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sexta-feira, 16 de março de 2018

Tenho medo de heróis


Tenho medo de heróis


Na noite dessa última quarta feita (14-03-18), a vereadora Marielle e seu motorista Anderson foram mortos de forma brutal. Há muitas especulações, mas ninguém foi preso. Existem aqueles que tentam capitalizar o capital político que essa morte possa gerar, contudo ela tem se tornado uma heroína, porque ela se enquadra nas características literárias do herói: jovem e morrer no campo de batalha.

Tenho medo de heróis, pois todos, indistintamente, usam máscaras. Não digo aquelas da Marvel, mas são descaracterizados pela mesma turba que os canoniza. Precisam ser desfigurados para que todos se vejam neles. Tem suas falhas e pecados perdoados, posições duvidosas esquecidas, mas, igualmente, deixam de ser pais e mães; maridos e esposas; profissionais, etc. Passam a viver na frieza de uma estátua fadada à imortalidade e ao esquecimento.

Por que o mesmo destaque dado a Marielle não foi dado a Anderson, seu motorista? Foi morto no acaso, para ele não terão estátuas e laureis. Contudo, em nosso país, onde a injustiça reina, ambos serão esquecidos quando as lágrimas secarem e outras evento preencher as mentes e corações.

O grande problema dos heróis é que eles são erigidos a essa distinção com sangue e como estão mortos são obrigados a terem seus discursos escritos e reescritos para servirem o sabor das ideologias da moda. Entretanto a morte deles não faz outra coisa a não ser uma comoção pública, a impressão de camisas a formação de ONGs que defendam seus interesses para além do féretro tragado pela cova que chama a todos os mortais.

Não precisamos de mais um heróis em nosso rico panteão, porque a morte deles é ineficaz sem o frágil sentimentalismo. Todos precisam do Redentor. Aquele cuja morte nos deu vida eterna. Há uma permanente tendência de fazer de Cristo um mero herói e compará-lo a Sócrates ou Tiradentes, mas isso é um absurdo, porque sendo Deus se fez homem mortal para nos salvar, assim como a memória desse feito singular percorreu a história e venceu o esquecimento, mesmo quando a fé cristã foi perseguida, criticada e ironizada. Dessa maneira, Jesus não foi imortalizado, porque existe desde sempre, tudo foi criado por meio dele, assim como sua Palavra resistirá à passagem do céu e da terra.
Sonho com o dia em que não haverá mais a necessidade em que pessoas caiam como heróis. Almejo aquele dia glorioso em que as cabeças laureadas pelas glórias humanas desnudem-se das honras efêmeras para tomar a coroa da vida. Temo aquele dia em que diante do Cordeiro em que até mesmo os heróis serão humilhados pelos seus pecados e, como todos, cotarão tão somente com a misericórdia divina. Nesse dia a justiça e a paz hão de se abraçar.

sexta-feira, 9 de março de 2018

A Síria e a Interpretação das Escrituras


A Síria e a interpretação das Escrituras


Na obra A Bíblia e seus intérpretes, o Reverendo Augustus compara a Palavra ao próprio Jesus, pois assim como nosso suficiente Redentor possui duas naturezas (divina e humana) sem composição, fusão ou confusão, mas plenas e capazes de se comunicarem uma com a outra, a Bíblia é igualmente divina e humana. Como Palavra inspirada de Deus (2Tm 3.16), contém tudo o que é necessário para a glória de dEle e para a nossa salvação. Apresenta uma realidade que está muito além de nossas capacidades e só pode ser atingida pela ação do Espírito Santo na vida do regenerado, pois entre o homem e a Palavra há uma infinita distância natural, espiritual e moral.

A realidade divina da Palavra só pode ser observada pela ação da graça especial, por isso, o ímpio sempre a entenderá de forma tendenciosa, porque parte de traduções que não são inerrantes, assim como de uma linguagem onde o Senhor se acomoda de tal maneira que as línguas nunca esgotarão em seu comunicar o Ser de Deus, o que seria impossível em qualquer aspecto, mas exporão o suficiente para que os eleitos sejam salvos.

