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sábado, 2 de setembro de 2017

Uma Igreja Desanimada


UMA IGREJA DESANIMADA
E, por este motivo, porque és morto, não és frio nem quente, estou a ponto de vomitar-te da minha boca” (Apocalipse 3.16)
A palavra desânimo vem do latim e significa estar sem alma, sem a força vital que move a criação. Talvez, todos nós tivemos aquele dia em que nossa vontade de prosseguir parece diminuída e o único desejo que, realmente, temos é de nos isolar no feudo de nossas preferências e mesmices. Em alguns casos, não passa do reflexo da quase ininterrupta correria de todos os dias, mas existem aqueles, aos quais, esse torpor, esse desejo de fuga se torna uma patologia e, sem a graça, um terrível obstáculo à vida cristã. Pois as debilidades físicas, psíquicas e morais do homem são os materiais mais caros para se forjar as mais duras tentações, especialmente, aquelas que o afastam da intimidade com o Altíssimo.
Pedro passa por uma debilidade moral, porque, depois de negar Jesus por três vezes, sendo peneirado por satanás (Lucas 22.31), foi tentado a largar tudo e voltar ao seu antigo empreendimento (Veja 21.3). Os discípulos, que outrora seguia Jesus, encorajaram-no nessa empreitada e o seguiram às antigas redes de pescar.
Os discípulos de Emaús foram vítimas da fraqueza psíquica. Obviamente, não estavam loucos, mas o sofrimento ceifou toda a disposição para que fossem a Galileia como o Mestre pedira (Mateus 26.32). Estavam tão tristes e deprimidos com os eventos que aconteceram em Jerusalém, que eram incapazes de reconhecer o Cristo que lhes dirigia. Elias sofre a mesma letargia pedindo a morte debaixo do zimbro (1Reis 19.4). O Rei Asa (2Crônicas 16.11-14) é um exemplo de como moléstias físicas podem fazer alguém que tivera uma vida piedosa desagradar a Deus. A gloriosa mensagem das Escrituras aos entorpecidos pelo cansaço da alma é que o Senhor não os abandona, mesmo que abandonemos, de maneira imprudente os meios de preservação/graça, pois vemos Jesus perdoando Pedro, Deus mando um anjo a Elias.
O desanimado tem um sinistro poder de aglutinar todos aqueles que conhece e estejam dispostos a dar um peso descomunal aos problemas ao invés de seguir a orientação bíblica em Tiago 1.2. É mórbido como, para algumas pessoas, é prazeroso permanecer na assento da murmuração. Existem inúmeros homens que acreditaram que seria confortável passar alguns momentos nesse falso conforto, mas ficaram inertes uma vida toda sempre procurando nos outros o erro e os defeitos que estava dentro delas, porque “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3.23). Uma vida vivida na piedade preguiçosa e relaxada é incapaz de produzir os frutos que os Senhor requer de nós (Efésios 2.10).
Dessa maneira, pessoas desanimadas não só murmuram aglutinando discípulos para o seu louco desespero, mas têm o diabólico poder de drenar toda a energia daqueles que querem ir além. Quantas vezes você teve uma ideia ou quis fazer algo novo na igreja, mas alguém disse: “isso não dá certo!”. Da mesma maneira, o crente morno, no seu trabalho evangelístico, nunca consegue fazer o ímpio sair totalmente de sua figura moribunda, porque transmite um cristianismo superficial, farisaico e descomprometido. O crente desanimado é aquele que vive morno e transmite essa temperatura a todos aqueles que o cercam
Parafraseando o historiador francês Fernand Braudel (1902-1985), não existe vácuo no poder do eu coração, conforme Romanos 6.16, porque ou seremos escravos do bondoso Senhor obedecendo-o para justiça ou da morte para perdição. O maior exemplo de igreja morna/desanimada é a de Laodiceia, pois ,ao invés te confiar no Senhor e servi-lo, optava a servir sua indústria têxtil, sua produção farmacêutica e suas reservas financeiras, contudo porque estavam sem Jesus, permaneciam nus, cegos e miseráveis (Apocalipse 3.17).
Portanto, parafraseando o profeta Jeremias 1.17: arregace as mangas, levanta, faça tudo o que o Senhor lhe ordenar e não te desanimes diante dos desafios, para que o Senhor não te desanime diante deles.



sábado, 26 de agosto de 2017

DEUS E O LIVRE-ARBÍTRIO


Deus e o livre-arbítrio




“Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa. Porventura, tendo ele dito, não o fará? ou, havendo falado, não o cumprirá? (Números 23.19)



Tomás e de Aquino (1225-1274) respondeu o famoso paradoxo da onipotência no qual se questionava: “Deus pode criar uma pedra tão pesada que não possa carregar?” Essa pergunta, muito utilizada por ateus, tenta enganar os incautos afirmando que a soberania do Senhor lhe é impossível, pois como todo bom paradoxo todas as respostas levarão ao mesmo lugar: a anulação da possibilidade da onipotência divina. Se alguém vociferar: Deus é soberano e, por isso, pode criar até mesmo uma pedra dessa proporção, sua onipotência é ameaçada pelo fato de não poder carregá-la. Entretanto, alguém, temeroso pelas razões erradas, pode acreditar que não possa fazer tal proeza e, igualmente, confessar contra o augusto poder do Senhor.

