclua qualquer possibilidade de agir com bom senso.
Não estamos defendendo ou endossando nenhum ato terrorista, mas precisamos entender que nos dois lados da arma existem pessoas que avançaram limites por questões ideológicas. Assim como fanáticos islâmicos entraram no Charlie Hebdo com AK-47, outrora e de maneira insistente com lápis em punho satirizaram a religião alheia.
Quem unirá os dois lados dessa para que os futuros encontros não sejam mortais novamente? Paul David Tripp[20], comentando Jo 17.20-23, afirma que Jesus veio ampliar nosso padrão de união. O Mateus, publicano (corrupto que servia aos desígnios de Roma) e Simão, zelote (adepto da ação armada contra Roma) só podem estar no mesmo grupo, porque o modelo de unidade é aquele vivenciado desde pela Trindade. Ninguém pode viver sem um conjunto de ideias pelas quais abordará o seu mundo, portanto, apenas as ideias provenientes da Palavra podem trazer verdadeira união entre o Ocidente e Oriente.




[1] REALE, G; ANTISERI, D. História da Filosofia. Vol. I. São Paulo: Paulus, 1990, p.614.
[2] http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/politica-cia/no-mundo-encantado-de-dilma-e-possivel-negociar-com-terroristas-assassinos-e-hediondos/. Acessado no dia 10 de janeiro de 2015 às 05h10.
[3] JAPIASSÚ, H; MARCONDES, D. Dicionário Básico de Filosofia. 3.ed. Rio de Janeiro:Jorge Zahar Editor, 1996, p.136.
[4] Ibidem, p.136.
[5] http://www.brasileirosmuculmanos.net/brasileiro/viewpage.php?page_id=4. Acessado no dia 9 de janeiro de 2014 às 18h 59.
[6] http://www.ibeipr.com.br/perguntas_ver.php?id_pergunta=7. Acessado no dia 9 de janeiro de 2015 às 18h40.
[7] http://www.ibeipr.com.br/artigos.php?id_artigo=240. Acessado no dia 9 de janeiro de 2015 às 16h55.
[8] http://www.historiadomundo.com.br/arabe/o-fundamentalismo-islamico.htm. Acessado no dia 9 de janeiro de 2015.
[9] Acredito que essa palavra é mal empregado e usada de forma pejorativa, todavia não existe pensamento religiosos sem fundamentos/princípios claros.
[10] Ockham defendia que a teologia não é uma ciência e, por isso, não exercia soberania sobre a teologia, todavia estmos usando sua teoria como uma possibilidade e não como um fato, porque entendemos que uma teologia bem orientada desenvolve-se em uma ambiente científico, porque possui um objeto de pesquisa e desenvolve métodos para aferi-lo.
[11] REALE, G; ANTISERI, D. História da Filosofia. Vol. I. São Paulo: Paulus, 1990, p.615.
[12] http://www.brasileirosmuculmanos.net/brasileiro/o-que-%C3%A9-jihad--a197.htm. Acessado no dia 10 de janeiro de 2015 às 01h19.
[13] http://www.brasileirosmuculmanos.net/brasileiro/o-que-%C3%A9-jihad--a197.htm. Acessado no dia 10 de janeiro de 2015 às 01h48.
[14] MACHEN, J.G. Cristianismo e Liberalismo. São Paulo: Puritanos, 2001, p.18,19.
[15]http://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/850766-numero-de-muculmanos-ultrapassa-o-de-catolicos-saiba-mais-sobre-a-religiao.shtml. Acessado no dia 10 de janeiro de 2015 às 02h38.
[16] http://veja.abril.com.br/multimidia/infograficos/imigrantes-e-muculmanos-na-europa-de-1990-a-2010. Acessado no dia 10 de janeiro de 2015 às 02h50.
[17]http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1767877. Acessado no dia 10 de janeiro de 2015 às 02h49.
[18]http://www.conexaoparis.com.br/2015/01/08/por-que-cibla-do-atentado-foi-charlie-hebdo/. Acessado no dia 10 de janeiro de 2015 às 03h24.
[19] A ironia socrática era um conjunto de perguntas que visavam deixar o interlocutor sem respostas e se reconhecer ignorante. Nessa circunstância, Sócrates iniciava o processo de maiêutica no qual ajudava a pessoa a conceber um novo conhecimento.
[20] TRIPP, Paul D. Instrumentos nas Mãos do Redentor. São Paulo: NUTRA, 2009, p. 145,146.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Paz, paz, mas há paz?