A Bíblia partiu de uma inspiração orgânica, ou seja, o Senhor utilizou o vocabulário, a pesquisa e o conhecimento dos autores humanos, mas fez com que tão somente a sua verdade infalível fosse registrada e a preservou até os nossos dias. Contudo o intérprete moderno precisa entender que ela foi confeccionada em outro tempo, contexto, cultura e línguas diferentes daqueles que temos. Esse distanciamento deve ser amenizado pelo estudo histórico e gramatical da perícope a ser interpretada.

O texto fora do seu contexto é uma fonte de toda sorte de absurdos e incoerências. Isso tem acontecido com a má interpretação de Isaías 17 onde algumas pessoas ingênuas ou mal intencionadas têm visto nos três primeiros versículos como se cumprindo na atual guerra da Síria.

Quando estamos diante de uma profecia, devemos entender que elas foram entregues a contextos específicos, tal como em Isaías de 17 fala da aliança siro-efraimita (Síria e Damasco) contra o Reino d Judá em 734 a.C. Podemos ver o desenrolar dessa situação em Isaías 7.1-8.4, assim como 2Reis 16.1-20. Os reis Peca (de Israel, Reino do Norte ou Efraim) e Rezim (rei assírio) unem-se contra o Reino de Judá a fim de interromper a dinastia de Davi e, também, impedir uma aliança entre Acaz (Rei de Judá) com Tiglate-Pileser III (Rei da Assíria). A destruição do Reino do Norte acontecerá em 722 a.C. Salmaneser V (apesar da conquista de Samaria ser atribuída a Sargão II era Salmaneser V que estava no trono) sitiou Samaria por três anos e o Rei Oseias não suportou essa opressão (2Reis 17.5-18). Damasco (capital da Assíria) também subvertida pela investida de Tiglate-Pileser entre 733-732 a.C. Ambas as cidades foram destruídas por causa do pecado em que chafurdavam e ainda mais porque quiserem fazer fracassar a promessa de sempre um descendente de Davi se assentar sobre o trono de Judá (2Samuel 7.16).
Portanto, Isaías 17.1-4 já se cumpriram e, em nada, se referem aos acontecimentos que ocorrem na Síria de hoje e que são desdobramentos da Primavera Árabe. Contudo devemos entender que nada foge à soberania dAquele que faz os pardais cair dos céus e conta todos os cabelos de nossa cabeça. Ele faz absolutamente tudo: luz e trevas, paz e guerras (Isaías 45.7), assim como é Ele que destrona reis e os estabelece (Daniel 2.21). Diante das imagens chocantes advinda da sofrida Síria devemos confiar que podemos não ter todas respostas (Deuteronômio 29.29), mas tudo o que acontece existe pelo conselho da vontade do Senhor (Efésios 1.11).

sexta-feira, 2 de março de 2018

Um terreno coração



Um terreno coração

Nesses dias nossa família começa a se acostumar com a mudança de endereço. O inconsciente não nos leva mais à antiga casa. Mas desde o início deparei-me com um desafio: o fundo da casa, tomado por um mato enorme. Lembrei-me de minha adolescência no Seminário de Ribeirão Preto quando o Padre Walmir reunia a turma para carpir a mangueira ou à tarde de guatambu no Seminário de Jaboticabal. Contudo esse período ficou em um passado remoto de tal maneira que tentava me lembrar de como pegaria na enxada. Mas essa crônica nasceu dessa experiência que ainda está em andamento. Percebo cada dia mais como esse terreno é semelhante ao coração humano.

Primeiro, para que o trabalho fosse menos árduo, contei com a ajuda do nosso irmão Diácono Aramis que passou o mata-mato e permitiu duas coisas: impediu que mais mato crescesse e que o existente morresse. Isso foi crucial, pois, nas minhas limitações, não conseguiria lidar com todo o terreno. Percebi como a graça tem essa ação em nossas vidas. Sem a ação do Espírito Santo estaria como o “eu” de Romanos 7.7-25 “não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico” (Rm 7.19). Foi a graça que matou o meu pecado e tem controlado para que meu velho homem não volte, pois morri para que Cristo vivesse em mim (Gl 2.20). Para que Paulo nascesse, Saulo teve que morrer no caminho de Damasco.

