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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Santo e em Santidade



Santo e em Santidade

O ano de 2017 começou com um fato aterrador: no Complexo Anísio Jobim, em Manaus, uma rebelião deixou 56 mortos. O governador do Amazonas, José Melo, falando a Rádio CBN, afirmou que naquela instituição não havia nenhum santo. Não entrando no mérito dessa afirmação, tampouco no fracasso do sistema prisional brasileiro, mas, analisando essa afirmação do ponto de vista teológico, gostaria de oferecer uma breve reflexão sobre a santidade.

A afirmação do Governador se coaduna com a visão Romana, ou seja, apesar de considerar que institucionalmente todos os batizados pertencem à comunhão dos santos. Contudo, “aqueles que praticaram heroicamente as virtudes e viveram na fidelidade e na graça de Deus” são canonizados, integram o cânon daqueles que são modelos e intercessores para a igreja (Catecismo da Igreja Católica, 828). Dentre esses santos, aos Católicos Romanos, a Virgem Maria atingiu a perfeição proposta e oferece esse modelo de santidade. Dessa maneira, o predicativo “santo” é consequência das obras de uma pessoa, por isso, não se espera que exista um santo em um presídio, porque ele não viveu as virtudes necessárias para isso.

O termo santo, no hebraico qadash (קָדַשׁ), segundo Berkhof, deriva de cortar, a ideia é que algo é tão limpo que naturalmente se distingue do todo. A ideia de hagiazo (ἁγιάζω). Nas Escrituras, a santidade é derivada da noção que o homem pecador tem da santidade de Deus (veja Isaías 6.5). Na Bíblia encontramos a palavra “santo” sendo usada como sinônimo de cristãos (Romanos 8.27; 12.13; 15.25, 26,31; 16.2,15), pois, segundo a Catecismo Maior de Fé de Westminster (pergunta 75), é obra da graça de Deus nos eleitos e são santos nesta vida pela ação poderosa do Espírito Santo. Dessa maneira, o cristão, depois de sua regeneração, é santo (separada do mundo e de seus apelos). Nesse sentido, a santificação é consumada. Packer entende que “a essência do conceito é a pureza de Deus que não pode tolerar qualquer forma de pecado (Hb 1.13) e, por isso, e impõe aos pecadores constante contrição em sua presença”.

O Catecismo Maior de Westminster (na pergunta 77) traça uma relação entre a justificação e a santificação. Ambas estão intimamente ligadas, mas enquanto aquela imputa a justiça, esta a exerce; aquela perdoa o pecado, enquanto essa o subjuga. Berkhof entende que a santidade é um processo (Romanos 1.7) que mortifica o velho homem (Romanos 6.6; Gálatas 5.24) e vivifica o novo homem, que busca as coisas do céu e não às da terra (Colocensses 3.1-3).

Contudo, nesta vida, a santidade é imperfeita, porque, em nosso coração, ainda permanecem os resquícios do velho homem de tal maneira que a carne (Paulo usa esse termo para se referir à natureza mundana) milita contra o espírito (esse termo se refere ao homem regenerado) (Gálatas 5.17).

Apenas no estado de glória o crente estará livre de toda influência do pecado. O crente, quando não persevera nos meios de graça ou preservação (Palavra e sacramentos) (Veja Gálatas 5.16), facilmente, pode se desviar. Calvino afirma: “o homem espiritual não esta isento das concupiscências (desejos) e seus constantes apelos, porém não se curva para permitir que reinem sobre ele”.

Portanto, é possível achar um santo até mesmo em um Complexo Penitenciário, pois o criminoso que estava ao lado de Jesus fora escolhido antes da fundação do mundo, e, apenas por ser regenerado, naquele momento derradeiro, consegue se opor ao seu companheiro blasfemador (Lucas 23.40), reconhece seu pecado e a justa consequência dele (Lucas 23.41) e mostra fé salvadora (nos termos de Hebreus 11.1), ou seja, a certeza das coisas que se esperam e a convicção daquilo que não se pode ver, porque vê o Senhor do Reino no Jesus crucificado.


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

AS LIÇÕES DO NATAL



As lições do Natal

O Natal é um momento especial. Durante o ano, muitas pessoas optam pelo isolamento e se entregam à desenfreada correria daqueles que precisam ganhar a vida. Contudo, nesse período específico, quando as luzes natalinas iluminam as cidades, as pessoas querem se unir. Há troca de presentes entre convivas que se preocupam com os interesses e gostos uns dos outros. Nesses dias festivos, as mesas são abastecidas na proporção das condições, porém, na maioria das vezes, regadas com alegria e gestos de carinho. Mas nos cabe a pergunta: o que o natal tem para nos ensinar? Será que as mais ricas instruções dessa data estão na culinária ou na economia na hora de comprar presentes e gêneros alimentícios? Com certeza, NÃO! O Natal tem ensinamentos preciosos para nossa vida inteira.

A primeira lição está no fato de que Deus cumpre sua Palavra. A promessa do Salvador foi efetivada em Gênesis 3.15 (o protoevangelho) mostrando que não há estado de miséria que não possa contar com a graça divina (Romanos 5.20). O Senhor mostrou que sua promessa obedece a padrões estabelecidos por ele, que faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade (Efésios 1.11). Eva, por exemplo, se enganou nesse sentido, pois, ao ver seu primeiro rebento, acredita que alcançou “um varão, o SENHOR” (Gênesis 4.1).

