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sábado, 23 de maio de 2015

A Providência de Deus


A Providência de Deus
Na Língua Portuguesa a palavra providência vem do latim providentia que, por sua vez, deriva de providere (pro [antes]+videre[ver]). Dessa maneira, providência é a capacidade de ver com antecedência, prever necessidades. Segundo Berkhof (2012, p.85), esse termo não se encontra nas Escrituras, todavia sua doutrina pode ser claramente vista na Palavra. Entendemos, à luz de Confissão de Fé de Westminster, que providência é a ação de Deus sustentar, dirigir, governar e dispor todas as suas criaturas, desde a maior até a menor (CFW, V.1).
A primeira ação providente do Senhor está em sustentar, ou seja, preservar tudo o que foi criado. Diferente do que os deístas acreditam. O mundo não é qual um relógio que o Senhor deu corda e deixou ao domínio da máxima causa e efeito, mas assiste do parto das corças (Sl 29.9) aos grandes eventos da humanidade.
Todas as criaturas são dirigidas por Deus. O Senhor se serve de crentes e, até mesmo dos ímpios, como Ciro (Is 44.28), como instrumentos para realizar sua vontade. Da mesma forma, o sol e a chuvam, que procedem de Deus atingem justos e injustos (Mt 5.45) e, assim, suas as bênçãos e prejuízos alcançam crentes e não-crentes não por acaso, mas por causa da ação soberana de Deus.
Os romanos acreditavam que a Fortuna era uma deusa, filha de Júpiter, que tinha os olhos vendados e distribuía bens e pobreza aleatoriamente entre as pessoas. O referente grego desse mito era a deusa Tique. Essa ideia está presente nos poemas profanos do século XIII musicalizados por Carl Orff em 1936 e que recebeu o nome de Carmina Burana (Canções de Beuren). Essa ópera começa e termina com a Fortuna da seguinte maneira: “ó Fortuna és como a lua mutável, sempre aumentas ou diminuis; a detestável vida ora oprime, ora cura para brincar com a mente; miséria, poder ela os infunde como gelo. Sorte imensa e vazia, tu, roda volúvel, és má, vã e felicidade sempre dissolúvel, nebulosa e velada, também a mim contagias [...]”.
Contudo entendemos que todas as coisas são governadas por Deus. Tal como Jó reconhecemos que a riqueza ou a pobreza procedem do Criador (Jó 1.19). O rico e o pobre não existem por causa das influências econômicas, tampouco pela má gestão de recursos, mas por que Deus assim os fez (Pv 22.2). O Senhor é soberano sobre todas as coisas e criador da luz e das trevas, da paz e da guerra, do bem e do mal (Is 45.7), entretanto, sem ser autor do pecado, porque a ninguém tenta (Tg 1.13) e nEle não há treva alguma (1Jo 1.5). Sobre essa realidade Calvino (2012, p.72) afirma: “um ato mal deve ser julgado pelo modo como é dirigido ao seu fim, fica evidente que Deus jamais é autor do pecado [...] como causa do mal está a vontade dos homens, Deus exercita os seus justo juízos pelas mãos deles, de modo que Ele é totalmente inculpável, e de maneira completamente maravilhosa , Ele, das trevas do pecado, traz luz da sua glória”.
O mundo pode cantar: “o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído” (refrão da música Epitáfio), todavia Noemi e Rute não chegaram por acaso em Belém na mês da colheita da cevada (Rt 1.22), tampouco, por sorte ou oportunismo, esta foi parar na propriedade de Boaz, mas tudo foi por causa do Senhor que não se esquece de seu povo (Rt 2.20). O Senhor colocou Rute no caminho de Boaz e este na estrada da virtuosa moabita. Dessa maneira, o cristão pode entender que todas as coisas cooperam para o seu bem (Rm 8.28).
Dessa forma, não podemos demonizar os problemas, porque o diabo não tem poder igual ao do Senhor e só age debaixo da permissão de Deus e dentro dos limites, por Ele, estabelecidos (Jó 1.12; 2.6). Fidelidade, retidão e temor ao Senhor não são apólices de seguro contra os mais terríveis males, Jó era homem “íntegro, reto, temente a Deus e que se desviava do mal” (Jó 1.8), mas perdeu todos os bens, os filhos, a saúde, os respeito da mulher e dos amigos, contudo não pecou (blasfemando), tampouco atribuiu a Deus alguma falta (Jó 1.22), reconhece para sua esposa que os instigava a pecar: temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” (Jó 2.10).
Devemos ter a devida prudência em não analisar as aparentes bênçãos ou disciplinas pelas aparências. Uma acontecimento, aparentemente, bom como os quinze anos a mais que Deus concede ao rei Ezequias se revelaram uma provação (2Rs 20.6, 12-21) e um acontecimento, que a primeira vista parece ruim, pode se revelar um livramento. O poeta inglês William Cowper (1731-1800) afirmava: “por traz de uma providência carrancuda, esconde-se a face sorridente de Deus”. Depois de todas as terríveis provações que pareciam a Jó como uma face carrancuda de Deus, reconheceu seu sorriso: a escola da dor o levou a uma relação mais íntima com o Senhor (Jó 42.5).