Paz, paz, mas há paz?
Um fato de 2014 que certamente entrará nos livros de história é o fim do embarco econômico entre EUA e Cuba que começou em 1961 com o então presidente Dwight D. Eisenhower, pois o movimento que derrubou o ditador Fugêncio Batista, em 1959, adotou posturas comunistas e começou a se alinhar com a União Soviética em plena Guerra Fria.
A discussão entre EUA e Cuba corria travada, pois aqueles exigiam, destes, democratização, direitos humanos e mudança do regime político para encerrar as restrições[1], todavia estes impunham o fim do embargo como condição para qualquer discussão diplomática.
Contudo a comunidade internacional havia indicado o fim das restrições diplomáticas com Cuba na última Assembleia Geral da ONU quando dos 193 países que participaram 188 votaram a favor dessa medida[2]. Outro motivo para o fim do embargo está na fala do próprio Obama: “deve se preocupar com ameaças reais, como os grupos extremistas Al Qaeda e Estado Islâmico[3]. Desde o atentado de 11 de setembro as preocupações Norte-Americanas se desviaram da pequena ilha de Fidel regido pela cartilha de “Marx” para se concentrar no vasto e complexo Oriente Médio que segue piamente o Alcorão.
Esse acordo, que ainda depende do Senado americano, teve boa aceitação na Comunidade internacional e deu um rosto positivo a desgastada política de Obama, todavia existem pessoas que condenam o acordo, porque Cuba não se democratizou, tampouco apurou seus crimes, todavia os EUA, também acusados de abusos em Guantánamo, entendem quem usa da violência extrema para uma suposta justiça. Obama afirmou: vamos tentar deixar para trás esse passado. Nosso futuro é de paz e segurança. Vamos trabalhar não para manter o poder, mas para avançar nos sonhos dos cidadãos[4].
Esse é o nítido exemplo da paz que o mundo busca e valoriza, porque não impõem mudança alguma e se une nas conveniências mais baixas, ou seja, o simples fato de parecer algo que realmente não é, pois ninguém é ingênuo ao ponto de acreditar que EUA ou Cuba reviram seus erros do passado e assumiram novos posicionamentos para o futuro. Em um nível menor, vemos inúmeras pessoas almejando a mesma paz mágica e superficial que vemos nesse cenário político. Uma paz sentimentalóide que se conquista por aquilo que se veste a aquilo que se come e acaba com o pular da última onda e se apaga como último fogo de artifício.
Jamais entenderemos a paz se não analisarmos quando ela foi extinta do coração humano. No Éden, o homem gozava de plena paz com Deus, com o ambiente ao seu redor e consigo mesmo. Segundo Schaeffer, “minha separação de Deus é sanada pela justificação, porém logo em seguida deve haver uma realidade existencial”[5], ou seja, o processo de santificação deve levar o ser humano a uma postura diferente com seus problemas existenciais, assim como, adotar a postura de mordomo para com a criação que o circunda.
No coração do homem pós-queda, há uma guerra que é fonte e origem de todas, tal como Tiago afirma: de onde procedem guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres (hedonéἡδονή) que militam na vossa[6] carne? (Tg 4.1). Lopes, comentando Tiago 4.1, afirma que somos tentados a culpar as circunstâncias como motivadores dos conflitos, todavia Tiago, tal como Paulo em 1Cor 3.1-4, que a origem deles está na natureza caída dos homens. Dessa maneira, ainda que o cristão esteja regenerado pela Palavra de Deus ainda em seu coração habita a semente de Adão, ou seja, os prazeres que militam na carne[7].
Nesse texto percebemos que a origem da falta de paz está no termo grego hedonéἡδονή, que, segundo Coenen et al[8], significa prazeres, aquilo que é agradável, doce ao paladar. Pau David Tripp opta traduzir ἡδονή por desejo e afirma: “o coração de toda e qualquer pessoa é uma fonte de desejos que competem entre si”[9]. Nesse conflito há o desejo de fazer a vontade de Deus ou a vontade o mundo, o desejo mais forte fatalmente controlará meu comportamento.
Está sobre nós a mesma máxima que pairava sobre Caim: “eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (Gn 4.7b). Dessa maneira, a paz que almejamos só pode ser conquistada se declararmos guerra contra aqueles desejos que não coadunam com a Palavra.