Eva entendeu que o seu descendente, incumbido de esmagar a cabeça da serpente, seria igual ao SENHOR em substância e natureza, contudo, quando viu que a única coisa que Caim esmagara era a cabeça de seu irmão, submeteu-se aos designíos de Deus e acolheu Sete como bênção de Deus para reiniciar a linhagem que iria chegar até Jesus (Gênesis 4.25).

A segunda lição é que Deus, apesar de se revelar claramente desde a criação pelas coisas que foram criadas (revelação geral, Romanos 1.20), e ter estabelecido meios naturais pelos quais sustém, dirige, dispõe, dirige e governa todas as coisas das menores até as maiores, o Senhor poder agir de maneira sobrenatural, ou seja, fazendo a pedra jorrar água (Êxodo 17.6), o sol parar (Josué 10.3), curando doenças mortais (2Reis 20.7) ou a virgem conceber e dar a luz (Isaías 7.14; Mateus 1.23). Segundo Berkhof, “se Jesus fosse gerado por um homem, seria uma pessoa humana, incluída na aliança das obras, e, como tal, partilharia da culpa comum da humanidade. Dessa maneira, temos certeza que Jesus não tem contaminação alguma pelo pecado.

Deus, por meio dos milagres, mostra-nos que não vivemos encerrados em padrões naturais, que não estamos sozinhos entregues a nossa própria sorte, mas há o Senhor que zela pelos seus. Diante dos milagres, reconhecemos a soberania divina frente a nossa parca sabedoria, mas também, somos levados a glorificar o nome do Senhor. Cientificamente, era impossível que a Isabel estéril viesse a dar à luz (Lucas 1.36). Biologicamente, é impossível que alguém engravide sem relação sexual, mas “não há impossíveis para Deus em suas promessas” (Lucas 1.37).

Portanto, por mais validade que tenha um diagnóstico médico e por mais que devamos lhe dar atenção, ele não é a palavra final. A Bíblia conta a história de uma mulher que sofria de hemorragia (doença que lhe deixava impura e, por isso, à margem do convívio social) há doze anos. Gastara todos os seus bens com os médicos (como o doente imaginário de Moliére). Para a ciência do primeiro século, na Palestina, essa mulher estava fadada a uma vida solitária e de humilhação, mas tudo mudou quando tocou na orla do manto de Jesus.

Não fique triste quando os recursos humanos fracassarem, porque, na terceira lição do natal, vemos que não havia hospedagem para José e Maria nas estalagens de Belém e o Senhor dos Senhores nasceu em uma manjedoura sob os olhos atentos dos animais. Os grandes músicos não lhe tocaram, tampouco lhe escreveram loas a sua divina majestade, mas a corte celestial cantava glória. Os poderosos de sua época não lhe prestigiaram, mas os pastores vieram, em detrimento da obrigação que tinham para com os rebanhos, vieram a Belém, à vida do pão para ver o pão da vida. Seu nascimento não foi anunciado nas praças, tampouco foi registrado nos documentos oficiais, mas na Palavra e nas estrelas esse fato estava grafado. Dessa maneira, entenda, perto daquilo que o Senhor tem para a sua vida, aquilo que os homens podem lhe oferecer são pequenas migalhas.

Ninguém deveria ser humilhado ou desprezado, mas o Senhor permite que enfrentemos as mais diversas adversidades, a fim de alcançarmos um coração perseverante (Tiago 1.2,3), por isso, quando esses momentos maus nos encontrarem, a quarta lição do natal mostra que Jesus, apesar de viver em estado de glória pelo fato de ser eterna mente gerado do Pai, Jesus não se importou ao se esvaziar para assumir a forma de um escravo (Filipenses 2.6,7). Dessa maneira, não há ninguém tão importante que não possa ser humilhado e uma vez nessa condição imitamos o nosso Salvador que perdoou até mesmo seus algozes. O Reverendo Vicente Themudo Lessa, ao contar a história do pastor e médico Wiliam Butler, narrara que passava por uma rua, quando sentiu que alguém havia escarrado em sua cabeça. Diante dessa situação humilhante poderia responder como os filhos do mundo falando impropérios, declarando imprecações ou, como filho de Deus, analisando o escarro. Pois foi assim que procedeu e, detectando tuberculose, tratou daquele que o humilhara, amontoando brasas vivas na cabeça (Romanos 12.20) do pobre insensato. Inúmeras vezes, perdemos oportunidades de testemunharmos o Senhor para angariarmos orgulho próprio. Jesus nos ensina que todo aquele que se humilhar será exaltado (Filipenses 2.9-11).