Em segundo lugar, com um sentimento de pirofobia vi-me incapaz de partir para milenar coivara, mas diante de um mato que, mesmo morto, estava ali servindo de lugar para proliferação de insetos nocivos decidi que era chegada a hora de tomar a enxada e atingir aquele lugar em que os homens se diferenciam dos meninos. Nessa árdua tarefa, enquanto as meninas se divertiam com pás e rastelos de plástico, entendi que a ação da graça não elimina a minha responsabilidade de andar no Espírito para não satisfazer as concupiscências da carne (Gl 5.16,17). É muito fácil acreditarmos que pelo fato de nossas antigas formas de demonstrarmos nossa inimizade com Deus estarem atenuadas pela graça elas não são um empecilho que precisa ser resolvido. Esperar só faria, com o tempo, um novo mato crescer, por isso, Paulo ao mesmo tempo manda os filipenses desenvolverem a salvação e que Deus opera neles tanto o querer, quanto o efetuar (Fl 2.12,13).

Em terceiro lugar, percebi que existem lugares em que o mato era escasso e até inexistente. Esses espaços são aqueles lugares em que os pedreiros andavam. Os pecados nascem com mais vigor naquelas áreas em que, por medo, vergonha, falso prazer ou orgulho, deixamos sem a devida atenção. Nesses lugares a enxada terá mais trabalho, pois as touceiras estarão mais arraigadas e impropensas a serem arrancadas.

Em quarto lugar, depois do trabalho há um monte de mato e lixo em quantidade que você não imaginava antes de começar. Quando você começar a observar sua vida pela perspectiva divina encontraremos uma enormidade de situações, desejos e tendências que não se afinam a um coração que agrada ao Senhor. A pergunta é: o que fazer com tudo isso? Devemos lançar nosso pecado na cruz do calvário onde eles foram carregados por aquele que apesar de não ter pecado se fez pecador em nosso lugar (2Co 5.21).
O coração do ímpio é um terreno baldio onde a sujeira e a calamidade são evidentes, contudo crente, não pense que a menor intensidade e qualidade de suas mazelas ofendam menos o Deus santo e justo. A diferença entre o terreno do seu coração e o do pecador contumaz esta no fato de que você é assistido pela graça e, por isso, você não deve se conformar nem com a sujeira mais irrelevante, por isso, escrutine seu coração com a enxada da Palavra e da oração para deixa-lo da maneira conveniente àqueles que são chamados de Cristo.

Amigo da verdade, amigo de Jesus!



Amigo da verdade, Amigo de Jesus

A condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi emblemática e o que a torna mais interessante é o quanto ela é controversa, pois, ao mesmo tempo, se tem uma torcida favorável pela condenação e outra para que seja absolvido. Contudo existe uma mesma palavra que liga essa massa tão contraditória: justiça. Aqueles dirão que querem ver o referido político preso e, se isso não acontecer, será uma injustiça. Estes dirão que a justiça está em libertá-lo se não pelos fatos em nome da história do que ele fez por esse país. Acredito que o exercício da democracia permite que existam opiniões tão conflitantes convivendo no mesmo metro quadrado.

Existe uma máxima latina atribuída ao filósofo macedônico Aristóteles (384-322 a.C.) “Amicus Plato, sed magis amica veritas”, em uma tradução aproximada, significa: Platão é amigo, mas a verdade é mais amiga. Aristóteles viva em uma época em que o pensamento de Platão era hegemônico e as pessoas eram tentadas a ter Platão e a verdade como equivalentes. Vivemos em uma época muito semelhante a essa. Tanto os apoiadores de Lula, quanto os seus opositores se digladiam no campo dos rótulos e adjetivos, mas, na maior parte das vezes sem argumentos sólidos (o que exigiria leitura e interesse) e o que é pior sem uma vida para respaldar o que falam. Pessoas podem ser importantes por um tempo ou até por uma vida inteira, mas elas não superam o peso da verdade.