No Peregrino de John Bunyan, Cristão diz a Ignorância:
Quando conseguimos julgar nossa vida da mesma forma que a Palavra a julga. Veja bem, que a Palavra, falando do homem natural, afirma que não há um justo, nem um sequer. Também diz que toda a imaginação do homem é má continuamente. Pois bem, quando em nós mesmos do jeito que realmente somos, então nossos pensamentos são bons porque concordam com a Palavra de Deus[10].
Quando os parâmetros pelos quais analisamos nossa alma estão distorcidos os resultados não serão confiáveis. O que se diria se um cego de nascença analisa-se uma paisagem ou um surde de nascença sobre a melodia de uma canção. Ludwing Von Beethoven (1770-1827), apesar de surdo foi um gênio da música, porém ele não nasceu surdo (a perdeu entre os 20 ao 50 anos) e, por isso, possuía memória auditiva (parâmetros que o ajudaram a compor)[11].
Se olharmos para as nossas vida a partir daquilo que o mundo valoriza certamente nos veremos como justos e merecedores da eternidade, todavia isso penas mostra duas realidades: que houve um afastamento de Deus e que não sé verdadeiro temor (Pv 3.7). Kistemaker, alisando Tiago 4.1, entende que “quando Deus não governa a vida do homem, a busca do prazer controla a situação e a paz fica perturbada por causa de brigas e contendas”[12]. Dessa maneira, qualquer tentativa de paz que não venha da genuína conversão e de uma guerra contra os desejos pecaminosos de nosso coração é apenas superficial e nociva.
Existem igrejas que pregam essa paz paliativa. Induzem as pessoas a confiarem em supostos méritos e oferecem um consolo falso, porque não parte da graça, mas de uma autoajuda que só traz benefícios para essa vida. Esses falsos profetas procedem como afirma Jeremias (6.14): “Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz”.
Neville Chamberlain (1869-1940) foi o primeiro ministro inglês de 28 de maio de 1937 a 10 de maio de 1940. Ele foi quem intercedeu junto a Hitler uma forma de evitar as hostilidades que levariam o mundo a uma 2ª Guerra mundial. O chamado pacto de Munique de 29 de setembro de 1938 foi assinado pelo Reino Unido (tendo como representante Neville Chamberlain), França (tendo como representante o primeiro ministro Édouard Daladier), Alemanha (tendo como representante Adolf Hitler) e Itália (tendo como representante Benito Mussolini)[13]. Chamberlain desembarcou no aeroporto de Heston trazendo o documento do pacto dizendo: “Acredito que ele é a paz em nosso tempo”, todavia Winston Churchill (1874-1965) afirmara: “entre a desonra e a guerra, escolheste a desonra e terás a guerra”. De fato esse pacto só serviu para dar tempo a Hitler manejar suas tropas com liberdade e invadir a Polônia no dia 10 de março de 1939, invalidando o que firmara.
A paz que os homens esperam é sempre fugaz e depende dos desejos pecaminosos do coração. Confiar na paz que o mundo oferece é necessariamente confiar no homem e quem age assim faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR! (Jr 17.5b). Todavia Paulo afirma que Jesus é a nossa paz (Ef 2.14), por isso, afirma Calvino: “se Cristo é a nossa paz, segue-se que todos que se acham fora dele permanecem em estado de inimizade com Deus”[14]. A paz proposta por Jesus não é a ausência de guerras, perseguições e adversidades, mas “justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus (Rm 5.1).
Que adiantaria uma vida abastada e sem sofrimentos se, depois da morte, nos estivesse reservada a ira eterna? Asafe, no Salmo 73, descreve os ímpios da seguinte maneira: a.) Saúde: “para eles não há preocupações, o seu corpo é sadio e nédio” (v.4); b.) Trabalho: “não partilham das canseiras dos mortais, nem são afligidos como os outros homens”. (v.5); c.) Vida Financeira: “eis que são estes os ímpios; e, sempre tranqüilos, aumentam suas riquezas”. (v.12), mas no santuário o Salmista atenta para o fim dos ímpios e entende: “Tu certamente os pões em lugares escorregadios e os fazes cair na destruição” (Sl 73.18). Compreende que todas essas facilidades adulam e fazem mais fortes seus desejos pecaminosos.