Portanto, não deixe o seu natal virar um marco comercial e uma festa de comilanças e bebedices, mas utilize-o como um testemunho vivo para a sua vida. Fale dele aos seus parente e amigos e você verá que a suposta magia do natal não se compara ao poder do evangelho. Que Deus o abençoe! Bom Natal!




sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O poder de destruição do pecado


O poder de destruição do pecado
O filósofo grego Platão (428/427-3448/347 a.C.), na República, conta a lenda do lídio Giges, um pastor de ovelhas que, durante um terremoto, encontrou um anel. Ao tomá-lo percebeu que ele lhe dava o incrível poder da invisibilidade. Diante dessa inusitada capacidade, consegue seduzir a rainha, matar o rei e usurpar o trono. Platão afirma quase em tom pessimista: “Se existissem dois anéis desta natureza e o justo recebesse um, o injusto outro, é provável que nenhum fosse de caráter tão firme para perseverar na justiça e para terra coragem de não se apoderar dos bens de outrem”. O nobre discípulo de Sócrates, pela graça comum, entendeu a verdade de que “não há um justo sequer” (Romanos 3.10).
O pecado, depois da queda passou a ser transmitido de forma ordinária aos descendentes de Adão (Gênesis 5.3). A Confissão de Fé de Westminster (CFW) afirma que Adão e Eva eram o “tronco de toda humanidade, o delito dos seus pecados foi imputado aos seus filhos” (III, 6). Nesse estado de depravação radical, o homem ficou “totalmente indisposto, incapaz e adverso a todo o bem e inteiramente inclinado a todo o mal” (CFW III,7).
Esse estado persiste até mesmo naqueles que foram regenerados, ou seja, no estado de graça, o crente é liberto da escravidão do pecado (Colossenses 1.13) e é habilitado a querer fazer o bem, contudo “por causa da corrupção ainda existente nele, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas também o que é mau” (CFW IX, 4). Esse estado em que somos influenciados pelo pecado só findará na glória (1 João 3.2).
João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos, mais conhecido como João do Rio, (1881-1921), falando sobre prostituição infantil, na crônica Modern Girls, apesar de considerar essa nefasta mácula como um simples mal social, observa que a perversão existe e todas as classes, que têm um motivo aparentemente plausível como nota João do Rio: “nos pobres por miséria e fome; nos burgueses por ambição de luxo; nos ricos por vício e degeneração”. O Profeta Jeremias é convidado, como Demóstenes, a procurar quem pratique a justiça (Jeremias 5.1). O pecado faz parte de nossa natureza corrompida e não é uma mera deficiência moral ou intelectual que possa ser corrigida se não pela graça.
O grande problema das pessoas para com o pecado está quando essas mazelas são tidas como inofensivas. A sabedoria terrena, animal e diabólica (Tiago 3.15), sempre, encontrará justificativas aos mais terríveis erros, muitas vezes tentando provar que o amargo é doce (Isaías 5.20) e que a mentira é verdade (Romanos 1.25) e procurarão igrejas que não toquem nesses problemas ou incentive uma busca por um felicidade irresponsável e egocêntrica (2 Timóteo 4.3).
Não há pecado leve, mas apenas pecados graves, muito graves ou gravíssimos. O Catecismo Maior de Westminster (pergunta 150) afirma: “todas as transgressões da lei de Deus não são igualmente odiosas; mas alguns pecados em si mesmo, e em razão de diversas circunstâncias agravantes, são mais odiosos à vista de Deus do que outros”.
O mesmo Catecismo afirma (na pergunta 152) que “todo pecado, até o menor, sendo contra a soberania, bondade e santidade de Deus, e contra a sua justa lei, merece a sua ira e maldição, nesta vida e na vindoura, e não pode ser expiado, senão pelo sangue de Cristo”. O grande problema dos pecados, aparentemente, leves e que eles são portas para toda sorte de gravíssimas transgressões a lei de Deus. O indivíduo começa com pensamentos impuros, consulta material pornográfico, passa facilmente ao adultério. É semelhante ao alcóolatra que começou em bebidas, aparentemente, inofensivas, mas progrediu querendo doses cada vez mais fortes.
Dificilmente, pessoas começam em grandes pecados, a não ser que circunstâncias específicas o levem a isso, mas, frequentemente, vão, gradativamente, afrouxando seus padrões morais entre o andar no conselho dos ímpios e se assentar na roda dos escarnecedores (Salmo 1.1). Davi nunca pretendeu matar Urias, mas se viu obrigado a isso quando negligenciou a ir à guerra como os demais reis faziam (2 Samuel 11.1), viu Bate-Seba (2 Samuel 11.2,3) e se deitou com ela de tal maneira que veio a engravidar (2 Samuel 11.4,5).
O pecado tem um alto poder destrutivo, atinge aquele que o pratica e todos os que estão ao seu redor, por isso, nossa luta contra ele deve ser implacável e inquebrantável. Apenas andando pela agenda do Espírito estaremos protegidos do nosso velho homem (Gálatas 5.16). Não há e nunca haverá um anel de Giges que nos possibilita a invisibilidade, pois não se pode fugir da presença de Deus (Salmos 139.7-12).


quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Entre Borboletas e Mariposas




Entre Borboletas e Mariposas

Domingo estava um calor terrível e, por isso, enquanto terminava o meu esboço (gosto de preparar o esboço no domingo para que as ideias do meu sermão estejam vivas em minha memória) abri a porta em busca de ar e frescor. Era final da tarde e a luz começava a declinar e, sem que eu percebesse, entrou em minha casa uma mariposa noturna ou borboleta bruxa. Tentei expulsá-la atirando papeis nela, mas pela minha péssima pontaria ela continuou ilesa entronada no canto superior da parede da sala. Quando retornei da igreja, continuei tal como Dom Quixote e os moinhos de vento. Fracassava sempre que a perseguia. Ela ganhava por ser pequena e eu grande, voar e eu andar. Não acalento nenhuma superstição contra esses insetos, mas prefiro distância deles talvez por medo tolo e ojeriza.