Contudo, é necessário se atentar para o fato de que esse paradoxo parte de uma distorção daquilo que se entende por onipotência. Deus é todo poderoso naquilo que lhe é possível. Obviamente, é infinito o número de possibilidades que, apesar de nos serem impossíveis não o são ao Criador, tal como uma virgem conceber e dar à luz ou um morto voltar à vida, como Lázaro e a filha de Jairo, e, acima de tudo, a salvar o pecador, o maior milagre empreendido por Aquele que faz todas as coisas segundo o conselho se sua vontade (Veja Lucas 18.27).

Podemos confiar na Palavra inspirada do Arcanjo Gabriel: “não haverá impossíveis para Deus em toda a Palavra” (Lucas 1.35), ou seja, o Senhor não pode ser visto como um igual a nós, sujeito às mesmas mazelas e dificuldades (Veja Gênesis 18.14). Acreditar que Deus poderia fazer uma pedra que não possa carrega-la é tão absurdo quanto conceber um quadrado com três ângulos. Portanto existem impossíveis para Deus:

· É impossível que peque (Levítico 19.1);

· É impossível que Deus minta ou se arrependa (Números 23.19);

· É impossível que não cumpra sua Palavra (Lucas 1.37);

· É impossível que mude de ideia (Tiago 1.17); Etc.

Essa realidade mostra como a liberdade é um sórdido devaneio da imaginação humana. Os Iluministas fiaram-se nessa ilusão como uma dos maiores valores entre a igualdade e a fraternidade. Todavia ninguém é completamente livre. Esse é um diabólico desejo que só pode conduzir o homem a mais vil rebeldia. A liberdade criada não permite de modo algum que alguém faça aquilo que bem quiser sem que tenha que lidar com as responsabilidades inerentes a cada uma das escolhas que nascem de sua livre-agência (capacidade de escolher a partir da natureza de seu coração). Inevitavelmente, optaremos entre possibilidades distintas e até opostas e, sem a ação do Espírito Santo, inclinar-nos-emos àquilo que desagrada o Criador, porém, em harmonia com a Palavra—iluminada pelo Espírito Santo—,encontraremos os meios necessários para agir de maneira prudente e que glorifica o Pai que está no céu.

Não faltam aqueles que almejam exercer uma liberdade quase infinita. Contudo, partindo do pressuposto de R.C. Sproul, em que o livre arbítrio “é a capacidade fazer escolhas sem nenhum preconceito, inclinação ou disposição anteriores”. Apenas nossos primeiros pais tiveram tal incumbência e encontraram o desastre da queda. Nem Deus possui livre-arbítrio, pois não tem neutralidade tal que possa se inclinar para o pecado. Logo, desejar tal liberdade é querer tomar nos ombros a pedra que nem  o Criador deseja, é o reflexo do pecado original almejando ser igual a Deus.

Quando formos tolhidos pela pouca abrangência de nossas opções e a angústia de querer mais do que se pode, lembremo-nos de que, apesar da liberdade divina ser muitíssimo ampla, não é de maneira alguma infinita. Portanto, quando o néscio reclama o livre-arbítrio e o poder de escolher tudo, de maneira rebelde quer uma liberdade maior do que aquela que o Senhor desfruta na glória.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Pai, a transmissão de um legado


Pai, a transmissão de um legado

O tolo despreza as orientações de seu pai, mas quem compreende bem a repreensão demonstra sabedoria (Provérbios 15.5) 



A fim de estudar, frequentemente, tenho que ir a São José do Rio Preto e o ônibus que utilizo para  essa atividade é um ótimo lugar para ver todo tipo de pessoas e ouvir os mais variados assuntos. Há alguns meses, dois jovem sentaram-se atrás do banco em que eu estava acomodado e entre uma linha e outra do meu livro foi impossível não acompanhar os assuntos variados que tratavam, mas um específico me chamou a atenção. Os rapazes começaram a falar da beleza que havia na figura paterna. Entendiam que o pai se diferencia da mãe. Para eles, enquanto estas exercem a tarefa do cuidado, aqueles davam segurança e orientação. Caro leitor, entenda que não sou daqueles demasiadamente curiosos que ficam farejando a conversa alheia, mas todos que já usaram esse meio de transporte sabem que para não escutar as muitas conversa só sendo surdo. Em um mundo em que o planejamento familiar é rígido, a família tida como falida e os jovem cada vez mais incentivados a postergar indefinidamente a responsabilidade matrimonial, fiquei feliz por ouvi-los sonhando com o dia em que seriam pais e por terem um exemplo a seguir.