Os ímpios, que confiam em seu poder, estão aliceçados sobre o mesmo terreno escorregadio de Nabucodonosor, que, depois de se exaltar dizendo: “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a casa real, com o meu grandioso poder e para glória da minha majestade?” (Dn 4.30), teve sua sanidade usurpada pelo céu convivendo com os animais do campo (Dn 4.31-33) até que ele olha para o céu e louva o Altíssimo (Dn 4.35). Só pode exaltar a Deus quem reconhece a sua miséria, assim como só se reconhece miserável aquele que engrandece a Deus. Quem assim procede a Palavra promete: “humilhai-vos na presença do Senhor, e ele vos exaltará” (Tg 4.10).
Jesus antes de subir aos céus nos advertiu: deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize(Jo 14.27). A paz de Jesus não é feita por um acordo de conveniência como entre EUA e Cuba, tampouco uma ilusão como aquele que Chamberlain portava no aeroporto de Heaston que traz esperanças infundadas, mas essa é a paz que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus (Fl 4.7).
Portanto, a paz que Jesus tem para seu povo em 2015 e até a sua volta não a ausência de problemas, a prosperidade insana ou uma ilusão, mas uma paz que faz sentir a presença de Deus, mesmo nos mais terríveis momentos, confiando que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28). Essa paz não depende do seu vestuário, muito menos do cardápio da ceia, mas da soberania do Senhor que a dá por meio de Jesus e que durará muito além da meia noite.
Feliz 2015!




[1] HELLER, Claude. Análise: acordo com Cuba melhora a posição dos EUA na América Latina. http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/12/1568590-analise-acordo-com-cuba-melhora-posicao-dos-eua-na-america-latina.shtml.
[2] http://epocanegocios.globo.com/Informacao/Acao/noticia/2014/12/entenda-como-comecou-o-embargo-economico-dos-eua-cuba.html.
[3] http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2014/12/17/esses-50-anos-mostraram-que-isolamento-nao-funcionou-diz-obama-sobre-cuba.htm.
[4] http://epocanegocios.globo.com/Informacao/Acao/noticia/2014/12/entenda-como-comecou-o-embargo-economico-dos-eua-cuba.html.
[5] SCHAEFFER, Francis. Poluição e Morte do Homem. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p.74.
[6] Segundo Lopes, esse vós se refere aos candidatos a mestre (pessoas que instruíam continuamente a igreja na Palavra e que possuía uma posição de liderança e autoridade) de Tiago 3.1 por causa da rivalidade que existia entre eles, o que não era uma característica da igreja de Tiago (veja Mc 9.34; Mt 23.8,9, Jo 13.13,14, 3Jo 9), todavia esses princípios podem ser aplicados a igreja em geral. (LOPES, Augustus Nicodemus. Interpretando o Novo Testamento: Tiago. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, 95,96, 120)
[7] LOPES, Augustus Nicodemus. Interpretando o Novo Testamento: Tiago. São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p.120,121.
[8] COENEN, Lothar; BROWN, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2000, p.526.
[9] TRIPP, Paul David. Instrumentos nas Mãos do Redentor. São Paulo: NUTRA, 2009, p.116.
[10] BUNYAN, John. O Peregrino. Rio Verde-GO: Publicadora Menonita, 2009, p.165.
[11] http://revistagalileu.globo.com/Galileu/0,6993,ECT611093-1716-5,00.html.
[12] KISTEMAKER, S. Comentario Del Nuevo Testamento: Santiago y 1-3 Juan. Grand Rapids: Desafío, 2007, p.113.
[13] http://segundaguerra.net/o-pacto-de-munique-anexacao-do-territorio-dos-sudetas/.
[14] CALVINO, João. Efésios. São José dos Campos-SP: Fiel, 2007, p.55.

domingo, 28 de dezembro de 2014

RESUMO DA BIOGRAFIA DO REVERENDO JOSÉ MANOEL DA CONCEIÇÃO

RESUMO DA BIOGRAFIA DO REVERENDO JOSÉ MANOEL DA CONCEIÇÃO

Introdução
Essa é uma obra assinada pelo Reverendo Boanerges Ribeiro e não pode ser ignorada pelas poucas páginas, pois concentra uma visão arguta da vida de um dos grandes pastores de nossa denominação. Também não é uma produção hagiográfica marcada pelo lendarismo, mas um texto histórico marcado pela fidelidade aos fatos devidamente relatados em suas fontes.
Esse texto, além dos subsídios históricos que incrementam nosso conhecimento e compreensão de como se deu, no princípio, o desenvolvimento da Igreja Presbiteriana do Brasil, também é um material que deve fomentar o evangelismo centrado na Palavra.