Alguém pode perguntar: por que Deus permite que, neste mundo, em algumas circunstâncias, o justo sofra e o ímpio não? O salmista Asafe está muito angustiado por essa dúvida no Salmo 73. Entretanto reconhece que aparente tranquilidade em que o ímpio vive é um lugar escorregadio que contribui para sua destruição (Sl 73.18). Façamos uma pequena análise: compare um mesmo animal na selva e no cativeiro, enquanto este possui todo o conforto e assistência está preso, mas aquele, apesar de carecer de muitos recursos está livre.
Deus permite que duras provações ataquem ímpios e justos, para que estes vivam pela fé (Hc 2.4, Rm 1.17). O sofrimento, na vida, do ímpio só gera murmuração, mas, no crente, produz perseverança, experiência e esperança (Rm 5.3,4).
O servo de Deus, mesmo no mais difícil problema, apresenta a sua oração e fica esperando (Sl 5.1), porque reconhece que “Deus usará acontecimentos aparentemente desconectados para realizar seu bom propósito” (ULRICH, 2011, p.135). Enquanto o crente aguarda a resposta de Deus usufrui da paz que excede todo entendimento guardando sua mente e seu coração em Cristo Jesus (Fl 4.7). Por isso aquele que confia na providência ora e não fica ansioso por coisa alguma (Fl 4.6), porque reconhece o cuidado de Jesus sobre as nossas vidas (1Pe 5.7).
A confiança (o que só pode ser experimentado por aquele que teve seu coração aberto pelo Espírito e foi convencido de seu pecado) e que a vontade de Deus é boa perfeita e agradável (Rm 12.2) em quaisquer circunstâncias permite ao fiel continuar confiando que permanecer em Deus e nas suas bênçãos eternas é melhor do que se deleitar no prazer efêmero do mundo, Pois um dia nos teus átrios vale mais que mil; prefiro estar à porta da casa do meu Deus, a permanecer nas tendas da perversidade” (Sl 84.10). Segundo Calvino (p.338), a maior parte das pessoas não sabe por que vive, todavia Davi entende que sua vida existe para cultuar o Senhor.
A confiança no Deus providente (Rt 1.16) não permitiu que Rute voltasse aos seus pais e aos seus deuses como Orfa, tampouco fosse atrás de homens mais jovens quer ricos ou pobres (Rt 3.10), mas procurasse unicamente as asas de seu Resgatador, porque seu interesse não era família, bens ou prazer, mas a glória do Senhor.
Analisemos um fato hipotético: um pai ou uma mãe estão com um filho ou uma filha gravemente doente e desenganado pelos médicos. Alguém afirma que se fizer determinada oração ou pertencer a determinada igreja ou lugar de culto, onde não se prega a Palavra com fidelidade, não ministra os sacramentos conforme as Escrituras determinam, tampouco se disciplina de maneira coerente tem o poder de curar a criança. O ímpio não vê problema, e acredita que tudo é válido, os fins justificam os meios. Um falso cristão também pode embarcar nesses devaneios, todavia o verdadeiro cristão entende que seus princípios não podem ser negociados, porque sabe que perder tudo reinará com Deus. Abraão não negou Isaque ao Senhor quando este lhe foi requerido (Gn 22.11,12), porque “considerou que Deus era poderoso até para ressuscitá-lo dentre os mortos” (Hb 11.19).
O Catecismo Maior de Westminster afirma (pergunta 109) que são pecados proibidos no segundo mandamento (Êx 20.4-6): “estabelecer, aconselhar, mandar, usar e aprovar de qualquer maneira qualquer culto religioso não instituído por Deus; o fazer qualquer imagem de Deus, de todas e quaisquer das três pessoas, quer interiormente no espírito, quer exteriormente em qualquer forma de imagem ou semelhança de criatura alguma; toda a adoração dela, ou de Deus nela ou por meio dela; o fazer qualquer imagem de deuses imaginários e todo o culto ou serviço a eles pertencentes; todas as invenções supersticiosas, corrompendo o culto de Deus, acrescentando ou tirando dele, quer sejam inventadas e adotadas por nós, quer recebidas por tradição de outros, embora sob o título de antiguidade, de costume, de devoção, de boa intenção, ou por qualquer outro pretexto; a simonia, o sacrilégio; toda a negligência, desprezo, impedimento e oposição ao culto e ordenanças que Deus instituiu”.
Em muitas vidas, satanás ensina a chamar as bênçãos de Deus como se fossem suas. Quantas pessoas atribuem um milagre a ação de uma divindade estranha e se recusam a se converter por mero medo idólatra. Essa realidade podia ser vista em Jeremias: “desde que cessamos de queimar incenso à Rainha dos Céus e de lhe oferecer libações, tivemos falta de tudo e fomos consumidos pela espada e pela fome” (Jr 44.18).
Apesar de serem muitas as previsões que se avolumam no intuito de saciar as necessidades do homem. Só Deus exerce providência com eficácia.