Ambos os lados falam de honestidade. Contudo o nível de moralidade da nação não parece aumentar. Cada dia mais, vivemos como aqueles dos Juízes onde cada um fazia conforme achava certo (Juízes 21.25). Quando as normas chegam ao mesmo nível das opiniões pessoais, tudo entra em colapso. O relativismo desenfreado tem nos levado ao colapso, pois urge o tempo em que as pessoas não saberão mais a diferença entre o certo e errado e agirão em conformidade com seus corações corruptos e enganosos.

A verdade não é relativa, pois Jesus se apresenta como “o caminho, a verdade e a vida” (João 14.6). Jesus está respondendo a pergunta de Tomé sobre apresentar o caminho que leva ao Pai. Jesus mostra que esses três elementos são complementares, pois não há como andar por esse caminho sem compactuar com a verdade que emana do Senhor, tampouco não exibir uma vida que destoe daquela proposta pela Palavra. Ninguém pode ir ao Pai sem aderir a esse caminho verdadeiro e vivo, porque, como afirma Carson, Jesus é o caminho que leva ao Pai, porque é a verdade de Deus e a vida de Deus.

Não é lícito ao crente apoiar ou seguir qualquer caminho que ensine contra a Palavra, desdenhe dela ou a tenha como irrelevante. O prazer do cristão está em meditar na lei do Senhor que não pode ser superado por nenhuma efêmera riqueza desse mundo. Não vive a santa verdade apenas quando está sob holofotes, mas suas boas obras são praticadas no silencio de uma humildade que sabe a auto exaltação só leva à vergonha e a ruína (Lucas 18.14).
O Cristão é chamado para ser de Jesus Cristo (Romanos 1.6) e mais ninguém. O filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) possuía um imperativo categórico: Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, uma lei universal”. Se o eleito foi chamado para ser santo e irrepreensível (Efésiso 1.4) e o únco caminho para viver dessa maneira é Jesus. As atitudes dos Cristãos deveriam ser praticadas como se traduzissem a vontade daqueles que os resgatou da morte para a vida.

Uma viagem chamada CASAMENTO!



Uma viagem chamada CASAMENTO

Recentemente, fui convidado para impetrar a bênção matrimonial sobre um casal jovem, ambos ímpios, por isso, gastei tempo pensando em uma metáfora pela qual poderia fazê-los entender os detalhes teológicos e práticos desse passo tão importante e, assim, não perder a oportunidade de pregar o evangelho a eles e aos seus convidados. Dessa maneira, a partir de Efésios 5. 21-33 tentei comparar o casamento a uma viagem.

Com certeza, um dos momentos mais empolgantes da viagem é a preparação. Estabelecer a hora, o que levar, o que comer, onde vãos parar, o hotel que nos hospedará. Todos esses preparos nos enchem de sonhos e há um prazer tácito em esperar esses momentos. O mesmo acontece no período de namoro e de noivado. Esse é o tempo do preparo e não da execução. Contudo existem inúmeros jovens queimando essa etapa e começando sem os preparos necessários e que farão falta no caminho.

Primeira decisão a se tomar no começo do trajeto é: quem dirigirá. Acredito que existam muitas mulheres capazes de dirigir muito bem, contudo o esse veículo/família será dirigido pelo homem, porque ele é o cabeça (Efésios 6.22). Essa posição que o homem assume não lhe dá o direito de governar sua casa como um déspota, pois a Palavra irá orientá-lo a tratar sua esposa como a parte mais frágil (1Pedro 3.7) e estar pronto a dar a vida por ela tendo como exemplo o próprio Cristo (Efésios 5.25), tal como não sufocar seus filhos (Efésios 6.4). O fato do homem ser reconhecido pela Palavra como o cabeça indica que cabe a ele a responsabilidade de proteger e nutrir os seus.