RIBEIRO, B. José Manoel da Conceição e a Reforma Evangélica. São Paulo: O Semeador, 1995.

José Manoel da Conceição (JMC) nasceu na cidade de São Paulo em 11 de março de 1822, filho de Manuel da Costa Santos, português, canteiro e Cândida Flora de Oliveira Mascarenhas, carioca, neta de açorianos. Foi batizado na Sé em São Paulo em 24 de março de 1822, sendo seu padrinho seu tio-avô, Padre José Francisco de Mendonça.
Parece ao Rev. Boanerges Ribeiro, biógrafo de JMC, que Cândida Flora tenha morrido quando o seu filho era pequeno, por isso, o pai o deixou o o Padre Mendonça de quem José Manoel diz: “O padre José Francisco de Mendonça, irmão de meu avô, Manuel Francisco de Mendonça, criou-me e educou-me”. Dessa maneira o padrinho exerceu grande influência sobre eu afilhado.
Padre Mendonça consciencioso quando aos dogmas da igreja, enérgico em suas obrigações e instruído, pois era dono de uma bela caligrafia, tal como foi requisitado por seus superiores para fazer um estudo geográfico e toponímico da cidade de Sorocaba onde exercia o sacerdócio.
José Manoel estudou as primeiras letras e Sorocaba, no Catecismo de Montpellier profundamente marcado pelo Jansenismo. Depois do ensino infantil começou a aprender latim com o Padre José Gonçalves, que lhe colocou à mão autores como César, Ovídio, Horácio e Virgílio. Começou a ler a Bíblia aos 18 anos e é influenciado por Carlos Leão Bailot, pintor francês que conhecia a Bíblia e decorava a Matriz de Sorocaba.
Segundo Boanerges (1995, p. 18), em uma época que não havia seminário, no Brasil, um candidato ao sacerdócio entre1840 e 1842 os cursos preparatórios, antes do Governo nomear professores, eram oferecidos na Sé ou na casa dos professores. Depois da nomeação passaram a ser oferecidos anexo a Academia Jurídica, na qual José Manoel, talvez tenha conhecido o professor de história protestante Julio Frank.
No Largo de São Francisco, foi aluno do professor Francisco de Paulo Oliveira que mesclava Kant e Antônio Genuvesi, também de Idelfonso Xavier Ferreira, que as 20 anos deu viva a Dom Pedro I como imperador do Brasil.
No dia 30 de abril de 1842, José Manoel foi aprovados nos exames episcopais e foi tonsurado e ordenado sub-diácono. Nessa época, Padre Mendonça, com 67 anos, foi convocado com seu afilhado a depor em um inquérito policial contra Diogo Antônio Feijó, mas em nada o prejudicaram. Tio e sobrinho também estiveram envolvidos como signatários de uma ata que registrava uma rebelião em 1942, encabeçada por Rafael Tobias de Aguiar, contra o imperador. Essa atitude não trouxe grandes conseqüências ao Padre Mendonça, mas a ordenação de Conceição passou a ser adiada.
Passou a atender, como sub-diácono, Ipanema, perto de Sorocaba, onde funcionava uma fábrica de ferro e onde haviam escravos e 27 famílias alemães evangélicas. Residia nessa localidade o médico dinamarquês Langaard com quem permutou aulas de alemão e tomou contato com a literatura protestante. Outro fato importante era que, aos domingos, procurava se confraternizar com os protestantes.
Por ocasião do seu segundo casamento, Dom Pedro I, em 1944, deu anistia irrestrita aos rebeldes de 1842 e, por isso, José Manuel foi ordenado diácono no dia 29 de setembro de 1844 quando contava com 23 anos. Chegou mesmo a celebrar batismos em Sorocaba.
Em 29 de junho de 1845 tornou-se Presbítero (Padre) da igreja Romana e foi enviado para Limeira, que, provavelmente, Segundo Boanerges (1995, p. 25), a Matriz era feita de pau a pique. Nessa cidade Nicolau Vergueiro havia colocado açorianos para trabalhar em sua fazenda.
O jovem Padre queria uma Reforma da igreja e os seus fiéis ficavam maravilhados com sua dedicação em atender chamados nas vilas, mesmo quando não recebia as devidas espórtulas. Suas ideias o obrigaram a ser transferido muitas vezes passando por Constituição (Piracicaba), Água Choca (Monte Mor), Ubatuba, Taubaté e Brotas. Tirou licença em 1852 por conta da morte do Tio (5 de setembro de 1852).