sexta-feira, 8 de maio de 2015

O desafio de ser mãe dentro de uma família bíblica


O desafio de ser mãe dentro de uma família bíblica
Quantas vezes você ouviu dizer que o amor da mãe é maior que todos os outros ou o provérbio: “mãe é uma só, pai se encontra em qualquer lugar”. Será que esses pensamentos estão corretos à luz das Escrituras Sagradas?
Não são poucos aqueles que veem a Palavra de Deus como uma expressão do patriarcalismo ocidental da cultura judaico-cristã, onde a Palavra de Deus está misturada ao pensamento humano dos Escritores inspirados. O “teólogo”, de origem romana, Leonardo Boff dá voz a essa concepção afirmando:
Deus-Mãe reconduz todos os filhos e filhas, por mais dispersos que estejam, quais ovelhas ao seu redil. Onde a religião do Pai introduz o inferno, a religião da Mãe faz valer o perdão irrestrito que abre caminho para uma absoluta realização do Reino de todos e para todos. Não sem razão, sentimentos de reconciliação são associados à mãe, enquanto sentimentos de dissociação, ao pai. Isso vale também na experiência com a Realidade última e transcendente[1].
Onde começou essa conversa do homem ser o vilão da história? Segundo Nancy Pearcey, “falando historicamente, o ponto decisivo fundamental foi a Revolução Industrial, que causou a separação entre o reino particular da família e da fé e o reino público dos negócios da industrial”[2].
A Revolução industrial, especialmente na sua segunda etapa (1860-1900), gerou o impacto de tirar o homem de casa e mandá-lo para a indústria. Nessa perspectiva o marido sacrificou seu interesse pelo particular para zelar pelo todo, “a esfera pública dos negócios e das finanças seriam isoladas da esfera particular do lar. Assim a casa se tornaria um refúgio, um porto seguro, do mundo cruel e competitivo”. Aqui está a origem do desejo masculino de chegar em casa colocar seus chinelos e ler o jornal sem ser incomodado com assuntos domésticos que ficaram restritos às mulheres.
Nessa perspectiva dualista (mundo x casa), o homem, alheio e tentado pelo profano, foi forjado e a sociedade, apoiada pela religião, que começou a ter em seu corpo cada vez mais mulheres, passou a querer domesticar os maridos e posições bíblicas que o enxergavam como cabeça passaram a ser vistas um machismo bíblico que deveria ser evitado.
Boff, filho de sua época, utiliza essa distorção bíblica que uni submissão e maldição na mesma sentença: “o amor sagrado entre o homem e a mulher é substituído pelo casal do qual o homem é o chefe e a mulher é rebaixada e ridicularizada”[3]. Concordamos com a concepção de Campos[4] quando afirma que “após a queda, o marido haveria de exercer um controle e domínio sobre a mulher como uma expressão errônea e diferente de ser o cabeça da família”.
Dessa maneira, Gênesis 2.18-22 é consequência imediata da maldição, ou seja, Eva manifestou o desejo ímpio de governar o seu marido tomando a frente na negociação com a serpente e fazendo o que desagrada a Deus e, “quando a mulher compete com o marido, este por sua vez, assume a função de governo sobre ela”[5]. Entretanto a submissão requerida à liderança do homem, exposta em Efésios 5.22-24, não faz parte da maldição requerida, mas faz parte da estrutura familiar criada por Deus antes do pecado.
Calvino defende que “Deus nos uniu [homem e mulher] tão fortemente uns aos outros, que ninguém deve tentar esquivar-se da submissão recíproca. E onde reina o amor, aí também se prestarão serviços mútuos”[6]. O papel do marido, mesmo antes do pecado era liderar e a mulher auxiliá-lo. Em Gênesis 2.18,20, o objetivo é ser “ezer” (עֵזֶר) alguém que ajuda[7], mas não como uma escrava e sim como “queneguedo” (כְּנֶגְדּֽוֹ) “conforme”, “como aquilo que corresponde a”[8].
Dessa maneira, homem e mulher são criados iguais, mas como missões diferentes. A mulher deve ser submissa ao seu marido como ao Senhor (Ef 5.22), sendo que a função de submeter, no grego “hypotásso” (ὑποτάσσω) de “hypo” sob e “tasso" arranjar, organizar.
De fato, como em todas as áreas da criação as estruturas provenientes de Deus, devido à queda, assumem uma direção diferente daquele proposto. Segundo Wolters, estrutura é “a ordem da criação, à constituição criacional constante de qualquer coisa [...] é ancorada na lei da criação, o decreto criacional de Deus que constitui a natureza dos diferentes tipos de criatura”[9]. A direção “designa a ordem do pecado e da redenção, a distorção ou perversão da criação pela queda por um lado e da redenção e restauração da criação em Cristo por outro. Qualquer coisa na criação pode ser direcionada para Cristo ou para longe dele”[10].
Em muitos lares onde o marido, que deveria amar a esposa como Cristo amou a igreja (Ef 5.25, veja a atitude de Cristo para com a igreja em Fl 2.5-8), assume uma postura de tirano impondo um regime de terror e medo. Muitas vozes da mídia, na tentativa de denegrir a Palavra e seus seguidores, retratam essa realidade como um patriarcalismo arcaico e opressor, todavia nessa submissão pautada no respeito e no amor (Ef 5.33) está a segurança para o futuro das famílias e, assim como uma parábola eterna que define a relação de Cristo com a igreja (Ef 5.32).
Sobre essa realidade de submissão mútua Piper afirma:
A submissão mútua é vista como uma expressão de estar cheio do Espírito Santo. Maridos e esposas cheios do Espírito Santo servem um ao outro. Eles se humilham e se rebaixam para que o outro seja exaltado. Acham maneiras de submeterem as suas preferências imediatas em prol do conforto e da necessidade do outro[11].
Portanto, há uma luta justa de milhares (cerca de 2 milhões[12]) de mulheres que lutam contra o pecado a violência (veja o que a Bíblia diz sobre o marido que não trata a esposa como a parte mais frágil: 1Pe 3.7), todavia essa batalha não pode começar do zero e mudar a estrutura criada por Deus.
A posição da teologia reformada não está em uma destruição violenta, mas na renovação progressiva pelo processo de santificação. Walsh e Middleton afirmam: “o pecado não mudou a estrutura de vida no mundo; a criação original de Deus continua firme, sustentada por ele. O que mudou foi o sentido”.[13] Outra formatação para a família, longe dos padrões bíblicos, só trará tristeza e vazio.
Não existem fórmulas mágicas ou bênçãos milagrosas, a mudança da direção rebelde não ocorre de fora para dentro (por meio da consagração), mas de dentro para fora (por meio da santificação), um “processo de renovação interior progressivo em cada fase da vida humana”[14] conforme acredita Wolters. A luta não pode ser contra estrutura, mas contra a direção que a família assumiu.
A distância que se estabeleceu entre homem e mulher não contribuiu para o princípio bíblico do casamento: “deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” (Gn 2.24). Atualmente, segundo dados do IBGE, 24% dos jovens de 25 a 34 anos continuam vivendo com os pais. Igualmente, 26% das mulheres optam pela produção independente (IBGE-2009). Esses dados parecem racionais para muitas pessoas, todavia revelam a insanidade de nossos dias, quando o relacionamento responsável do casamento onde um se decide fazer o outro feliz é rejeitado em nome do prazer a todo custo.
Para existir uma mãe é necessário um filho dentro da família onde pai e mãe saibam criá-lo na admoestação e na disciplina do Senhor (Ef 6.4). Para esse objetivo encontrar êxito, faz-se necessário romper com os moldes familiares amplamente difundidos pela mídia e buscar os verdadeiros padrões na Palavra inspirada. Nesse dia, se perceberá que o amor de pai e mãe são iguais, porque servem ao mesmo fim: glorificar a Deus.