Esse fato nascido no acaso traz luz para uma sociedade que se acostumou a menosprezar a figura do pai. Quem nunca ouviu a respeito da importância e do tamanho descomunal do amor de mãe? Pode se acrescentar aquela chula expressão: mãe só se tem uma, pai se acha um em cada esquina. A teóloga norte americana Nancy Pearcey explica um pouco da origem dessa indiferença. Ela afirma que antes da Primeira Revolução Industrial entre os séculos XVIII e XIX as famílias estavam unidas de maneira singular, pois as oficinas ora ficavam contíguas a casa ou muito próximas a ela, mas, com o advento das indústrias, os homens foram obrigados a se distanciarem do lar e, até hoje, esse é a única maneira de se trabalhar válida a nossa sociedade e, por isso, ela fica tão alarmada com a crescente escassez da oferta nesse modelo. Com o tempo, o homem foi ficando cada vez mais ausente, carente de ser domado pela família e aparentemente dispensável na educação das crianças. Podemos comprovar essa realidade com um teste muito rápido: quantos homens dão aula na Escola Bíblica Dominical? Quantos homens desejam assumir alguma atividade no União de Crianças Presbiterianas? Quantos de nós foram alfabetizados por homens? Quem geralmente vai à reunião de pai e mestres? Percebeu? Não estou dizendo que as mulheres estão dominando o mundo, mas que elas têm ocupado o vácuo deixado pelos homens.

Esse mundo, que jaz no maligno, deseja calar a boca dos homens, porque eles têm a função de transmitir um legado a seus filhos. Certamente, existem situações que fogem a essa regra, temos Timóteo que vira exemplo de fé em sua mãe e sua avó (2Tm 1.5) ou uma viúva que tenha que instruir seus filhos na fé, mas essas exceções—bem sucedidas devido a misericórdia divina— não incentivam a ver a figura masculina como de somenos. Salomão, em toda a sua sabedoria, sabia que era insensatez desprezar a correção do pai e prudência ouvir sua admoestação. Davi, pai de Salomão, transmite admoestações a Salomão e com elas o seu legado em 1 Crônicas 28.9,10:

· Conhecer a Deus: na agenda de Davi para seus filho, a prioridade era que seu filho tivesse intimidade com Deus. Davi apresenta-lhe sua fé como exemplo vivo. Pais, saibam que um legado é abre alicerce na rocha da fé;

· Servir a Deus: Davi sabia que não bastava apenas ter intimidade com Deus, mas era necessário servi-Lo, mas não sem a inteireza de coração e espírito voluntário, porque o Senhor conhece nosso coração e sabe de nossas reais disposições. Ninguém pode fazer média a Deus, tampouco iludi-Lo com uma piedade superficial;

· Tomar cuidado: a grande preocupação que Salomão deveria ter era em exercer sua vocação de maneira a agradar a Deus;

· Esforçar e fazer: o esforço de Salomão não deveria ser dirigido a outro senão a Deus.

Salomão foi sábio enquanto permaneceu fiel a essas admoestações, mas quando deixou perverter seu coração(1Rs 11.5) abandonando essas orientações tornou-se extremamente insensato. Portanto, imitemos nossos pais naquilo que imitam a Cristo e nós pais ofereçamos nossa vida como exemplo e legado àqueles que Deus nos confiou.


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

DEUS E OS MEUS LUGARES INÓSPITOS


Deus e meus lugares inóspitos


Davi, no Salmo 139, faz uma pergunta retórica: “para onde me irei do teu Espírito, ou para onde fugirei da tua presença?” (Salmo 139.7). O homem pode estar longe de Deus, mas o Senhor não se aparta de sua vida, mesmo que sua disciplina seja para a severa disciplina. Contudo, vemos como Adão, diante da nudez advinda do pecado não suportou ser encontrado por Deus e escondeu-se em uma das árvores do jardim (Gênesis 3.8-11).

Contudo é possível que a tristeza agarre de tal maneira os nossos olhos que fujamos não por medo, mas pela mais profunda desorientação como foi o caso dos discípulos de Emaús (Lucas 24.13-16). Em ambos os casos, a fuga foi resultado do pecado cometido ou que deixou o coração lento a crer na vontade de Deus (Lucas 24.25). O produto da soma coração corrupto e enganoso (Jeremias 17.9), mais a tentação constante (1Pedro 5.8) e morarmos em mundo caído (1João 5.19) é sem dúvida nenhuma a possibilidade de nos desviarmos do reto caminho do Senhor.

O Salmista fala de alguns lugares extremos em que os homens podem buscar como fuga e que os outros homens não poderão ajuda-los nesses lugares: os altos céus, os abismos, os confins dos mares e as trevas. Como vimos alguém pode requisitar essas regiões por pecaminosa obstinação como o profeta Jonas, mas não podemos nos esquecer de que as adversidades podem nos levar a esses sítios também e estarmos perdidos, desorientados e cegos pela dificuldade em lidar com os dias maus.