Em 1855, seu pai morreu deixando Gertrudes (Tudica), sua esposa, e quatro filhos desassistidos que foram morar com Conceição que também acolheu a viúva (Mana Antônia) e os filhos do mais velhos dos meio-irmãos, Mateus.
Deixou suas funções como sacerdote para ser vigário da vara e passou a residir em um sítio em Corumbataí. Com o falecimento de D. Antônio Joaquim de Melo que em seu episcopado construíra o Seminário Diocesano e abolindo o Catecismo Jansenista pelo tridentino, assim como disciplinou diversos reformistas de Conceição cada vez mais distantes e ele frustrado e, como afirma Boanerges (1995, p.30) perdido em um labirinto sem saída visível.
Assume a Diocese D. Sebastião Pinto do Rego, um bispo mais maleável, todavia José Manuel em 1863 pede afastamento da paróquia de Brotas indo se retirar em Corumbataí, isolado em sua inconformidade realizando algumas funções sacerdotais como casamentos (o último foi em junho de 1864). Nesse momento o Rev. Blackford houve falar de um Padre Protestante e vai visitá-lo. Conceição ao relatar essa visita diz que o pastor lhe apareceu como um mensageiro de Deus.
Blackford começam a conversar a própria dona Elizabeth (Lillie) convidou-o, embaraçosamente, a tomar a fé reformada. Conceição começa a sair de seu labirinto e, no dia 20 de setembro de 1864, em audiência com D. Sebastião, entrega o cargo de vigário da vara e expõe suas razões para abandonar o Catolicismo.
No dia 9 de outubro de 1964, no salão de cultos do Rio, prega, antes mesmo de ser recebido como membro. No dia 23, Blackford o batiza e o ex-padre e, agora, protestante faz sua pública profissão fé. Um problema de JMC está em como ganhar a vida nisso encontrou grande apoio dos irmãos
Como membro da igreja presbiteriana ajuda em traduções para o jornal Imprensa. Leva Chamberlain para pregar em Brotas e percebe que, pelo Protestantismo, poderia empreender uma Reforma em seu país. Blackford também assumiu essa trajetória que Conceição conhecia muito bem. O ex-padre levou os pastores para pregar entre as pessoas para quem ele fora Padre.
Contudo essa Reforma em terras tupiniquins seria perseguida por pessoas que contavam com o poder público e indivíduos capazes de atos violentos. Também o populacho tinha o costume de impor o nome dos líderes protestantes a cachorrada da roça. Porém isso não esmoreceu o ilustre neófito.
Em 16 de dezembro 1865, com igrejas no Rio, São Paulo e Brotas, formou-se o Presbitério do Rio de Janeiro e, no dia 17, sob a imposição das mãos dos Reverendos Simonton, Blackford e Schneider, Conceição foi ordenado o primeiro ministro presbiteriano nascido nessas terras de Santa Cruz e recebeu a destra dos irmãos pastores para tomar parte reja com eles no pastoreio da Igreja que nascia e se desenvolvia pela graça de Deus.
No dia 28 de fevereiro, desapareceu por cinco dias sem aviso pregando o evangelho cruzando à pé do Rio a São Paulo. Aos 16 de dezembro de 1866 saiu a sentença de excomunhão e exautorização de José Manoel e nessa momento, devido ao grande esforço pela causa do evangelho a saúde de Conceição começa a ficar frágil, porém encontra forças para responder acusações públicas pelo Correio Paulistano em 23 de abril de 1867.
Simonton e Blackford, para retirar o irmão José Manoel do cento desse momento turbulento e para prover-lhe o devido tratamento de saúde, enviam-no para Nova York no dia 3 de agosto de 1867, onde foi convidado para pastorear, todavia preferiu retornar ao Brasil, mesmo que em nossa nação fosse alvo de maldosos ataques e a tentativa de arrebanhá-lo novamente para Roma pelo seu amigo Frei Joaquim do Monte Carmelo.
Na estada de Conceição em solo norte-americano, Simonton morre em 8 de dezembro de 1867. Voltou em 20 de julho de 1868 a contragosto de Blackford e Schneider que preferiam que ficasse mais tempo nos Estados Unidos. Após a reunião do Presbitério do dia 11 de agosto de 1868 embrenha-se no seu caminho favorito, o caminho do sul a fim de pregar o evangelho.