Referências Bibliográficas:

CAMPOS, H.C. O Habitat Humano, o Paraíso Perdido: estudos em antropologia bíblica. São Paulo: Hagnos, 2012
MURARO, R.M; BOFF, L. Feminino e Masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.
PEARCEY, N. Verdade Absoluta: libertando o cristianismo de seu cativeiro cultural. São Paulo: CPAD, 2012.
PIPER, J. Casamento Temporário, uma parábola permanente. São Paulo: Cultura Cristã, 2011.
WALSH, B; MIDDLETON, J.R. Visão Transformadora: moldando uma cosmovisão cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
WOLTERS, A.M. A Criação Restaurada: base bíblica para uma cosmovisão reformada. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
http://www.pmpf.rs.gov.br/servicos/geral/files/portal/cartilha-violencia.pdf



[1] MURARO, R.M; BOFF, L. Feminino e Masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças. Rio de Janeiro: Sextante, 2002, p.90.
[2] PEARCEY, N. Verdade Absoluta: libertando o cristianismo de seu cativeiro cultural. São Paulo: CPAD, 2012, p. 365.
[3] Ibidem, p.96.
[4] CAMPOS, H.C. O Habitat Humano, o Paraíso Perdido: estudos em antropologia bíblica. São Paulo: Hagnos, 2012, p. 215.
[5] Ibidem, p.214.
[6] CALVINO, J. Efésios. São José dos Campos-SP: Fiel, 2007, p.133
[7] HARRIS, R.L; ARCHER JR, G.L; WALTKE, B.K. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova. 1998, 1598.
[8] Ibidem, p.1289.
[9] WOLTERS, A.M. A Criação Restaurada: base bíblica para uma cosmovisão reformada. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p.69.
[10] Ibidem, p. 69.
[11] PIPER, J. Casamento Temporário, uma parábola permanente. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p.70.
[12] http://www.pmpf.rs.gov.br/servicos/geral/files/portal/cartilha-violencia.pdf. Acessado no dia 08 de maio de 2015 às 18h30.
[13] WALSH, B; MIDDLETON, J.R. Visão Transformadora: moldando uma cosmovisão cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p.77.
[14] WOLTERS, A.M. A Criação Restaurada: base bíblica para uma cosmovisão reformada. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p.101.