Gostaria de aproveitar uma citação o filme Rock Balboa, atualmente conta a história de Rock o famoso pugilista do passado que agora é viúvo, negligenciado pelo filho e dono de um restaurante italiano. Esse marasmo é quebrado quando é desafiado a uma “última” luta com um boxeador jovem, mas em declínio. A produção é nostálgica e mostra diversas recordações que são reminiscências dos outros filmes da série. Em uma das cenas, o filho revela como era difícil viver a sobra do nome do pai e mesmo assim conseguir avanços com esforço próprio e pede para que o pai desista do confronto já programado e ouve de seu pai: “o mundo não é um grande arco-íris, é um lugar sujo, é um lugar cruel, porque não quer saber o quanto você é durão, vai botar você de joelhos e voe vai ficar de joelhos para sempre se você deixar. Ninguém vai bater tão duro como a vida, mas não se trata de bater duro. Se trata de o quanto você aguenta apanhar e seguir em frente, o quanto você é capaz de agüentar e continuar tentando é assim que s consegue vencer” (sic).

Obviamente, esse texto do Rock foi extraído de um compendio teológico, contudo, seguindo o pensamento de R.C. Sproul, no qual afirma que todos são teólogos, a questão e sabermos se são bons ou maus, por isso, para avaliarmos esse excerto e qualquer outro advindo precisamos confrontá-lo com as Escrituras, nossa única regra de fé e prática e pra essa análise ficar mais rica vamos usar como modelo a vida de Jó.

De fato o mundo é feio e cruel, não porque Deus o tenha criado assim, pois quando terminou toda a obra da criação viu que tudo era muito bom (Gênesis 1.31), mas o pecado dos nossos primeiros pais trouxe essa realidade conturbada em que vivemos (veja Romanos 8.20). Contudo o pensamento de Rock tem um problema essencial: a questão do mal. Acredita que o mundo vai bater forte ao ponto de cairmos de joelho. Esse pensamento é perigoso, porque vê o mundo como uma realidade autônoma, uma energia que castiga as pessoas sem nenhum critério e de forma aleatória. Quando se tem essa concepção das adversidades jamais compreenderemos de fora adequada o propósito das adversidades que nos atingem e nunca a receberemos com a alegria daqueles que esperam perseverar (Tiago 1.2,3).

Os problemas não são frutos do acaso, mas fazem parte da obra do criador que por meio deles castiga o ímpio, assim como ora disciplina, ora prova o cristão. Com certeza, o Senhor baterá forte, porque tem sua “vontade é boa, perfeita e agradável” (Romanos 12.2). Em alguns momentos, quando caímos nas tentações provenientes de satanás, e precisamos que o bordão e o cajado do bom pastor batam com firmeza para que voltemos ao reto caminho. Devemos nos lembrar de que Deus só disciplina a filhos e se estamos vivendo em pecado em a devida disciplina isso mostra que não somos bastados (Hebreus 12.8) O ser humano, longe na graça, naturalmente, foge de Deus, contudo até mesmo o eleito, porque vive em mundo pecaminoso, porque é passível de tentações e é um pecador pode cair em tentação. Dessa maneira, na Bíblia, vemos Adão, que logo depois do pecado, fugiu da voz de Deus (Gênesis 3.8), o mesmo aconteceu com o Profeta Jonas para não pregar em Nínive (Jonas 1.3) e não há quem, distante dos meios de preservação, que não esteja suscetível a cair (1Coríntios 10.12) e buscar uma confortável rota de fuga.

Um jovem perdido nas drogas ou uma família devastada pela imoralidade, por mais perdidos e isolados em seus desencontros podem ter certeza de que por mais degradantes e complexas que sejam suas realidades, apesar delas o afastarem de Deus, elas jamais afastam ou impedem que Deus aja na vida dos seus eleitos. Calvino entende que o salmista, do versículo 7 ao versículo 12 do Salmo 139, “dá continuidade à mesma ideia de ser impossível que os homens, por meio de qualquer subterfúgio, ludibriem os olhos de Deus”.

Davi mostra que se pode buscar um esconderijo nos céus. O Salmista está falando da morada de Deus, o extremo oposto dos abismos (שְׁאוֹל-Sheol: o mundo dos mortos). Obviamente, Davi está falando de maneira metafórica. Existem aqueles que acreditam que podem se fazer de uma suposta e superficial piedade uma maneira de enganar a Deus. Os fariseus eram mestres nessa atividade (Mateus 23.26), pois cultivavam um zelo meramente externo para com a lei, que não fazia transformações internas neles. Jesus, para ilustrar essa realidade, conta uma parábola em que um fariseu e um publican subiram ao templo, aquele orava: “Ó Deus, graças te dou que não sou como os demais homens, roubadores, injustos, adúlteros, nem ainda com este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou o dízimo de tudo quanto ganho (compare com Mateus 23.23)” (Lucas 18.11,12), contudo este, sem coragem de levantar a cabeça batia no peito dizendo: “Ó Deus, sê propício a mim, o pecador!” (Lucas 18.13).