Como na história de Machado, lutava, lutava e lutava com pouca vantagem. Porém aprendi algo com aquela intrusa do meu lar: ela sempre encontrava o lugar mais escuro e confortável para sua natureza. Aquele lepidóptero (nome científico das borboletas e mariposas) camuflava-se na penumbra e sempre se tornava imperceptível. Fiquei pensando como somos parecidos àquela mórbida criatura. Fora uma lagarta como as outras, comera das tenras folhas de um quintal ou de uma horta. Toleram-na com a expectativa de que saindo do casulo mostrasse cores exuberantes para como matreira artista pintar de cor furtiva a paisagem trivial. Como tantas outras lagartas chegou o dia em que suas pernas se tornaram pesadas e os folhas já não despertavam o apetite até que adormeceu e no féretro da crisálida como pupa continuou aguardando o dia em que veria a luz novamente.

Quando saiu de seu funesto recanto, não despertou a atenção das pessoas a suas asas que sempre ficavam abertas mostrando um quadro sinistro que lha afastava do convívio das demais borboletas. A luz, outrora amiga, porque deixava as folhas mais verdes e vistosas, passou a ser um mortal empecilho, porque a tornava vulnerável desmanchando a sua camuflagem e a expondo-lhe ao juízo da luz.

Percebi como essa borboleta era uma metáfora da nossa condição. Igualmente, nascemos trazendo em nossa boca o sabor amaríssimo do fruto que a Adão lhe era vedado comer e, em nosso corpo, a morte, assim como, a deteriorada imagem divina (Gênesis 5.3). Caro leitor, saiba que éramos tão imprestáveis como aquele inseto perturbador da minha tarde. Estávamos em até pior condição, porque enquanto ele serve de alguma maneira o Criador mesmo em sua condição funesta, encontrávamo-nos mortos em nossos delitos e pecados (Efésios 2.1) capazes unicamente de apresentar repugnante espetáculo de alguém que se putrefazendo, desmancha-se em um caos moral.

Assim como seria um milagre indescritível que ao acordar pela manhã encontrasse aquela mariposa com asas abertas (como as borboletas) em tons azuis procurando a luz. A graça fez assim a nós, fugíamos de Deus e desdenhávamos de seu poder soberano, buscávamos, de forma inútil e pueril, a mais confortável sombra onde nossas misérias poderiam ficar escondidas dos olhos dAquele que tudo vê (Provérbios 15.3). Mas nesse terno e irresistível chamado do Senhor a uma nova vida nos fez filhos da luz.

Como John Newton (1725-1807) podemos dizer que éramos cegos, mas agora vemos. Contudo precisamos ficar atentos ao nosso coração, porque mesmo regenerado ainda nos influencia o desejo de buscar as antigas sombras em que cultivávamos perdição e morte. Dessa maneira, precisamos andar continuamente no Espírito para não cedermos a esses desejos vis (Gálatas 5.16), porque o sublime advogado nos persuadirá a reconhecermos nossos pecados (João 16.8). Conta a história Romana que Caesar Marcus Aurelius Antoninus Augustus, o imperador Marco Aurélio (121-180), quando caminhava para a multidão dos comuns trazia junto de si um criado que tinha a única função de sussurrar em seus ouvidos a frase: “você é apenas um homem”. Temos maior dádiva, porque Aquele que pairava sobre as águas quando a terra era sem forma e vazia nos diz que somos pecadores redimidos.

Se nossa primeira pupa foi o ventre materno, uma segunda crisálida se formará e nessa fatal letargia seremos levados a passos calmos ao mármore frio que nos vedará a derradeira luz. Nesse dia, para onde iremos? As borboletas alçarão as alturas do paraíso, as mariposas submergirão nas escuridões infernais. Quando a trombeta soar como ressurgiremos? Assim como todas as lagartas sairão do casulo todos ressuscitaremos, mas de maneiras extremamente diferentes (Daniel 12.2). Apesar das nossas obras não terem o poder de nos salvar (Efésios 2.9), elas têm o incrível poder de mostrar o quando somos borboletas e o quanto vivemos como mariposas. Mesmo que a mariposa noturna não tenha escolhido sua condição suas atitudes se harmonizam com sua natureza.


sábado, 15 de outubro de 2016

O nosso valor em Deus


O nosso valor em Deus
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Agora, se ouvirdes a minha voz e obedecerdes à minha aliança, sereis como meu tesouro pessoal dentre todas as nações, ainda que toda a terra seja minha propriedade (Êxodo 19.5)

Geralmente, o mundo, em que vivemos, nos agregará um valor que não temos e nunca teremos e tampouco merecemos e nos subtrairá o nosso real valor e que, de fato, nos define. O valor que o mundo nos atribui está ligado ao ter, ou seja, ter dinheiro, influência, cargos, títulos. Dessa maneira, o valor do indivíduo, para o mundo, está relacionado ao valor dessas posses de tal maneira que o seu valor é proporcional ao seus bens, todavia a diminuição do valor de suas posses acarretará, para o mundo, a diminuição do valor daquilo que você é.