domingo, 12 de abril de 2015

A Bagagem invisível



A bagagem invisível
É comum ouvirmos que casais que se davam bem no namoro quando casaram começaram a brigar. Alguns vão dizer que esses são problemas típicos do casamento como se a bênção matrimonial desligasse o botão harmonia e desse início à guerras intermináveis. Talvez uma afirmação conhecida por muitos casais seja: “você não me entende!”. Contudo o que as famílias carecem para amadurecerem nesse sentido? Como viver um casamento para a glória de Cristo?
Exceto Adão e Eva, todos os casais trazem com o enxoval simples ou ricamente bordado uma bagagem invisível, que eles próprios não tem consciência de sua dimensão, mas que existe e é profundamente pertinente.Nela se encontram nossas influências. Todos nós temos um modelo de família ideal em nossas mentes e ao casarmos sabemos como queremos ou não queremos ser. Essa influência foi construída ao longo de nossa vida olhando o relacionamento das pessoas ao nosso redor, especialmente os nossos pais.
Essa mala contém as primeiras raízes de nossos acertos e, principalmente, de nossos erros. Ela nos ajuda quando nos permite desviar dos erros feitos por nossos pais (Ez 18.14) ou imitar seus acertos. Todavia é maléfica quando nos leva a exigir do outro a postura que encontrávamos em nossos progenitores.
Frequentemente, alguns casais vivem anos não um ao lado do outro, mas de seres imaginários que eles forjaram a partir daquelas influências que trouxeram de suas casas e passam a vida querendo enquadrar o cônjuge nos seus padrões. Isso denota uma terrível rebeldia, porque primeiro se quer tomar o lugar de Deus e mudar o coração do outro e em segundo lugar se quer impor um padrão humano que está, naturalmente, aquém das Escrituras.
Dessa maneira, a Palavra é sábia ao orientar os casais: “deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” (Gn 2.24).
Segundo o Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento (DIT), o verbo asab (עזב) implica partir, abandonar e soltar (p.1101). No contexto de Gênesis 2.24, esse verbo transmite a ideia de que esse deixar o pai e a mãe pelo filho ou a filha (apesar da ênfase de ish [אִ֔ישׁ] estar sobre o homem) deve ser feita de maneira contínua. Derek Kidner (1967, p.62), citando Gerhard Von Rad, afirma: “a união matrimonial de ambos deve ser um laço exclusivo (um homem deixa), permanente (...e se une), e selado por Deus, pois o próprio Deus, como pai da noiva leva a mulher ao homem”. Kidner enfatiza que o ato de deixar deve, impreterivelmente, preceder o ato de unir. Moisés usa aqui o verbo dabaq (דבק) “usado com bastante frequência no Antigo Testamento para designar coisas físicas que se grudam umas às outras, em especial as partes do corpo” (DIT, p. 291). Dessa maneira, maneira o homem e a mulher, pelo casamento são ajuntados com tal intensidade que são mesma pessoa.
Todavia essa orientação não exime o indivíduo de honrar seu pai e sua mãe e cuidar deles na velhice. Jesus condena de maneira contundente a prática do corbã (Mc 7.11), segundo Hendriksen (1998, p.205), quando um judeu dedicava uma grande quantia ao templo e, por isso, ficava dispensado, segundo os Mestres da Lei, de honrar seus pais. Calvino (1998, p.175), comentando a Carta aos Efésios (5.31), afirma: “aquele que quer ser um bom esposo não cessará de demonstrar que é filho de seu pai; mas preferirá o matrimônio como o mais santo de todos os laços”.
O objetivo do matrimônio é fazer do homem ser uma só carne com sua mulher de tal maneira que poderíamos repetir como Adão: “esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2.24). Entretanto para que esse fim obtenha êxito existem alguns cuidados que os cônjuges devem observar:
1º. Reconhecer que não estão juntos apenas pelas afinidades, mas pela soberania de Deus (Lc 12.6,7). Salomão chega a afirmar: “A casa e os bens vêm como herança dos pais; mas do SENHOR, a esposa prudente” (Pv 19.14);
2º. O amor que une um casal não é um sentimento, mas uma decisão diária de receber o outro como ele realmente é. Dessa maneira, como afirma Dave Harvey, em Quando Pecadores dizem sim, casamentos felizes são construídos sobre o alicerce da misericórdia que tem como parâmetro o ato salvífico empreendido pelo próprio Deus (Lc 6.27-36). Calma, ser misericordioso não é fazer vista grossa, mas não batalhar pelos meus desejos e interesses, mas pela glória de Cristo. Harvey afirma: “a misericórdia não muda a necessidade de falarmos a verdade. Ela transforma a nossa motivação, que deixa de ser o desejo de vencer batalhas e passa a ser o desejo de representar a Cristo”.
3º. Se as pequenas manias cotidianas necessitam de misericórdia os pecados precisam de perdão (Mt 18.20,22), que deve levar em consideração que fomos perdoados de uma dívida impagável (Mt 18.23-35);
4º. As discussões devem seguir os parâmetros de Efésios 4.29 e chegar a uma solução que glorifique a Deus. Lembre-se: quando em uma discussão familiar houve um vencedor que não é o Senhor Jesus o marido e a esposa foram derrotados;
5º. O casamento melhora com atitudes orientadas pelas Escrituras e não com promessas e discursos bem elaborados; 
6º. A nossa mudança visa à comunhão mais íntima com o Senhor e não o interesse do cônjuge, tampouco podemos condicionar a correção de nossa conduta a decisão do outro em se corrigir também. Lembre-se de que a alma que pecar essa morrerá (Ez 18.4). Apesar de sermos um o progresso na santidade é individual;
7º. John Bettler disse: “seu côjuge sempre expõe seu ídolo”, ou seja, o marido, pela convivência conhece e expõe a ela seu ídolo, assim como a esposa a seu marido. Dessa maneira, Deus uniu um ao outro para que ambos cresçam na mortificação de seus pecados e na santidade, por isso, Lutero chamava o casamento de “a escola do caráter”. 
Essas dicas, que de nenhuma maneira são exaustivas, podem indicar o caminho da construção de um casamento ou de sua restauração, o que corre na contramão de nossos dias em que o divórcio tem sido facilitado como algo simples e corriqueiro, todavia, apesar de estarmos no mundo não pertencemos a ele (Jo 17.14), tampouco nosso casamento.