Paulo, antes de sua conversão andou nesses caminhos, tortuosos (Filipenses 3.5), todavia foi encontrado por Jesus no caminho de Damasco e abandonou qualquer honraria humana, considerando-as como refugo e perda para ganhar a Cristo (Filipenses 3.7,8). A biografia do Apóstolo dos Gentios nos ensina que podemos tentar fugir de Deus por meio de uma rígida observância na Palavra, contudo, por ser externa e superficial, não e capaz de agradar o Senhor. Quando eleitos como Paulo se encontrarem nesse terrível caminho, o Senhor os derrubará e os humilhará para que se quebrantem e abandonem as pretensões de agradar a Deus por obras que, na melhor das hipóteses, são trapos de imundícia para o Senhor (Isaías 64.6).

Contudo Davi garante que Deus está até mesmo no mundo dos mortos, poderíamos ir além afirmando que o Senhor está em todos os lugares e nessa onipresença está em sua implacável justiça até mesmo no inferno a julgar os ímpios que viveram incautos nos ditames da vaidade da carne.

O Salmista usa a imagem das extremidades do mar para mostrar outro lugar que seria impossível a Deus. O mar, na Bíblia, é a imagem do caos e da instabilidade, por isso, não existirá na nova terra (Apocalipse 21.1). Contudo Jonas sabe muito bem que mesmo no coração dos mares sua oração foi ouvida pelo único capaz de sondar mente e coração (Jonas 2.3-7). O mesmo pode ser dito da escuridão, pois o lusco-fusco da luz em contraste com o dia também estará ausente na cidade escatológica (Apocalipse 21.25; 22.5).

Portanto, nem nas mais densas trevas, nem as extremidades dos mares, nem as alturas, tampouco os mais infinitos abismos podem impedir a obra soberana do Criador. Como diria a sobrevivente dos campos de concentração Corrie Tem Boom: “não há abismo tão profundo que o amor de Deus não seja mais profundo”.




Não ame a igreja, ame a Cristo!


Não ame a igreja, ame a Cristo!



Perguntou-lhe terceira vez: Simão, filho de João, amas-me? Entristeceu-se Pedro por lhe ter perguntado pela terceira vez: Amas- me? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas; tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas. João 21.17.





Paulo afirma que “Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Efésios 5.25). Apesar desse amor ser requerido do ao marido para com sua esposa, pois o Apóstolo dos Gentios entende o casamento como uma parábola da relação que Jesus tem com a igreja, precisamos nos questionar: por qual igreja Jesus se entregou?

A pergunta pode parecer estranha em um primeiro momento, mas devemos nos lembrar de que existem duas igrejas: a visível e a invisível. Aquela é formada por todos que têm seus nomes inscritos no rol de membros, esta é aquela formada pelos eleitos, aqueles que Deus escolheu antes da fundação do mundo (Efésios 1.4).

Essa é a razão pela qual, embora alguém esteja na comunidade, mas não viva ou em algum momento demonstre que suas atitudes não são santas e irrepreensíveis. Jesus explica essa realidade quando nos conta a parábola do joio e do trigo (Mateus 13.24-30), ou seja, em uma mesma congregação convivem juntos o eleito e aquele que, apesar de se parecer salvo, orar, cantar, exercer funções como ta,l não tem parte nem sorte nesse ministério. Não foi à toa que o Salmista afirma: os ímpios não sobreviverão ao Julgamento, nem os pecadores na congregação dos justos” (Salmo 1.5) ou Paulo, advertindo os Presbíteros dede Éfeso, entende que dentre vós mesmos surgirão homens que torcerão a verdade, com o propósito de conquistar os discípulos para si(Atos 20.30). Dessa maneira, o Último Apóstolo mostra que dentro dessa igreja visível para quem ele pregou o Reino tanto em público quanto de casa em casa (Atos 20.20,25) há salvos e inconversos.

Paulo mostra que serviu ao Senhor e não a igreja com lágrimas (Atos 20.19). Seria muito perigoso se o Convertido da Estrada de Damasco servisse e amasse a igreja, porque, não conseguindo enxergar o comunidade dos eleitos, que só Deus pode ver, pois só Ele pode sondar mente e coração, aplicaria uma distinção nociva ao Evangelho. Muitos podem argumentar que o verdadeiro cristão anda em novidade de vida (Romanos 6.4) e que a conversão deve ser vista em frutos produzidos na alma pela ação do próprio Espírito Santo. Entretanto existem escolhidos como o ladrão da cruz que, mesmo sendo chamado desde antes da fundação do mundo, produziu o mais preciso fruto do Espírito nos últimos momentos da vida, assim como, há pessoas como Simão, o mágico, que, embora tenham apresentado aparentes frutos de conversão, quando menos se espera, revelam que não abandonaram, tampouco crucificaram o velho homem (Atos 8.9-24).