O mundo valoriza aquilo que as pessoas podem oferecer e não por aquilo que elas são. Não é à toa que crianças e idosos são tão negligenciados em nossos dias, porque, aos olhos do mundo, não oferecem um valor prático. Igualmente, por essa premissa podemos compreender por que o aborte é tão avidamente defendido, pois feto, para o mundo, não têm valor algum. Também podemos compreender a defesa da eutanásia, porque, semelhantemente, velhos, na perspectiva mundana, não têm valor algum.

Algumas igrejas, adeptas da teologia da prosperidade, seguem esse fluxo maldito, porque ligam a intimidade com Deus aos bens materiais e acreditam que a bênção do Senhor está ligada ao ter e não ao ser. De fato, o profeta  (2.8)afirma que o Senhor é dono da prata e do ouro, contudo não foi ao Senhor que ofereceu dinheiro, reinos e a glória desses reinos em troca de adoração, mas Satanás em Mateus 4.8-10. O valor que temos para Deus não está em nós, muito menos naquilo que podemos oferecer. Isaías afirma: “todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades, como um vento, nos arrebatam” (Isaías 64.6).

Vemos, na biografia de Corrie Tem Boom, Refúgio Secreto, em certa ocasião, o tenente Rahms pergunta a Corrie sobre a eficácia de dar aulas de Escola Dominical a crianças com síndrome de down. Para ele, nazista, elas eram inferiores às outras, igualmente, o autor ateu, Richard Dawkins, disse que eu era imoral dar à luz crianças com síndrome de down. Esse biólogo su-africado disse a uma grávida: “aborte, e tente de novo é imoral trazer isso ao mundo se você tiver escolha”. Tanto a Dawkins, quanto a Rahms a resposta da cristã Corrie é pertinente: “o valor do homem está no fato de ter sido criado à imagem e semelhança de Deus” (Gênesis 1.26). Essa imagem não foi extinta de nossos corações por causa do pecado, mas, gravemente, deteriorada, entretanto, por misericórdia e sem nenhum merecimento o Senhor deu seu filho unigênito para que àqueles que nele crerem viverão eternamente. Em Jesus, essa imagem é restaurada.

O mundo quer subtrair de nós essa dignidade que temos em Cristo. Para isso não poupa esforços em defender que esse valor é uma quimera, uma fábula infantil, um terrível engano. Moisés, de maneira inspirado, afirma que somos propriedade peculiar, tesouro do Senhor. A palavra hebraica utilizada aqui, segullâh (סְגֻלָּה) pode ser entendida tanto como propriedade ou acúmulo de riquezas (tesouro).

O comentarista Delitzsch entende a ideia da palavra segullâh seria melhor compreendida como tesouro, pois ela não significa uma posse, mas uma posse valiosa. Contudo precisamos compreender que diferente dos tesouros humanos que, aos olhos mundanos, agregam valor aos seus possuidores nós não oferecemos nem de longe valor ao Senhor que sem nós continuaria soberano em toda sua majestade e glória. Quando o Espírito Santo inspirou Moisés na escrita desse versículo, chama-nos de tesou não porque valemos algo e oferecemos valor a Deus, mas nosso valor está em pertencermos a Deus.

Imagine um quadro de um pintor famoso, um Picasso, um Renoir, um Cézanne, que possuem valor incomensurável, antes de serem pintados, eram apenas tela e tinta e se uma criança as tomasse a obra não seria vendida sequer por poucas moedas, igualmente, o valor é comprometido se for uma falsificação. Portanto, essas obras de arte são valiosas não pelos materiais que a compõem, tampouco pela imagem que retratam, mas por causa do pintores que as produziu. Esse versículo afirma a mesma coisa que nosso valor não está em nós, tampouco naquilo que fazemos, mas naqueles que nos fez.

Entretanto, para sermos esse tesouro particular de Deus, esse versículo impõe duas condições:

1. “ouvir, diligentemente, sua voz”: corremos o risco de ouvir a voz do Senhor de maneira negligente, de maneira parcial ou seletiva (apenas aquilo que nos interessa), mas aqueles que pertencem ao Senhor o ouvem com toda a atenção e prazer.

2. “guardar sua aliança”: significa guardar o pacto (de sangue soberanamente administrado), guardar a Palavra que nos foi dada.

Portanto, aquele que pertence ao Senhor como seu tesouro precisa crer, ouvir e obedecer. Contudo, atenção! A ideia, aqui, não é que fazemos algo para sermos tesouros de Deus, porque a salvação não está ligada às obras. Paulo afirma aos Efésios: porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2.8,9). O teólogo John Stott (1921-2011) defende: Nunca devemos pensar na salvação como sendo um tipo de transação entre Deus e nós, onde ele contribui com a graça e nós contribuímos com a fé. Estávamos mortos, e teríamos que ser vivificados para podermos crer”. Stott dá dois exemplos para ilustrar essa situação de passividade do homem em relação a soberana graça de Deus: o cirurgião e o paciente (depois de uma cirurgia delicada o enfermo consegue sentir os efeitos da habilidade daquele que o operou) e soberano e o criminoso (apenas o criminoso condenado perdoado elo soberano pode sentir o poder soberano do perdão). Essa passividade que tínhamos em relação à graça se dá pelo fato de que estávamos mortos em nossos delitos e pecados e, por isso, por nós mesmos, poderíamos tão somente apodrecer, espalhando terrível odor e toda sorte de pestilências, mas, em Cristo, fomos vivificados, ou seja, recebemos a vida que não tínhamos e, em decorrência desse ato administrado em nosso regeneração passamos a crer e buscar o Senhor (Efésios 2.1).