domingo, 5 de abril de 2015

A RESSURREIÇÃO DE CRISTO, PRIVILÉGIO DO CRENTE


RESSURREIÇÃO DE CRISTO, O PRIVILÉGIO CRENTE!
Na igreja de Corinto, muitas pessoas possuíam dúvidas ou negavam categoricamente a ressurreição do Senhor Jesus Cristo, porque algumas pessoas dentre eles (1 Cor 15.12)não queriam retornar a um corpo que os limitaria, pois sofriam a influencia da grega e precisamente o gnosticismo, no qual a matéria e naturalmente perversa, enquanto o espírito é bom, assim a pessoa para atingir a Deus, conhecimento supremo, deve ser livrar do corpo e buscar apenas as práticas que valorizam a alma.
O corpo, para os gnósticos, era um castigo que visa aperfeiçoar a alma. Essas teorias heréticas circulavam dentro de muitas igrejas do primeiro século. Para muitas pessoas que ouviam a Palavra ressuscitar, ou seja, voltar para o seu corpo, era sinal do completo fracasso de levar uma vida longe das pessoas e ocupada apenas com as orações e o conhecimento de Deus.
Era ridículo para o grego ouvir falar da ressurreição (At 17.32) e até mesmo caçoavam sobre esse tema, porém se a cruz do senhor é loucura para os sábios homens da Grécia a Palavra afirma: “destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei a inteligência dos inteligentes” (1Cor 1.17), pois o próprio Jesus afirma que Deus ocultou o temor do juízo e a certa condenação dos pecadores dos sábios e entendidos, para revela-las aos pequeninos (Mt 11.24,25).
Muitos olham para a doutrina da ressurreição e, devido o seu caráter sobrenatural e a sua total dependência de Deus, encaram os cristãos fieis como ingênuos ou ignorantes. Jesus disse que nós somos pequeninos nepíois (νηπίοις), pessoas que estão abaixo dos adultos em conhecimento e experiência, contudo foi a esses que o Senhor se revelou, enquanto Deus, conhecendo os pensamentos dos sábios, viu que eram vãos (1 Cor 3.20).
A Palavra afirma que o princípio da sabedoria é o temor de Deus (Pv 1.7), pois todo o conhecimento humano distante do temor é loucura, pois não glorifica o nome do Senhor, porém o desonra (Rm 1.20-22), porque uma visão errada de Deus gera uma ética deficiente e uma conduta reprovável.
Portanto, se alguém se diz temente a Deus e não acredita na ressurreição de Jesus sua fé é nula e se assim nós professássemos vã seria nossa pregação e, como afirma Paulo (1 Cor 15.14), somos falsas testemunhas.
A ressurreição de Jesus não é um mero retorno à vida como Lázaro (Jo 11.43,44) ou o filho da viúva de Naim (Lc 7.11-15), pois tornaram a morrer, como aconteceu com Lázaro (Jo 12.10,11), mas Jesus é “a primícias dos que dormem”, ou seja, a ressurreição não será uma opção, mas as primícias (aparké) algo que acontecerá no princípio da morte e se estenderá pela eternidade, pois se Cristo não ressuscitou a morte não foi vencida e estamos perdidos em nossos pecados e se a fé noSenhor vale apenas para as coisas terrenas somos as pessoas mais infelizes (1 Cor 15.14-19).
Todos ressuscitarão, contudo os tementes a Deus para a vida eterna e outros para a vergonha e o horror (Dn 12.2), pois quem crer em Jesus no seu interior fluirão rios de água viva (Jo 7.38) mas aquele que não crer será condenado (Mc 16.16)
Se a fé em Jesus é apenas para aliviar as lutas cotidianas, Pedro seria um tolo afirmando que só Jesus tem palavras da vida eterna (Jo 6.68) e Jesus um charlatão prometendo algo que não poderia dar (Jo 10.28). A vida eterna é um dom gratuito de Deus em Jesus Cristo que pagou a dívida fatal de nosso pecado (Rm 6.23).
Podemos acaso lidar com nossas próprias forças contra o pecado? Mesmo se reencarnássemos muitas vezes poderíamos viver uma única vez sem cometer um pecado? Se viéssemos a esse mundo um bilhão de vezes e na ultima cometêssemos um único pecado, pensando mal de alguém ou não nos doando inteiramente ao projeto de Cristo, seríamos merecedores do inferno, porque não há vida plena longe de Jesus (Jo 10.10).
Quando confiamos na ressurreição de Cristo, sabemos que se Cristo, o cabeça da igreja ressuscitou nós ressuscitaremos com Ele (Cl 1.18). Assim para aqueles que dizem: “para tudo tem um jeito, menos para a morte”, podemos afirmar com certeza: a solução para a morte é Cristo, pois ele a venceu na Cruz! Sem Jesus comemos e bebemos certos de que amanhã morreremos e seremos desligados como uma máquina ou viremos muitas vezes decaídos em um mundo decaído. Não há propósito nisso, pois isso, desde o Antigo Testamento a ideia da ressurreição é viva e consoladora, pois o próprio Isaías acreditava que o ressuscitaria com seu corpo (Is 26.19) e Jó, nas mais difíceis provações, afirma: “eu sei que o meu Redentor vive, e por fim se levantará sobre a terra” (Jó 19.25)