Portanto, partindo dos pressupostos de que todos os eleitos estão na igreja, mas, na igreja, não existem apenas cristãos verdadeiros e que somente Deus pode fazer a devida distinção entre eles, não é lícito aos presbíteros amarem a igreja, mas a Cristo, para que pastoreiem o rebanho com fidelidade à Palavra e não às pessoas. Da mesma maneira, o crente não pode amar a igreja mais que a Jesus, pois correm o risco de permanecerem em uma comunidade idólatra por pérfida simpatia.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

APEGADO ÀS SOMBRAS



Apegado às sombras

“Portanto, ninguém tem o direito de vos julgar pelo que comeis, ou pelo que bebeis, ou ainda com relação a alguma festa religiosa, celebração das luas novas ou dos dias de sábado” (Colossenses 2.16)

A carta à Igreja dos Colossenses foi escrita quando Paulo estava preso ou em Éfeso ou em Roma entre o final da década de 50 e início de 60 e o objetivo de Paulo é combater a heresia que se alastrava pela igreja consumindo a verdadeira piedade e corrompendo a comunidade cristã. Segundo Hendriksen, para compreendermos o perigo que rondava essa comunidade cristã, precisamos levar e consideração que seus membros, na sua grande maioria, eram convertidos do paganismo advindos do que Paulo chama de “poder das trevas” (Colossenses 1.13), os quais, pelas obras más, eram estranhos/alheios (a ideia do verbo apallotrióo – ἀπαλλοτριόω é estar alheio a alguma coisa. Essa mesma palavra aparece em Efésios 2.12) e inimigos do entendimento (Colossenses 1.21), ou seja, da suficiência de Cristo.

Dessa maneira, o apelo a uma sexualidade distorcida como as inclinações da carne, a prostituição, as impurezas, a paixão e a vil concupiscência estavam presentes na vida pregressa desses cristãos (Colocenses 3.5,7), assim como a avareza e a idolatria. Paulo tem a difícil tarefa de mostrar como essas práticas são nocivas, porque delas “vem a ira de Deus” sobre aqueles que permanecem endurecidos ao evangelho, os quais ele chama de “filhos da desobediência” (Colossenses 3.6; Efésios 2.2; 5.6).

O termo desobediência utilizado nesses textos “apeítheia” (ἀπείθεια) vem de duas palavras gregas: o prefixo “a” (ἀ) que indica negação de algo e o verbo “peítho” (πείθω). Paulo evidencia que esse desobediente não é aquele que está alheio ao evangelho por ignorância (sabendo que mesmo esse será condenado – Veja Romanos 1.20), mas aqueles que, apesar de ter ouvido o Evangelho, o desprezaram como a mensagem salvadora.

Os cristãos de Colossos, pertencentes ao Reino de Cristo (Colossenses 1.13), estavam fora desse funesto grupo de desobedientes, preordenados para o inferno, porque foram perdoados (Colossenses 1.14; 2.13. Compare com Efésios 2.1) para se tornarem “santos, sem defeito e irrepreensíveis” (Colossenses 1.22), mas estavam sujeitos às vãs filosofias (Colossenses 2.8), que, por meio de visões atacavam a suficiência de Cristo induzindo-os a adorar anjos (2.2-4,18). Os cristãos de todas as épocas só podem atingir o objetivo da santidade mediante a perseverança (Colossenses 1.23).

Esses irmãos não eram irredutíveis como os ímpios, mas ser persuasivo para qualquer doutrina sem padrões estabelecidos é igualmente perigoso. Se existem inúmeros que se perdem por não crer, há igual índice para aqueles que se extraviam por acreditar em tudo, ambos carecem do Espírito Santo que os habilita a crer. Como afirma a Confissão de Fé de Westminster: “A graça da fé, pela qual os eleitos são habilitados a crer para a salvação das suas almas, é a obra que o Espírito de Cristo faz nos corações deles, e é ordinariamente operada pelo ministério da palavra; por esse ministério, bem como pela administração dos sacramentos e pela oração, ela é aumentada e fortalecida.” (CFW, XIV,1).

A igreja de Colossos caia em um perigo permanente aos cristãos ao longo dos séculos: o desejo de comprar com suas obras a salvação ou parte dela. O cristão não é feito pelas obras que pratica, mas para as boas obras que engrandecem o nome do Senhor (Efésios 2.10). Dessa maneira, a pessoa não se torna cristã em uma longa trajetória de boas obras, mas mostra-se eleita pela vida e as atitudes que toma. Calvino, o Exegeta da Reforma, afirma que “nada somos, senão por sua graciosa liberalidade”, ou seja, nenhuma das obras que praticamos podem endividar o Senhor, porque são meros trapos de imundícia (Isaías 64.6), assim como até mesmo as boas obras que praticamos procedem do Senhor.

Uma heresia que aflorará melhor no segundo século está de maneira embrionária nessa e em outras igrejas da Ásia Menor: o gnosticismo. Essa falsa doutrina misturava o pensamento pagão (em especial a filosofia neo-platônica que privilegiava a alma em relação ao corpo), o judaísmo e o cristianismo.