A mulher está sentada ao lado do seu marido, geralmente, apontando uma ultrapassagem indevida que ele fez ou uma entrada fundamental que ele negligenciou, a velocidade que deve diminuir. Deus retirou a costela de Adão para dar-lhe auxiliadora idônea (Gênesis 2.18,20). A palavra “idônea” significa estar diante de alguém. A mulher sábia (aquela que teme o Senhor) edifica sua casa (Provérbios 14.1a) confrontando o marido em seus erros e apoiando-o nas lutas justas e piedosas. Imagine de Safira tivesse dissuadido Ananias em sua ambição (Atos 5.1-10)!

Esse carro/família caminha para a glória e, em seu trajeto, as pessoas devem se edificar com seu testemunho cristão. Todos que estão nesse veículo não buscam seu próprio prazer, mas a glória de Cristo, porque, como afirma o Pastor John Piper, o casamento é uma parábola permanente da relação que Cristo tem com a igreja (Efésios 5.32). Existem teólogos, como o citado John Piper, que acreditam que o divórcio só seria possível se Cristo se divorciasse da igreja. Jesus não compactua de que qualquer motivo seja válido para o divórcio, mas o adultério seria capaz de quebrar essa aliança pública que o casal fez com Deus. Paulo acrescenta a incompatibilidade irremediável entre o marido e a mulher (1Coríntios 7.15).
O casamento foi criado para que homem e mulher fossem colados de tal maneira que as intempéries e prazeres pessoais não seriam capazes de separá-los (Gênesis 2.24). Contudo o pecado, a falta de preparo e o egoísmo são obstáculos que a igreja precisa levar em consideração.

Tempus Fugit



Tempus Fugit

Ontem estava vendo fotos antigas. Daquela época em que se revelavam filmes de 24 ou 36 poses que eram guardados em álbuns preciosos. São como cápsulas do tempo que mostram como fomos magros ou menos gordos, como alguns que ostentavam cabelos ao vento, hoje, uma cabeça brilhante. Mostra pessoas que foram importantes, mas que passaram, outras, que apesar de completamente pertinentes, utilizando o eufemismo do poeta Manuel Bandeira “dormem profundamente”. Mostra como nosso sorriso ingênuo e confiante foi substituído, aos poucos, por uma face menos flexível e amadurecida.

Uma das definições mais interessantes sobre o tempo é do autor afegão, Khaled Hosseini, em A Cidade do Sol, “o tempo é o mais inclemente dos incêndios” (p.161). Assim como o fogo devasta tudo, igualmente, ninguém pode fugir dos rigores nefastos do maquinário do relógio. Sulca nossa face, encanece os cabelos que restam, tira nossas moedeiras e esvai nossa força (Ec 12.1-5) com tanta sutileza que só nos sentimos roubados na falta da força, da visão, do vigor dos dias de antes.

Mexendo nos meus álbuns velhos percebi que as pessoas são perecíveis e logo vão embora. Moisés compara nossa vida à relva que pela manhã floresce, mas, à tarde, está seca e precisa ser cortada pela manhã (Salmo 90.3-5). Calvino, comentando o Salmo 90, afirma que “os homens estupidamente se gloriam de sua excelência, visto que, quer queiram quer não, são constrangidos a olhar para o tempo por vir e, tão logo abrem seus olhos, percebem que são arrastados e apresentados à morte com incrível rapidez, e sua excelência em um instante se desvanece”. Precisamos de forma urgente entender que as coisas são infinitamente menores do que as pessoas. É inevitável que as pessoas partam, mas é uma escolha contínua se vamos nos lembrar delas pela ótica do remorso ou da saudade.

Percebi que muitos dos meus sonhos e dos meus medos ficaram naqueles tempos. Salomão nos mostra que ao ser humano foi concedida a capacidade de planejar, entretanto, é o SENHOR quem dá a palavra certa. (Pv 16.1). Frequentemente, somos tentados a negligenciar os prazeres eternos para chafurdarmos em alegrias efêmeras que nada mais são do que o usufruir as bênçãos de Deus da maneira errada, no tempo inoportuno com pessoas volúveis. Vivemos em um mundo caído onde, continuamente, temos medo, contudo, tal como os amigos de Daniel (Dn 3.18), teremos maior medo de ofender a Deus que aos homens (Mt 10.28; At 4.19).