Quando acreditamos no privilégio da ressurreição podemos andar em novidade de vida, porque pelo nosso batismo morremos com o nosso salvador e com ele ressuscitaremos (Rm 6.4; 1Cor 6.14), assim não estamos entregues às circunstâncias, mas ao soberano poder de Deus. Se estávamos mortos em nossos delitos e pecados e Cristo nos Deus a vida, não há morte para quem vive eternamente no Senhor (Ef 2.1), pois não somos nós que devemos viver, mas Cristo em nós e este viver deve ser fundamentado na certeza de que Jesus nos amou de tl maneira que se entregou por nós na cruz (Gl 2.20) e aqueles que se conformarem aos seus sofrimentos ressuscitarão (Fl 3.10).

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A importância da ressurreição de Cristo no livro de Jó


A importância da ressurreição de Cristo no livro de Jó
Segundo Anglada[1], a Bíblia protestante possui exatamente os mesmos 39 livros que o cânon massorético (a bíblia judaica que Jesus conhecia).Contudo Archer[2] afirma que a divisão dos livros sagrados, que encontramos e nossas Bíblias (livros da lei, livros de história, livros de poesia e sabedoria e livros proféticos), é baseada na edição adotada pelos compiladores da Septuaginta (LXX – tradução da Bíblia do hebraico para o grego). No texto massorético, o livro de Jó se encontra junto com Salmos e Provérbios na divisão “escritos” (Kethubhim). Dessa maneira, pelo fato do Texto Sagrado não adotar uma divisão cronológica, mas tópica, alguns incautos podem julgar o livro de Jó mais recente do que o de Moisés.
Cronologicamente, segundo Kaiser[3], deve ser classificado dentro da Era Patriarcal (2100-1800 a.C.), porque:
a.)    a riqueza de Jó (1.3) é semelhante a de Isaque (Gn 26.13,14);
b.)    o aumento do gado de Jó (1.10) é semelhante a de Labão (Gn 30.29,30);
c.)    Como os Patriarcas prefere o termo Shaddai (שַׁדַּי ) para se referir a Deus. Essa palavra tem 43 ocorrência no Antigo Testamento sendo 23 delas no livro de Jó, 3 em Salmos, 2 em Cantico dos Cânticos, 3 em Ezequiel, 1 em Rute e 11 no Pentateuco (6 em Gênesis, 1 em Êxodo e 4 em Êxodo);
d.)   Como nos Patriarcas não há sacerdotes e sacrifícios no templo (Jó 1.5);
e.)    O conteúdo dos sacrifícios empreendidos por Jó são semelhantes aos de Balaão (Nm 23.1-3);
f.)     Jó viveu 140 anos (Jó 42.16) e José 110 (Gn 50.23);
g.)    Em Jó 42.11, onde a Almeira Revista e Atualizada (ARA) traduz por dinheiro, no hebraico, a palavra empregada é qesitah (קְשִׂיטָה ), assim como nos tempos de Jacó (Gn 33.19; Js 24.32);
h.)    A morte de Jó é descrita de maneira semelhante a de Abraão e Isaque (compare Jó 42.7 com Gn 25.8; 35.29).
Kaiser[4] entende que o livro de Jó, do qual não conhecemos o autor, é peculiar, porque, apesar de ser tido como um literatura sapiencial, todavia além do diálogo poético traz, também, estrutura narrativa. Essa combinação faz dele um problema. Entretanto, como afirma Hill et al[5], traz de maneira singular a perspectiva bíblica para o sofrimento.
Nesses últimos cinco mil anos, pessoas ou comunidades, como Jó, perguntam-se a respeito do sofrimento e buscam o auxílio de Deus para isso. Não são poucos os que avaliam a dor pelo princípio de retribuição e precisam compreender que até mesmo pessoas íntegras, retas, tementes a Deus e dispostas a se desviar do mal estão suscetíveis ao sofrimento.
Em uma sequencia funesta e rápida, Jó perde seus bens, filhos, o respeito da esposa e dos amigos (Elifaz, Bildade e Zofar), que, depois de consolá-lo, passam a expor para ele o destino dos perversos e depois a acusá-lo, pois buscavam um motivo pelo qual passava por tanto sofrimento.
Bildade, segundo Jackson[6], é o mais moralista dos “amigos” de Jó tentando convencê-lo de que Deus tem uma causa para tantas desgraças, porém, diante de tamanha acusação, Jó declara sua confissão de fé: “porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus. Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos o verão, e não outros; de saudade me desfalece o coração dentro de mim” (Jó 19.25-27). Essa declaração encontraria pleno vigor milênios depois em Cristo.
Jó tinha um conhecimento íntimo de que ele possuía um redentor. Futuramente, esse termo seria usado para se referir aquele que resgata a dívida de alguém (Lv 25.25,26). Esse Remidor é pessoal (meu redentor –  גֹּ֣אֲלִי ) e específico que, mesmo futuro, tem implicações na sua vida presente e quanto mais a nós que vivemos nos últimos dias (At 2.17), de forma mais vívida do que Jó precisamos reconhecer que ele vive, ou seja, não é uma ideia abstrata com pouca relevância prática em nossas vidas.