Segundo Lopes, os gnósticos imaginavam que Deus era uma como uma grande bacia cheia de água (plêrôma/plenitude) que constantemente transbordava (esses são os eons/eras, as manifestações divinas ao longo da história), contudo há uma transbordamento efetivo que traz o logos (Jesus) que nos dá a gnosis (conhecimento). Os adeptos dessa heresia tinham que percorrer três graus: os hílicos (viviam na matéria), os psíquicos (aqueles que progrediam para coisas mais elevadas) e os pneumáticos ou espirituais (aqueles que de fato eram salvos). Privilegiavam revelações extraordinárias e desprezavam o corpo e consequentemente a ressurreição. Dessa maneira, o fiel dessa igreja era orientado a punir o corpo para ganhar pureza da alma e santidade.

Essa ideia de que o corpo precisa ser castigado foi muito popular ao longo de milênios entre os romanistas. Ainda, hoje, a igreja aprova essas práticas de mortificação desde que não exista a efusão de sangue ou malefício à saúde, haja vista, João Paulo II usou o cilício (uma malha de metal com pontas que não chegam a penetrar a pele, mas causam desconforto) mesmo quando exercia o pontificado. Essa prática é tão tola e antibíblica como se Paulo pedisse um espinho em sua carne. Não vemos na Bíblia ninguém pedindo desconforto ou tribulação, mas encarando com alegria (Tiago 1.2) as naturais adversidades que os crentes são acometidos enquanto vivem nesse mundo caído.

Os crentes de Colossos eram incentivados a uma prática ascética, ou seja, a absterem-se de certas comidas (seguindo, provavelmente a dieta de Moisés) e comidas, assim como, guardar as festas judaicas e o sábado (Colossenses 2.16) a fim de obterem a salvação (Atos 15.1) que é dada tão somente pela graça (Efésios 2.8). Esse procedimento segundo Paulo é um rudimento pobre e fraco (Gálatas 4.9-11).

Paulo adverte os irmãos colossenses nos seguintes termos: “tendo cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” (Colossenses 2.8), que pode ser comparado com a carta anterior aos Gálatas (de 48 d.C.) “por causa dos falsos irmãos intrusos, os quais furtivamente entraram a espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos escravizar” (Gálatas 2.4). Observemos que existiam fariseus que haviam crido (podemos chama-los de judaizantes) e acreditavam que os gentios (aqueles que não eram judeus) deveriam ser circuncidados e precisaram observar a lei mosaica.

Essa polêmica que é observada na Carta aos Gálatas de 48 d.C. e existia ainda em 60 d.C (na Carta aos Colossenses), contudo vale lembrar que houve uma deliberação do Concílio de Jerusalém em 51 d.C. (Atos 15.19-22), onde os gentios não deveriam ser perturbados a cumprir as exigências dos judaizantes, contudo “se abstenham das contaminações dos ídolos, da prostituição, do que é sufocado e do sangue” (Atos 15.20), para que não escandalizassem os judeus (Atos 15.21) o que se afina ao que Paulo diz aos Coríntios (52 d.C.) “vede que essa liberdade vossa não venha a ser motivo de tropeço para os fracos” (1Coríntios 8.9). Podemos entender que até hoje existem aqueles, como os fariseus de outrora, que acreditam que pelas obras se pode ganhar a vida eterna, porque tem Jesus como insuficiente.

Paulo inicia Colossenses 2.16 como a conjunção “portanto” (οὖν). Poderíamos comparar as conjunções a conectores de canos que seriam as frases, logo, esse cano que vai do versículo 16 a 19 está conectado por essa conjunção que visa concluir um argumento ao cano que vai do 8 ao 15, onde Paulo os exorta que eles possuem a circuncisão de Cristo, ou seja, o batismo, que se evidencia pelo despojamento da carne (Colossenses 2.11,12), assim como a ressurreição em Jesus (Colossenses 2.13-15). Dessa maneira, ceder os apelos dos judaizantes equivale a não dar o devido valor ao fato de Cristo de cravado nosso escrito de dívida na cruz (Colossenses 2.14,15).

Paulo mostra que a dieta moisaica, as festa da lua nova e até mesmo a guarda do sábado foram importantes no Antigo Testamento, pois eram “sombras das coisas vindouras” ou os “rudimentos do mundo” (Colossenses 2.20). Essas leis cerimonias foram abolidas por Cristo (Efésios 2.15) de tal maneira que morrer em Cristo e viver segundo essas sombras ou esses rudimentos é incompatível com a verdadeira fé cristã é se apegar às sombras que levam a perdição.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Guardar o sábado ou o domingo?



Guardar o sábado ou o domingo?