Boanerger (1995, p. 87) afirma que, a última reunião de Presbitério de Conceição (12-8-1869) seu relatório caiu como água em areia seca, pois já havia preparado campos ao longo da estrada do sul. Os colegas norte-americanos preferiam que se dedicasse a atividades mais compatíveis com sua saúde. Ficava dias incapacitado, mas assim que melhorava voltava às viagem agressivas a sua saúde.
O tempo de José Manoel da Conceição ficou quatro anos e meio no ministério marcado por grandes peregrinações. Boanerges (1995, p. 95) afirma: “nesses quatro anos e meio sua pregação da reforma evangélica continuou a ser feita e repetida de São Paulo a Sorocaba, Itapetininga, Faxina; talvez até Castro no Paraná [...] de Campinas a Limeira, Santa Bárbara, Rio Claro, até Brotas e Jaú; no Vale do Paraíba de São Paulo a Piraí; no Litoral Norte de São Paulo de São Paulo; na estrada de Atibaia, Itatiba, até Bragança, até Borda da Mata e Pouso Alegre; nas Serras de Piracicaba, Nazaré Paulista; na corte, seus arrebaldes e vilas suburbanas a caminho de São Paulo”. Era homem frugal e que sempre pagava seu pouso como um favor doméstico como varrer um quintal ou algo parecido.
Sobre a vida desse bandeirante da fé, Boanerges (1995, p. 95) constata: “há muitas décadas em quatro anos e meio, e há muitas histórias nessa estrada de tantos caminhos”.
Apesar de Blackford ter lhe alugado casa em Santa Tereza no Rio, em 1873, só e à pé pôs-se a peregrinar e embarcou em Piraí. À noite, muito cansado e maltrapilho, pedindo pouso em uma casa na estrada foi preso por um policial e libertado depois de três dias. No posto policial, gastou todo o seu dinheiro reservado para a passagem de trem com alimentos.
Muito enfraquecido na viagem à pé caiu gravemente enfermo e foi internado na Enfermaria Militar do Campinho. Apesar de doente, descalço e maltrapilho tinha boa expressão no rosto e impunha respeito. Depois dos cuidados hospitalares e ter tomado um caldo, o médico perguntou-lhe se desejava mais alguma coisa e ele responde: “agora queria ficar a só com Deus”. Enquanto o médico caminhava para a missa, o servo de Deu se virou para a parede e adormeceu e morreu assim, nessa tranquilidade.
Muitos boatos surgiram após a morte de Conceição mostrando tentando mostrar que tinha voltado para a fé romana ou tinha morrido em tragédia ou suicídio, por isso, a pedido de Blackford e Trajano, o responsável pela enfermaria Major Augusto Fausto de Souza, o sub-delgado do Irajá Honório Gurgel e até mesmo o vigário daquela localidade Padre Lourenço da Cruz Penedo forneceram declarações detalhadas das últimas horas do humilde pastor, que foi exumado de onde havia sido enterrado (a pedido da igreja romana) e foi levado para o Cemitério dos Protestantes, onde jaz.

Considerações finais
Nas páginas dessa obra de referência, encontramos algo interessante um autor escrevendo de forma coerente com boa fundamentação, mas capaz de mostrar nas suas linhas uma piedade doce e sem exageros e acima de tudo que sabe contar a respeito da vida de um servo de Deus sem fazer dela um semi-deus. Ao concluir essa leitura o que fica na nossa cabeça e coração não é como o Reverendo José Manoel da Conceição foi bom, mas como foi bom e misericordioso o Deus do Reverendo José Manoel da Conceição.
Acreditamos que esse trabalho é resultado de um desafio: escrever uma biografia em um país marcado pela tradição católica que exalta de maneira idolátrica seus expoentes. A solução esta em fazer um texto fundamentado em fatos históricos, pois contra os tais não há argumento, porém essa saída obriga o relato a uma frisa acadêmica que atinge ma minoria e, dificilmente, adentra a igreja. Entretanto o que vemos é um texto caloroso, sábio e bem fundamentado exaurido de uma das mais célebres penas da safra de mente iluminadas em nossa denominação.
A leitura é edificante e nos leva a uma atitude constante de louvo ao Pai celestial que chama graciosamente os seus e os capacita para os labores mais difíceis e trabalho feliz mesmo nas searas mais inóspitas.