O tempo de ação desse Redentor se daria “no fim”, todavia, o que era escatológico para Jó é a realidade fundamental de nossas vidas. A sua atitude de “se levantará” implica julgamento. Dessa maneira, Jó está afirmando que o julgamento de seus amigos é distorcido em relação Àquele que o julgará no fim. Mostra que não adianta ser amado pelos homens e ser odiado por Deus. Independente da classe social ou do poder político-econômico, aqueles que não estiveram em Jesus clamarão no derradeiro dia: “Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro” (Ap 6.16).
No séc. I da era cristã, algumas pessoas partindo do pressuposto de que o corpo era mau e essencialmente ligado ao pecado começaram a defender que Jesus não poderia ter um corpo real, mas apenas aparente. Esses hereges eram chamados de docetistas que vem do verbo grego dokéo (δοκέω), que significa parecer, pois acreditavam que se Cristo era Deus não podia sofrer de forma real. Não é à toa que o Credo Apostólico enfatiza que ele nasceu da virgem Maria.
Para muitas pessoas ainda é difícil compreender que “foi ele [Jesus] tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (Hb 4.15). O pecado não faz parte da essência da criação, mas Le é um acidente. Wolters[7] compara a ação do pecado na criação a uma criança que contrai uma doença na infância, por isso, a criança se desenvolve paralela a doença que possui e, assim, não se consegue perceber todo o seu potencial, porque a enfermidade utiliza-se de sua força para sobreviver. A criança sendo curada passa a desenvolver-se plenamente. A doença é o pecado e a cura é Cristo. Jesus mostra que é possível viver sem pecar e nos compartilharemos dessa realidade na regeneração.
Ainda se nutre a ideia de que a estrutura criada por Deus está invalidada pelo pecado, por isso se luta contra o sexo e não a sua direção, a luxúria. O cristão não deve combater ou destruir as estruturas, mas influenciar biblicamente a sua direção (obediência ou rebeldia) que as pessoas impõem à criação. “O pecado não anula a criação, nem se identifica com ela. Criação e pecado permanecem distintos, no entanto intimamente entrelaçados na nossa experiência”[8].
Walsh e Middleton afirmam: “os cristãos dos últimos dias são chamados para empenharem-se na tarefa de refletir a imagem de Deus como ministros da reconciliação. Essa é a tarefa redentora: é vocação do corpo de Cristo trabalhar em um mundo caído, procurando trazer o perdão, a cura e a renovação do domínio de Deus para cada área da vida”[9].
Jó tem consciência de sua condição física e perdeu toa esperança quanto a continuar a vida, pois afirma que depois de consumida (נקף ) a sua pele” (Almeida Corrigida Fiel-ACF), pois está tomado de tumores malignos da planta dos pés até o alto da cabeça (Jó 2.7) de tal maneira que se raspava-se com um caco de telha (Jó 2.8), todavia ele está mostrando aos seus amigos que apesar de ele não ter mais condições de recuperação para os homens, aquela pela apodrecia pela doença seria restaurada e ele veria a Deus. Todo o sofrimento e humilhações desses dias não tinham mudado seus princípios, tampouco afetado o seu coração.
Defende que verá com seus próprios olhos verão a Deus. Dessa maneira, acredita na ressurreição do corpo e não em um infinito e inútil processo de reencarnação. A convicção de que o corpo não é mal, tampouco uma prisão da alma, mas uma criação boa de Deus que será restaurada definitivamente na segunda vinda de Jesus. Só a ressurreição pode nos dar pleno consolo, porque nos garante um dia estarmos em reconfigurados céus e terra (2Pe 3.13) e não em desencontros reencarnacionistas.
Da mesma maneira como Jó, podemos esperar em Jesus nosso redentor, ou seja, aquele que veio pagar a dívida que nossos primeiros pais contraíram no Éden. Um dia ressuscitaremos em nosso corpo para vivermos em um mundo onde o pecado não mais nos influenciará.




[1] http://www.monergismo.com/textos/bibliologia/canon_anglada.htm. Acessado no dia 1º de abril de 2014 às 12h
[2] ARCHER, G.L. Merece Confiança o Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1984. p.69.
[3] KAISER JR, W.C. O Plano da Promessa de Deus. São Paulo: Vida Nova, 2011, p.65.
[4] Ibidem, p. 138.
[5] HILL, A.E; WALTON, J.H. Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Acadêmica, 2006, p. 357.
[6] JACKSON, D.R. Clamor por Justiça: o evangelho segundo Jó. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 81.
[7] WOLTERS, A.M. A Criação Restaurada: base bíblica par uma cosmovisão Reformada. São Paulo Cultura Cristã, 2006, p. 67.
[8] Ibidem, p.67.
[9] WALSH, B.J; MIDDLETON, J.R. A Visão Transformadora. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p.76,78.