Isaías afirma: Assim diz o SENHOR: Mantende a retidão, e fazei justiça; porque a minha salvação está prestes a vir, e a minha justiça a manifestar-se. Bem-aventurado o homem que fizer isto, e o filho do homem que lançar mão disto: que se abstém de profanar o sábado, e guarda a sua mão de cometer o mal” (Is 56.1,2). Observemos que o filho de Amoz inicia sua fala coma expressão clássica: “assim diz o Senhor”, que serve para introduzir profecias. Dessa maneira, o Senhor adverte o povo que sairá do exílio (lembre-se de que o livro do profeta Isaías pode ser dividido em três partes: 1-39 [o que os liberais chamam de primeiro Isaías], onde se trata da invasão Babilônica; 40.1-55.13 [o que os liberais chamam de deutero-Isaías] e trata das primeira e da segunda deportação do povo e 56.1-66 [o que os liberais chamam de Trito-Isaías] tratando do retorno dos exilados).

O Senhor está exortando de antemão o povo daquele período de Esdras e Neemias a duas orientações: “manter a retidão” e “fazer a justiça”. No primeiro imperativo o verbo hebraico utilizado é o shâmar (שָׁמַר), que significa guardar, manter e vigiar. A retidão é um compromisso que exige decisões diárias. No segundo imperativo, o verbo âsâh (עָשָׂה) indica que a justiça precisa ser produzida. A razão para se manter a retidão e a fazer a justiça é o fato de a salvação e a justiça estava para vir ou se manifestar. Sabemos que essa justiça é manifesta em Jesus na plenitude do tempo (Gálatas 4.4).

O cristão precisa manter a retidão e fazer a justiça não para ser salvo, porque somos salvos pela graça (Efésios 2.8), contudo os eleitos deve ser reconhecido pelos frutos que pratica (Mateus 7.20), porque “somos feitura sua (do Pai), criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus antes preparou para que andássemos nelas” (Efésios 2.10).

Isaías afirma que esse bom procedimento (manter a retidão e fazer a justiça) fazer do homem bem-aventurado ou feliz, contudo o Profeta mostra de forma prática como esse homem feliz procede em relação ao Senhor e liga o manter a retidão e o fazer a justiça à guarda do sábado. Diante desse versículo (Isaías 56.2), um sabatista poderia argumentar: “se sua única regra de fé e prática é a Palavra, por que você continua guardando o domingo?”.

A conclusão que chegaremos é que esse pensamento não pode crer em uma revelação orgânica (ou dinâmica), assim como, interpretar o Novo Testamento de tal maneira que sirva a sua ideologia pessoal e não aos propósitos do Espírito Santo.

De fato, em Êxodo 20.8-11, O Senhor ordena que os sétimo dia (o sábado) seja santificado. Para que esse mandamento fosse cumprido, o maná podia ser colhido de forma dobrada na sexta de tal maneira não estragaria (Êxodo 16.23-25) e a pena para aquele que desconfiasse desse preceito era a morte (Números 15.32-35). Contudo o descanso proposto pelo Senhor ao seu povo vai muito além do proposto para eesse ou aquele dia, mas o escatológico (Hebreus 4.9-11).

Jesus não considerava guardar o sábado o maior dos mandamentos (Mateus 22.35-40). A igreja passou a guardar o primeiro dia da semana e não mais o sétimo (Atos 20.6,7; 1Coríntios 16.1,2). Em Atos 20 vemos a referência mais antiga ao culto dominical. Segundo Kistemaker a expressão “partir o pão” (κλάσαι ἄρτον) indica culto (Atos 2.42,46). Vemos que Paulo prega demoradamente nesse dia , até a meia noite. Quando a igreja cristã teve de deliberar sobre a inclusão de gentios e judaizantes queriam obriga-los a circuncisão e a dieta de Moisés (Atos 15.5), o Concílio não viu a guarda do sábado como algo a ser evitado para não escandalizar os mais fracos na fé (Atos 15.28,29). Não vemos no Novo Testamento apelos a guarda do sábado como Jeremias 17.19-27 no Antigo Testamento. Contudo, em Mateus 12, a rigidez farisaica para com a observância do shabbat é criticada por Jesus que se coloca em posição privilegiada como senhor/dono do sábado (Mateus 12.8) e, por isso, como afirma Carson, em posição não apenas para interpretar a lei ou mudar as interpretações judaicas, mas para ordenar a própria lei. Quando vemos a Bíblia por esse prisma entendemos que aqueles que têm a Palavra como a única regra de fé e prática guardam o domingo.

Quando o sabatista o julgar como um crente inferior por não observar o sétimo dia lembre-o de riscar o versículo em que Paulo afirma: ninguém, pois, vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa de dias de festa, ou de lua nova, ou de sábados que são sombras das coisas vindouras; mas o corpo é de Cristo” (Colossenses 2.16,17).

Portanto, Isaías não está ligando a felicidade, a retidão e a justiça à vida de alguém que observa um dia específico, mas que nutre profunda intimidade com o Senhor, pois aquele que não cumpre de forma contumaz a Palavra não pode amar a Jesus, tampouco a Deus (1João 5.2-4).