As pessoas e eu mudamos, mas Jesus é o mesmo sempre (Hb 13.8). Continuamente, apegamo-nos a coisas que mudam, deterioram-se e acabam e quanto mais nossos corações estiverem ligados a esses bens tanto mais será nossa decepção, pois Jesus afirma que onde estiver o teu tesouro, aí também estará o teu coração (Mt 6.21). Servir a Deus e ao mundo sempre é uma tarefa desastrosa (Mt 6.24).
Depois da queda o tempo não serve apenas para marcar os dias, mas também a nossa deterioração, contudo entre as muitas criações que Deus legou ao homem o tempo é uma delas, por isso, não é à toa que Paulo pede para que aproveitemos ao máximo (compremos) as oportunidades (o tempo), porque os dias são maus (Ef 5.16). Hendiksen defende que o cristão necessita usar o seu tempo de maneira adequada, ou seja, mostrando por meio de suas vidas o evangelho de Deus. Oxalá que nas fotos de outrora vejamos em nós um coração desprendido e inteiramente devotado a fazer a vontade do Senhor mesmo que as circunstâncias não sejam as mais favoráveis.

A fuga da mediocridade



A fuga da mediocridade

Dietrich Bonhoeffer (1906-1945), nos anos de Barcelona, em 1928, afirma aos jovens em uma palestra: “o cristianismo oculta em si um gérmen à igreja”. Esse pensamento pode nos soar quase que herética, porque parece que anula e combate o valor da igreja. Contudo não foi isso que a última vítima de Hitler quis dizer. Contudo mostra que a vivência religiosa pode colaborar para uma autêntica vida cristã, mas pode oferecer os subsídios que falsos crentes se utilizam para mascarar suas mais terríveis mazelas em um cristianismo artificial e legalista.

Sem dúvida nenhuma, a igreja, como agência do céu, tem um papel fundamental na formação do crente, contudo os Fariseus, o “Eu” de Romanos 7.14-25 e o Jovem Rico sabem que todo o tesouro que a igreja pode oferecer, separado de um coração regenerado e sincero, é desperdiçado pela vaidade e desejo de glórias humanas (Veja Lucas 18.10-14; Romanos 7.24 e Lucas 18.23). Dessa maneira, vemos uma tendência à mediocridade no sistema religioso que só pode ser combatido pela Palavra pregada e vivida com fidelidade, o que chamamos de Reforma.

A mediocridade é a busca pelo mediano, pelo meramente satisfatório. Será que se essa fosse a têmpera dos mártires teriam dado a vida pelo Evangelho? Tampouco lhes seria requisitado o sangue, porque o cristão medíocre prima por não viver o Evangelho além das paredes da igreja e, por isso, não causa grande impacto, nem destoa tanto assim do mundo ao seu redor.

Esse degenerativo estado de mediocridade leva aquilo que Bonhoeffer chamou de graça barata, ou seja, qualquer obediência que esteja aquém daquela que deve ser dada só a Deus. O crente, nesse estado de letargia, esquece-se do imperativo que Jesus lhe deu: “fazei discípulos” (Mateus 28.19) e só desperta desse vil torpor acordado pela “teologia do martelo”, ou seja, quando os princípios da Palavra são evidenciados e exigem uma postura radical. Um cristão letárgico e entocado em convicções medianas e legalistas provavelmente, em um primeiro momento, pode entender a fiel exposição da Palavra como um acinte, mas todo aquele que é acordado repentinamente só não fica irritado se os motivos que o levaram a despertar são justificados. O mundo urge pela pregação genuína.
Portanto, apesar de muitos crentes decantarem nos momentos calmos a regiões medíocres de cristianismo, contudo esse conforto pode esconder uma falsa piedade cheia de ritos e regras, mas sem o coração contrito e compungido.