Se aplicarmos Efésios 2.1 ao texto de João onde Jesus afirma àqueles que murmuravam sobre o fato de Jesus ser o unigênito de Deus: ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia (João 6.44). O verbo grego helkyo (ἑλκύω), qur foi traduzido por trazer, na língua grega, significa trazer arrastada e isso porque essas pessoas que o Pai trouxe ao filho estavam mortas em seus delitos e pecados. Como se deu essa ação do Pai em trazê-las? Pela vocação eficaz, ou seja, a obra do poder e graça onipotente de Deus, pela qual (do seu livre e especial amor para com os eleitos e sem que nada neles o leve a Isto), Ele, no tempo aceitável, os convida e atrai a Jesus Cristo pela sua palavra e pelo seu Espírito, iluminando os seus entendimentos de urna maneira salvadora, renovando e poderosamente determinando as suas vontades, de modo que eles, embora em si mortos no pecado, tornam-se, por isso, prontos e capazes de livremente responder à sua chamada e de aceitar e abraçar a graça nela oferecida e comunicada” (Catecismo Maior de Westminster, pergunta 67).

O nosso valor está no fato de que éramos material de refugo, mas, apesar disso, o Senhor nos utilizou em sua misericórdia. Paulo diz aos Gálatas diz que Jesus veio para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos” (Gálatas 4.5). O verbo grego exagorazo (ἐξαγοράζω), que traduzimos por resgatar, poderia ser literalmente tradzido como tirar da praça (ágora). A praça na Grécia era o lugar de discussão política e religiosa (Atos 17.17,18) e também de negócios, inclusive de escravos. Dessa maneira, a praça aqui na palavra grega de Gálatas 4.5 seria como o Vallongo do Rio de Janeiro no século XIX onde os escravos negros chegavam e eram negociados. Portanto, Jesus veio nos resgatar da mais cruel das escravidões: o pecado. Como Jesus fez isso? Deu a sua vida em nosso lugar.

A estátua de Davi esculpida por Michelângelo (1475-1564) a mais vista a 512 anos era um bloco de mármore que estava abandonado e no qual ninguém queria trabalhar. Se um homem pode pegar um material que fora jogado fora e transforma em uma grande obra de arte imagine o que o Senhor Rei dos céu de da terra para quem não há impossíveis pode fazer em sua vida? Fará restauração de todas as coisas (Apocalípse 21.5). Ele fará de você um tesouro dEle.


terça-feira, 20 de setembro de 2016

O AMOR DE DEUS


O amor de Deus

O que é o amor? O poeta lusitano Camões (1524) afirma: “amor é fogo que arde sem se ver / é ferida que dói, e não se sente; / é um contentamento descontente, / é dor que desatina sem doer”. O poetinha, Vinícius de Moraes (1913-1980), afirma: “eu possa me dizer do amor (que tive): / que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure” (Soneto da Fidelidade). O grande problema dessas definições é que elas privilegiam a intensidade. Amor verdadeiro é reconhecido pela maneira como ele é vivido.

As pessoas mundanas acreditam que o amor é um pretexto para todos os vícios sejam aceitos e legitimados. O amor, que é validado pelas extravagâncias e excessos, tende a acabar e o que valerá dele é apenas a intensidade de suas exigências. Quantos cônjuges legitimam o adultério nessa visão promíscua de amor? Quantos jovens entregam-se à prostituição e às drogas e a toda sorte de inconveniências em nome de uma felicidade que é recompensa dessa maldita intensidade. Inúmeras pessoas cometam os maiores erros de suas vidas quando acreditam que o melhor da vida é a vida que se leva.

Comumente, o senso-comum, gosta de, aventurando-se na língua grega, distinguir três tipos de amor. No grego antigo, existem três palavras para expressar amor: o amor eros (ἔρως), o amor romântico (esse verbo não é utilizada pelos autores bíblicos), entre os sexos; o amor fileo (φιλέω), amizade e o amor agapao (ἀγαπάω), a fraternidade, distinguindo esse último como mais importante e exclusivo do cristianismo, por isso, o Padre Marcelo Rossi afirma: “ágape é uma palavra de origem grega que significa amor divino, o amor de Deus pelos seus filhos e ainda o amor que as pessoas sentem umas pelas outras inspiradas nesse amor divino”. Contudo o verbo agapao (ἀγαπάω) é utilizado é utilizado para indicar o amor, nada divino, de Amnom por sua irmã Tamar (2Samuel 13.4).

Carson chama esse problema de falácia por causa de problemas envolvendo sinônimos e análise de componentes. Essa falácia se estabelece na “crença injustificada de que ‘sinônimos’ são idênticos de formas mais variadas do que a evidência permite”[1].

Carson dá cinco razões para entendermos a complexidade do amor nas Escrituras[2]:

·         Porque muitas vezes atribui-se a Deus uma amor humano e não aquele que está firmado na Bíblia;

·         Porque as pessoas têm dificuldade em entender um amor que disciplina e age de maneira justa;

·         Porque o amor no ocidente tem se enveredado por caminhos pluralistas, sincréticos e pautados pelo sentimentalismo;

·         Porque Deus não tem sentimentos como nós;

·         Porque o amor que as pessoas acreditam geralmente é aquele que faz “vistas grossas” para as dificuldades alheias.

1. O amor é um ato singular

O amor de Deus não é um sentimento, mas um ato pelo qual não legitima todas as mazelas do seu povo, tampouco para fazer “vistas grossas”, mas o cumprimento da promessa feita e Gênesis 3.15, onde, em resposta ao pecado de nossos primeiros pais, ofereceu a maravilhosa esperança do Redentor – Jesus Cristo.

João mostra que esse amor é singular (οὕτω), porque o Pai deu (ἔδωκεν) seu filho unigênito. Ao enviar seu filho unigênito ao mundo o faz sabendo que no fim haveria de esmaga-lo, fazendo enfermar, oferece-lo como oferta do pecado a fim de que tenhamos a vida eterna (Isaías 53.10). Dar o Unigênito implica esvaziar-se de sua glória, assumir a forma de um servo, humilhar-se tomando a cruz (Filipenses 2.7,8) sendo semelhante ao homem em todas as coisas, exceto no pecado (Hebreus 4.15).

2. O amor é condicionado a crer em Jesus

Esse incrível e imerecido presente não foi dado a todos, porque há um condicionante para esse termo (πᾶς): “aquele que nele crê” (ὁ πιστεύων). Dessa maneira, Jesus não veio para todos sem restrição (como imaginam os universalistas), mas exclusivamente àqueles que creem. Esse grupo específico que a Bíblia chama de eleitos (Efésios 1.4) não são, de maneira alguma melhores que os demais, pois Paulo afirma aos Romanos (5.8): “Deus dá prova do seu amor para conosco, em que, quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós”.

Jesus não morreu por justos, mas por injustos, contudo que foram escolhidos, desde antes da fundação do mundo (Efésios 1.4) pela misericórdia divina. Geralmente, algumas pessoas, veem essa maravilhosa graça e começam a apontar essa e aquela pessoa que também deveria ser agraciada com essa bênção eterna, todavia esse pensamento está errado, porque deveríamos nos questionar: “por que eu fui escolhido, apesar de meus muitos pecados?”.

Entretanto a Palavra deixa claro que a fé salvadora não é uma qualidade inata, mas é um dom de Deus (Efésios 2.8), o próprio João afirma que “ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer (o termo ἑλκύω, usado aqui, transmite a ideia de trazer de arrasto) (João 6.44). Dessa maneira, somente os eleitos crerão e buscarão o Senhor de maneira fiel e o adorarão em “espírito e verdade” (João 4.24).

Dessa maneira João afirma em seu prólogo: o Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu (o próprio povo judeus conforme Romanos 9.5), e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (João 1.1-13)

3. O amor de Deus nos dá a vida eterna

A grande dádiva advinda desse amor de Deus em Jesus está em primeiro não ser destruído, pois esse é a justa punição daqueles que não crerem em Jesus, porque amou mais a essa vida e as coisas desse mundo do que ao seu Redentor (João 12.25). Todavia, aquele que tem por somenos as coisas mais preciosas desse mundo caído, porque viu o reino de Deus, necessariamente, nasceu de novo, da água e do Espírito (João 3.3,5). Um exemplo esta nos dois ladrões da cruz: ambos estavam diante do mesmo Jesus Cristo, contudo um deles viu mais que um homem crucificado (veja 23.39-43):

·         Entende que é um pecador (arrependimento): “nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem” (Lucas 23.41);

·         Entende que Jesus é justo: “mas este a nenhum mal fez” (Lucas 23.41);

·         Viu mais que um condenado, mas o Rei: “Jesus, Lembra-te de mim quando vieres no teu Reino”. Isso aconteceu, porque recebeu a capacidade de ter certeza das coisas que se esperam e a certeza de fato que não se veem. Isso é a fé salvadora (Hebreus 11.1). Esse homem, diferente de seu colega, nasceu para uma nova vida, assim como angariou o outro benefício de crer em Jesus: receber a vida eterna: “em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (Lucas 23.43).

De fato Deus é amor (1João 4.8), contudo esse amor é visto de forma flagrante na cruz do calvário (1João 3.16). Esse amor não é dado de forma irresponsável e sem exigência alguma, mas exige tudo o que somos. Não podemos usufruir desse amor singular de Deus sem rompermos com o mundo e seus falsos atrativos e buscarmos exclusivamente o Senhor e sua glória. Os benefícios em crer em Jesus está em não morrer eternamente (Mateus 10.28) e viver eternamente com Deus.



[1] CARSON, D.A. Os perigos da interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2001, p. 47.
[2] CARSON, D.A. A Difícil doutrina do Amor de Deus. São Paulo: CPAD, 2012, p. 9-16.

sábado, 17 de setembro de 2016

A FRAGILIDADE DESSA VIDA


A FRAGILIDADE DESSA VIDA



Essa semana nosso pais parou consternado devido à morte trágica do ator Domingos Montagner (1962-2016). Diante dessa triste realidade, longe das Escrituras a única maneira de avaliar a vida é como Shakespeare (1564-1616) “A vida é sombra passageira. Um pobre ator que chega, agita a cena inteira, diz seu papel e sai. E ninguém mais o nota. É um conto narrado por um idiota, Cheio de sons, de fúria e não dizendo nada” (Macbeth, Ato V, cena V).

A consternação das pessoas está em perceber quão frágil é a vida, quão fútil é a maior parte de nossos projetos e incompreensíveis muitos dos eventos que se amontoam freneticamente em nossas histórias. Se olharmos para essa tragédia com olhos mundanos, fatalmente, tomaremos a via do ceticismo. A única maneira de não sermos esse ator irrelevante, dirigido por um idiota é entendermos que o texto de nossa existência foi escrito pelo Criador de tudo e tudo está no controle de sua sábia e imutável vontade.

Calvino afirma: “por mais que ao homem, com sério propósito, convenha volver os olhos a considerar as obras de Deus, uma vez que foi colocado neste esplendíssimo teatro para que fosse seu espectador, todavia, para que fruísse maior proveito, convém-lhe, sobretudo, inclinar os ouvidos à Palavra” (Intitutas, Livro I, Cap. IV, p. 79).

Apenas as poderosas lentes da Palavra podem corrigir nossa míope perspectiva sobre a vida. O homem tem a inclinação de vê-la como maior do que realmente é, assim como, supervaloriza-la. A Bíblia afirma que a vida do homem é como a erva que pela manhã viceja e floresce, mas à tarde é cortada e seca (Salmo 90. 5,6), assim como, o resumo dessa biografia é canseira e enfado (Salmo 90.10). Contudo somos condicionados a acreditar que a vida humana segue um ciclo natural e nada pode impedir isso. Os deístas acreditavam dessa maneira: o Senhor criou leis e nem Ele pode

mudá-las, ou seja, Deus pode existir, mas jamais ser providente. Contudo é certo que dirige, coverne e sustém todoas as coisas desde a menor até a maior (CFW 5,1).

Mas e quando as coisas não saem dessa maneira como imaginávamos? Quando esse ciclo natural de nascer, crescer se reproduzir e morrer é quebrado tragicamente? A consternação é geral e completa. Por exemplo, a mesma teledramarturgia, em que atuava Domingos Montagner (“Velho Chico”), perdeu um ator, Umberto Magnani, aos 75 anos vítima de um acidente vascular encefálico (AVE) que não teve a mesma proporção, tampouco a mesma carga sentimental. Domingos, no imaginário popular, ele é aquele que morreu cedo (54 anos) no campo de batalha, a própria imagem do herói. É perfeitamente compreensível que um idoso morra (mesmo que provoque tristeza), mas um jovem em circunstâncias trágicas é inadmissível. É perfeitamente admissível que nos entristeçamos, mas sempre pelo prisma da esperança que temo em Cristo (1Tessalonicenses 4.13).

Quando olhamos para a realidade da morte pela sabedoria advinda do homem, no máximo iremos, ao niilismo (nada tem valor e, por isso, tudo é permitido). Entretanto, quando lha avaliamos pela Palavra vemo-la como a consequência do pecado (nossos primeiros pais comeram do fruto proibido – Gênesis 2.16,1) e a solução para esse terrível mal é Jesus Cristo (Romanos 5.12). Obviamente, inúmeras vezes, ficamos perplexos e sem todas as respostas que gostaríamos, mas vivemos para glorificarmos a Deus e nos alegramos nEle para sempre e não para entender todas as coisas. Essa nem é o objetivo da Palavra (Veja Deuteronômio 29.29), antes o que o homem deve crer acerta de Deus e o que Ele requer de nós (pergunta 5 do CM)

Dessa maneira, quando Jesus é o bem mais precioso que temos, viver para nós é Cristo e morrer é lucro (Filipenses 1.21) e, por isso, não buscamos tesouros nessa vida, mas na vindoura onde não seremos frustrados pela ação das traças, da ferrugem ou da astúcia de ladrões (Mateus 6.19-21).

Perceba que Domingos, homem forte, professor de educação física, bom nadador, estava tentando percorrer o Rio São Francisco com a atriz Camila Pitanga teria mais condições que ele de lograr êxito. Ambos poderiam morrer, contudo ela sobreviveu e ele não, porque o dia de nossa morte não é uma mera consequência da ação de vírus, parasitas e bactérias ou da ação de adversidades naturais, mas da ação soberana de Deus. O rei Ezequias estava para morrer, mas o Senhor lhe concede mais quinze anos de vida (2Reis 20.6).

Domingos e Camila percorriam o rio estavam cumprindo um trabalho, divertiam-se e tinham planos, mas apenas um deles saiu com vida daquelas águas. Tiveram tempo para pensar em suas vidas? Nenhum deles queria morrer, mas viver e viver. Nunca haverá tempo para pensarmos em nosso Senhor, pois as águas vorazes da vida podem ceifar, segundo a vontade divina, qualquer pessoa a qualquer tempo.